ANGOLA: Vivo uma vida dupla

8 11 2009

LUANDA, 6 Novembro 2009 (PlusNews) – Sou uma activista de SIDA e me considero exemplar. Não quero dar meu nome, porque na minha vida privada só duas irmãs sabem o que é o meu trabalho e que sou seropositiva há mais de dez anos. Meus filhos e meu namorado nem desconfiam.

Presto aconselhamento a tanta gente que perdi a conta. Duas vezes por semana faço visitas a seropositivos internados no hospital, vou à casa dos utentes e cato água quando eles não conseguem.

Também levanto medicamentos no hospital para os que não têm forças para ir até lá. Às vezes acordo às 5 horas da manhã para chegar cedo e marcar lugar no hospital para os que moram longe. Ainda encontro tempo para trabalhar com crianças seropositivas e cuidar dos meus netos.

Quando me converti, em 1995, já era seropositiva. Eu vivia doente. Fui perdendo corpo, emagrecendo muito, tinha paludismo, tumores na pele e precisei me mudar para a casa de minhas irmãs para ser cuidada por elas.

Passei mais três anos doente e cheguei a pesar 40 quilos. Melhorei, voltei para casa no ano 2000 e dois anos depois estava muito doente de novo. Só em 2003 tomei coragem e fui testar – o teste deu positivo para VHI.

Pedi uma direcção a Deus. Naquela época praticamente não havia tratamento em Angola. Consegui iniciar o meu porque me abri com uma senhora da Junta Nacional, que enviava pessoas para tratamento no exterior. Ela me encaminhou para a Clínica Multiperfil em Luanda, que era a única a fornecer este tipo de tratamento no país.

Em 2004 comecei a tomar antiretrovirais. Nunca mais fiquei doente: nestes anos todos só tive paludismo e dor de dente. Peso 68 quilos agora e me sinto ótima.

O apoio piscológico encontrei na Associação Luta pela Vhida, onde conheci pessoas como eu e deixei de achar que era a única a estar a passar por aquela situação.

Participei logo depois da criação de uma ONG que trabalha com prevenção e com cuidados a seropositivos e estou trabalhando lá até hoje.

Há seis anos tenho uma relação, mas o meu namorado não sabe que sou seropositiva. Cuido dele, por isto não me interessa contar. Deixei de fazer filhos muito cedo, aos 20 anos. Isto não é comum em Angola, onde nós mulheres somos encorajadas a termos muitos filhos. Tive dois e não quis mais. Quando meu namorado começa a insistir para ter sexo sem camisinha, digo que não quero compromisso com filhos.

No início, escondi dos meus filhos para que eles não sofressem. Mas agora, aos 46 anos, vivo sozinha, sou independente, estou saudável, não vejo necessidade de contar. Também não posso parar de trabalhar, me faz muito bem. Então vivo esta vida dupla.

Meu telefone não para. As pessoas que eu aconselho me ligam ou parentes me telefonam para dizer que o seropositivo está a beber, parou de tomar os antiretrovirais. Eu procuro a pessoa e converso. Muita gente desiste por causa da discriminação. Não quer ser visto a tomar a medicação.

Digo aos familiares, ao namorado e aos amigos que trabalho como ativista em ONGs ligadas à saúde. Não quero fotos nem de costas: meus filhos são muito espertos, estão todo tempo na internet, podem descobrir.

PlusNews – 06.11.2009


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