Uma recente pesquisa realizada nos Estados Unidos sugere que o HIV progride mais rápido em mulheres do que em homens que apresentam níveis semelhantes do vírus no sangue.
Segundo o estudo desenvolvido no Hospital Geral de Massachusetts, as células do sistema imunológico chamadas por “dendríticas plasmocitóides”, que estão entre as primeiras a reconhecer e lutar contra o HIV no corpo, se mostraram mais activas nas mulheres, o que não é bom.
“Uma ativação mais forte do sistema imunológico pode ser benéfica nos primeiros estágios da infecção, resultando em níveis mais baixos da replicação do HIV, mas a replicação viral persistente e a ativação crônica mais forte do sistema imunológico podem levar ao progresso mais rápido da Sida, o que tem sido visto em mulheres”, explicou Marcus Altfeld, líder da pesquisa.
Além dessa indicação, observa-se também que as mulheres são mais vulneráveis à infecção do HIV devido à grande superfície da mucosa da vagina exposta durante a penetração sexual.
E para piorar, o esperma contém uma maior concentração do HIV do que o líquido vaginal, o que aumenta a chance do homem ser o transmissor e a mulher a receptora do HIV.
Hoje, a taxa de seroprevalência em raparigas adolescentes em África é geralmente cinco vezes mais alta do que a taxa entre rapazes da mesma idade.
No caso de Moçambique, o Impacto Demográfico do HIV e Sida estima que de cada cinco pessoas infectadas, três são mulheres.
Mas a vulnerabilidade é apenas biológica?
Graça Samo e Adélia de Melo Branco são, respectivamente, Directora do Fórum Mulher e Coordenadora do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) em Moçambique.
Na opinião delas, os factores biológicos contribuem para a propagação do HIV no sexo feminino, mas são os factores culturais os principais responsáveis.
Elas citam o baixo poder das mulheres em negociar o preservativo; a violência sexual e o sexo intergeracional, que consiste em mulheres terem como parceiros homens mais velhos – quase sempre por questões económicas – que podem por sua vez ter tido várias parceiras sem protecção, tendo assim mais possibilidade de estar infectado.
“Desde pequena nós mulheres aprendemos que temos que agradar os homens… E há uma grande pressão por ter filhos e ter filhos é fazer sexo sem protecção, o que já é por si um risco de infecção do HIV”, disse Samo.
Para ela, que apoia às associações que actuam para o desenvolvimento do poder da mulher moçambicana, ainda existe uma estrutura social muito forte em que a mulher é submissa ao homem.
“Antes da feminização da Sida, penso que há uma feminização de todos os problemas que derivam das decisões de poder”, comenta. 
Melo Branco afirma que uma das prioridades do UNIFEM em Moçambique é envolver os homens nas políticas de protecção das mulheres.
“A minha empregada doméstica diz que o homem tem que bater na mulher para educar”, lamentou.
Segundo ela, será muito difícil fazer com que as mulheres exijam o uso do preservativo ou não aceitem a agressão física, se os homens não forem também conscientizados sobre estes problemas.
No livro Sida em África – Continente em Crise, uma das principais referência bibliográficas no assunto, a autora Helen Jackson elege algumas prioridades para diminuir a vulnerabilidade das mulheres frente o HIV, o que segundo Samo e Melo Branco também são aplicáveis à Moçambique:
- Educação sexual para crianças e adolescentes, dentro e fora das escolas;
- Estratégias de educação entre os pares;
- Centros de saúde sexual que sejam simpáticos aos jovens e forneçam teste de HIV;
- Grande disponibilidade de preservativos para os jovens sexualmente activos;
- Apoiar as raparigas para que elas permaneçam nas escolas e não desistam mesmo em consequência da pobreza ou da gravidez;
- Promoção da segurança económica das mulheres e suas famílias;
- Encorajar a distribuição equitativa entre homens e mulheres, bem como das responsabilidades relacionadas com os cuidados ministrados à família; e
- Promover os direitos das viúvas e dos órfãos em torno das questões de herança.
Para todas essas recomendações já existe pelo menos uma actividade em Moçambique, mas Jackson ressalta: “a mudança de estereótipos do género e a criação da equidade são objectivos para longo prazo, enquanto a prevenção do HIV é urgente.”
Mas Moçambique parece estar mesmo a querer diminuir este problema.
Na nova Estratégia de Aceleração da Prevenção do HIV, que será usada como base para o próximo Plano Estratégico Nacional de Combate ao HIV e Sida (PEN), as desigualdades de género são citadas entre os principais factores sociais de transmissão do vírus.
A presidente e a directora executiva do Conselho Nacional de Combate ao HIV e Sida também são mulheres, nomeadamente Luisa Diogo e Joana Mangueira.
Para Samo e Melo Branco, essa preocupação em incluir no PEN as desigualdades de género pode ser entendida como um dos primeiros passos em prol da protecção das mulheres contra o HIV e Sida em Moçambique.
Agência de Notícias de Resposta ao SIDA – 02.11.2009
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