De acordo com os resultados de um estudo apresentado na quarta-feira no 5o Congresso sobre Patogénese, Tratamento e Prevenção do VIH da International AIDS Society na Cidade do Cabo, África do Sul, as pessoas com infecção pelo VIH que conseguem uma resposta virológica sustentada (RVS) no tratamento para a hepatite C com interferão peguilado e ribavirina podem ter uma regressão da fibrose e até da cirrose.
A investigação, muito alargada, demonstrou que a fibrose hepática (o aumento do tecido cicatricial) tem tendência a progredir mais rapidamente nas pessoas co-infectadas com o VIH e o vírus do vírus da hepatite C (VHC) do que as pessoas apenas com hepatite C. Ao longo do tempo a fibrose pode progredir para cirrose, carcinoma hepático e falência hepática.
Investigadores espanhóis realizaram um estudo que tinha um duplo objectivo; avaliar a progressão da fibrose em doentes que tinham que tinham feito um tratamento de combinação para a hepatite C e avaliar a precisão da elastometria transiente (FibroScan) para determinar o estádio da doença hepática num coorte de pessoas co-infectadas com VIH-VHC.
A biopsia do fígado é considerada o “gold standard” ou boa prática para avaliar o dano hepático, mas provoca desconforto, é caro e envolve um pequeno risco de complicações. Por isso, os investigadores, estudaram vários métodos não invasivos, incluindo marcadores sanguíneos e a imagiologia. O FibroScan usa as ondas sonoras para medir a “rigidez” do fígado.
Este estudo de coorte prospectivo incluiu 294 doentes co-infectados pelo VIH/VHC tratados para a hepatite C, entre 2000 e 2008. Um subgrupo de 171 participantes foram submetidos a biopsia do fígado antes de iniciar o tratamento e 157 também foram examinados usando o FibroScan durante o seguimento. O estadiamento da fibrose hepática foi feito numa escala que variava entre 1 (ausência ou fibrose moderada) e 4 (cirrose). A regressão da fibrose foi definida como um decréscimo de pelo menos um ponto.
A maioria dos participantes (80%) era constituída por homens e tinham uma idade média de 41 anos. Estavam infectados pelo VHC há pelo menos 18 anos, em média. Metade tinham um genótipo do VHC difícil de tratar e pouco mais de um terço tinha o genótipo 3. No início do tratamento, cerca de metade tinha fibrose ligeira ou moderada, mas 23% tinha evidências de cirrose.
Todos os participantes apresentavam infecção pelo VIH controlada. Estavam sob tratamento anti-retroviral, se indicado, e 78% tinha carga viral abaixo das 50 cópias/ml. No início do estudo, a contagem média das células CD4 era de cerca de 500/mm3, mas a contagem mais baixa no estudo foi de 172 células/mm3 e cerca de um quarto tinha diagnóstico de SIDA.
Os doentes foram tratados com interferão peguilado e ribavirina ajustada ao peso. O tratamento foi planeado para 48 semanas e cerca de metade completaram o tratamento de um ano. Globalmente, 43% conseguiu uma RVS ou seja manteve carga viral indetectável para o VHC seis meses após terem completado o tratamento.
O exame com Fibroscan foi feito, em média, 44 meses após o fim do tratamento (num intervalo que ia de um mês até 88 meses). Os resultados mostraram-se bem distribuídos, 28% dos participantes apresentaram regressão da fibrose ou melhoria, 35% não apresentou alterações e 37% com progressão ou agravamento.
Os doentes com RVS tinham uma probabilidade significativamente maior de obter uma regressão do nível de fibrose do que os doentes não respondedores ao tratamento: entre os doentes com RVS, 38% tiveram pelo menos uma redução de um ponto na tabela da fibrose e 24% tiveram pelo menos 2 pontos de redução.
Alguns doentes já com cirrose apresentaram melhoria caracterizada como “reversão da cirrose”. Como no caso anterior a probabilidade de reversão foi maior nos doentes com RVS.
Um subgrupo de 96 doentes fez um segundo exame com Fibroscan em média 52 meses após o tratamento (ou oito meses depois do primeiro exame). Os resultados foram ou semelhantes ou melhores, indicando uma melhoria continuada com o passar do tempo.
Depois de fazer o ajustamento para outros factores, a RVS foi o único factor significativamente associado com a regressão da fibrose. Contrastando com estudos anteriores neste estudo nem o genótipo do VHC nem a carga viral de VHC basal, nem a contagem de células CD4 nem o tipo de tratamento para a hepatite C, nem sequer o tratamento anti-retroviral foram considerados factores preditivos dos resultados obtidos.
Os investigadores concluíram que a melhoria na fibrose se verifica numa proporção substancial dos doentes com respostas sustentadas ao tratamento da VHC com base no interferão. Apesar de menos comum, alguns não-respondedores também tiveram regressão na fibrose.
Estas conclusões, declararam os autores, apoiam o uso mais alargado do tratamento da hepatite C em doentes co-infectados com VIH/VHC. Os objectivos dos tratamentos no futuro, concluíram os investigadores, devem ser a regressão da fibrose assim como a erradicação viral.
Liz Highleyman/nam – 30.07.2009
Referência
Marti-Belda P et al. Fibrosis regression in HIV/HCV coinfected patients with sustained virological response to pegylated interferon plus ribavirin. 5º Congresso sobre Patogenese, Tratamento e Prevenção do VIH da International AIDS Society, resumo MoAb203, 2009.

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