A incidência anual de cancro anal nas pessoas com VIH tem continuado a aumentar nos últimos anos, encontrando-se agora nos 128 casos por 100 000 pessoas, ou seja, um caso por cada 784 pessoas. Os dados foram apresentados durante a 5a Conferência da IAS, na quarta-feira, por Nancy Crum-Cianflone, do Infectious Disease Clinical Research Program (Programa de Investigação Clínica de Doenças Infecciosas) dos EUA. Note-se que este valor é quase cem vezes maior do que o da população em geral (1.4 por 100 000).
Numa outra comunicação, Stephen Berman, do Veterans Administration Healthcare System, revelou que os dados de um estudo realizado em veteranos das forças armadas co-infectados com VIH e VPH (Vírus do Papiloma Humano) indiciavam que até 89% dos homens com VIH poderiam retirar, pelo menos, algum benefício de uma das vacinas para o VPH actualmente aprovadas; para 53% deles, o benefício poderia mesmo ser substancial, isto na ausência de um compromisso da resposta imune normal à vacina decorrente da infecção pelo VIH.
No primeiro estudo, os investigadores analisaram a incidência de cancro anal nas pessoas seropositivas para o VIH entre 1985 e 2008. Os números foram obtidos a partir do U.S. Military Natural History Study.
Dessa forma, um total de 4 901 participantes infectados com o VIH – 55% dos quais com data de seroconversão conhecida – contribuíram com 40 951 pessoas anos de follow up.
Foi, pois, neste grupo que os investigadores procuraram estudar a associação entre as contagens de CD4s, o uso de terapêutica anti-retroviral (TARV), as doenças definidoras de SIDA, as infecções sexualmente transmitidas (ISTs) e o risco de desenvolvimento de cancro anal.
Este cancro foi, assim, diagnosticado em 20 doentes, todos homens, 55% dos quais caucasianos. Na altura do diagnóstico do cancro, a idade média dos afectados era de 42 anos, tendo-se registado 40% dos casos abaixo dos 40 anos.
A taxa de incidência deste cancro foi cinco vezes mais elevada na era pós-HAART do que na pré-HAART, tendo a incidência anual passado de 11 casos por 100 000 pessoas, antes de 1996, para 55 por 100 000, no período 1996-2008.
Ao longo dos anos pós-HAART, a incidência aumentou de 13.4 por 100 000 no período 1996-2000 para 51 por 100 000 nos anos 2001-2005 e 128 por 100 000 entre 2006 e 2008.
Constatou-se também que a incidência foi consideravelmente mais elevada nas pessoas com mais tempo de infecção pelo VIH. No grupo de pessoas com menos de 10 anos de infecção, a incidência verificada foi de 28 por 100 000; nas pessoas com 10-15 anos de infecção, a incidência foi de 63 por 100 000; finalmente, nas pessoas com mais de 15 anos de infecção, o valor foi de 348 casos por 100 000 – um caso por 288 doentes por ano.
Na análise multivariada, apenas o diagnóstico de SIDA e o nadir de CD4s mostraram associação com o cancro anal. Assim, o facto de se ter tido uma doença definidora de SIDA aumentava o risco de cancro em 3.4 vezes. Por outro lado, por cada 50 células/mm3 que o nadir de CD4s subisse, o risco de cancro decrescia em 15%.
A gonorreia também se encontrava marginalmente associada com o cancro anal, ao contrário da HAART, que não mostrou ser protectora contra o seu desenvolvimento (p = 0.19).
Poderá a vacina do VPH ajudar?
No outro estudo já referido neste artigo, realizado em antigos membros das forças armadas dos EUA, o Dr. Stephen Berman investigou a infecção pelo VPH (nos seus vários subtipos) em 62 homens seropositivos para o VIH, 90% dos quais gays e 90% também dos quais sob HAART e com carga viral indetectável.
“Têm sido publicados muito poucos dados sobre a capacidade das pessoas seropositivas para o VIH responderem ao Gardasil® [a vacina quadrivalente para o VPH]”, referiu o autor. “Será que elas conseguem desenvolver uma resposta serológica adequada? E que subgrupos poderão ou não beneficiar da vacina?”.
O estudo incluiu, pois, a análise serológica dos participantes, para ver se estes tinham anticorpos para os subtipos 16 e 18 do VPH. Estes subtipos, as duas variantes de ‘alto risco’ mais frequentes do VPH, são responsáveis por 70% dos casos de cancro anal e cervical (cervical = do colo do útero, na mulher). As vacinas actualmente disponíveis, Gardasil® e Cervarix®, produzem um elevado nível de protecção contra estas estirpes, em pessoas que não estejam já por elas infectadas.
Além disso, o Gardasil® protege também contra a infecção pelos subtipos 6 e 11, responsáveis por cerca de 95% das lesões virais não-malignas.
Aos participantes foi também realizado um esfregaço anal, para detectar células pré-malignas, bem como um rastreio anal, para detectar DNA do VPH, elemento que indica a presença de vírus em reprodução activa. Os doentes recebiam, então, a dose inicial de Gardasil®.
As segunda e terceira doses eram depois administradas aos meses 2 e 6. Ao mês 7 eram realizados novamente testes para os anticorpos contra o VPH, DNA do VPH e células pré-cancerosas.
Os resultados mostraram que 34% dos homens do estudo tinham, inicialmente, anticorpos para o VPH-16, 6.4% para o VPH-18 e 3.2% para ambos. A maioria (56.5%), portanto, não tinha anticorpos para as duas estirpes do VPH com maior potencial carcinogénico, isto é, maior potencial para produzir cancro anal e genital.
Sessenta e três por cento dos homens tinham DNA do VPH (de qualquer dos tipos de alto risco) detectável nas amostras anais, e 22.6% dos homens apresentavam DNA do VPH dos subtipos 16, 18 ou ambos. Isto significa que 40% dos homens apresentavam infecção activa por outros tipos de VPH (embora os subtipos que não são o 16 e o 18 estejam associados com uma progressão muito mais lenta para cancro).
O autor do estudo referiu que os homens com DNA detectável poderiam ser ou homens com uma infecção relativamente recente e uma resposta imunitária normal, ou homens com uma infecção prolongada e uma resposta imunológica atrasada ou inexistente.
Os últimos apresentam um risco maior de desenvolver cancro.
Nas pessoas seronegativas para o VIH, os anticorpos para o VPH desenvolvem-se 6-9 meses depois da infecção, acabando por eliminá-la do organismo. Este processo, porém, encontra-se atrasado e atenuado nas pessoas com VIH, o que, provavelmente, estará por trás das taxas de cancro mais elevadas.
Doze indivíduos apresentavam células anais anormais, seis dos quais lesões intra-epiteliais pré-malignas. Destes doze, dez apresentavam DNA do VPH detectável, três dos quais correspondiam a VPH-16, três a VPH-16 e VPH-18 (co-infecção), e quatro a outros tipos (que não o 16 ou o 18).
Registou-se, por outro lado, um total de 11% de doentes com anticorpos quer para o VPH-16, quer para o VPH-18, e com evidência de material genético destas estirpes, situação indicativa de uma resposta de anticorpos ineficaz.
Em resposta a uma pergunta colocada no fim da apresentação, Berman referiu ser possível que a administração a estes homens da vacina do VPH talvez pudesse vir a desencadear uma resposta muito mais forte, que talvez pudesse resultar na eliminação da infecção, “mas a Merck (fabricante do Gardasil®) não dispõe de qualquer dado sobre a eficácia da administração da vacina a pessoas com infecção já existente”.
No conjunto, 53% dos homens não tinha evidência nem de exposição nem de infecção pelos VPH 16 e 18, podendo provavelmente por isso retirar um importante benefício da administração da vacina (desde que a infecção pelo VIH não comprometa, é certo, a resposta imunitária).
Entretanto, 35% apresentava uma das estirpes, podendo por isso beneficiar, pelo menos, da vacinação contra a outra estirpe.
Becker comentou que a proporção de homens com anticorpos para o VPH-16 era mais elevada do que a anteriormente reportada. Contudo, dado que 40% dos homens apresentavam sinais de infecção activa por subtipos que não o 16 ou o 18, uma segunda geração de vacinas polivalentes deveria ser desenvolvida.
Referências
Crum-Cianflone N et al. Anal cancers among HIV-infected persons: HAART is not slowing rising incidence. 5th IAS Conference on HIV Treatment, Pathogenesis and Prevention, Cape Town, abstract WeB101, 2009.
Berman S et al. Seroprevalence of antibodies to HPV-16 and HPV-18, and correlation with the presence of HPV DNA and anorectal cytologic abnormalities in a cohort of HIV-positive men involved in a study of HIV-positive men receiving the quadrivalent HPV vaccine, Gardasil. 5th IAS Conference on HIV Treatment, Pathogenesis and Prevention, Cape Town, abstract WeB102, 2009.
nam – 23.07.2009
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