Ajuda alimentar e tendas de plástico são marcas de todos os desastres. Já preservativos e antiretrovirais nem sempre, embora as agências humanitárias reconheçam a ligação entre emergências e aumento do risco de HIV/SIDA.
“Muitas vezes a prevenção do HIV não é vista como uma prioridade, especialmente em emergências que acontecem subitamente. Mas a prevenção do HIV é uma questão que salva vidas e deve ser vista como uma prioridade na resposta à emergência,” disse Mumtaz Mia, conselheira regional do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/SIDA (ONUSIDA) para a resposta humanitária na África Austral e do Leste
Pesquisas indicam que a relação entre o HIV e emergências é complexa, mas peritos concordam que as crises humanitárias intensificam a vulnerabilidade.
Situações de alto risco
“Estudos recentes em Moçambique, no Haiti e no Quénia descobriram um aumento em relações sexuais consensuais e motivadas por trocas, provavelmente desprotegidas dada a falta de disponibilidade de preservativos. Um aspecto que, claramente, pode aumentar o risco da transmissão do HIV,” disse Mia.
Não é de surpreender que uma pesquisa do Overseas Development Institute (ODI) da Grã-Bretanha , descobriu que o sexo consensual era uma resposta natural ao tédio da vida no campo, ou uma forma de procurar consolação; sexo transaccional era igualmente prevalente como uma tentativa de se beneficiar de uma situação ruim.
O encontro, a mistura de pessoas e a erosão de controlos sociais é uma consequência do deslocamento que os trabalhadores humanitários estão a reconhecer cada vez mais.
Sari Seppänen, oficial de programas da ONUSIDA, notou que depois da erupção da violência política no Quénia em 2007, jovens deslocados gravitavam uns em volta dos outros. “Numa ocasião, um grande número de jovens foi agrupado numa parte do acampamento, separados dos seus pais, o que criou uma óptima oportunidade para criar redes de contactos sexuais,” disse ela.
James Wanyama, oficial de programas nacional da ONUSIDA no Uganda, disse que o risco do HIV era exacerbado pela falta de acesso a preservativos como resultado do colapso dos serviços de abastecimento durante o conflito prolongado, no norte do Uganda.
“A deslocação de pessoas em campos congestionados e a maior ociosidade, conjugados com a pobreza, leva a comportamentos sexuais de risco,” disse ele. “Houve um colapso das normas sociais da comunidade que protegiam mulheres, raparigas e outros jovens de comportamentos de risco; isto também estava associado a estupros e outras formas de violência baseadas no género”.
Treinamento em prevenção
Segundo Seppänen, os trabalhadores humanitários precisam de ser formados em orientações de como lidar com a prevenção do HIV em emergências, como está estipulado pelo Comité Permanente Interagencial (IASC em Inglês), mecanismo que coordena a a assistência humanitária dos parceiros dentro e fora do Sistema das Nações Unidas.
Algumas das intervenções de prevenção que o IASC recomenda são: serviços de transfusão de sangue seguros, provisão regular de preservativos, gestão de infecções transmitidas sexualmente, educação na redução do risco do HIV, provisão de serviços de saúde reprodutiva, disponibilidade de serviços de prevenção da transmissão da mãe para filho, criação de medidas para prevenir e responder efectivamente à violência sexual, e formações para jovens que os ajude a serem capazes de evitar riscos em sexo transaccional ou casual.
“Pessoas em abrigos normalmente recebem kits de cozinha ou de higiene que poderiam incluir preservativos”, sugeriram os autores de um recente artigo informativo da ODI, acerca do HIV em Emergências: Não existe um Tamanho que Sirva a Todos.
“O aumento do sexo transaccional, combinado com o influxo de grupos tais como condutores de camião, trabalhadores humanitários e militares, pode aumentar o risco de transmissão do HIV, especialmente onde os preservativos não estão disponíveis”, apontaram eles.
“Formas de contrariar esta estratégia para lidar com o problema precisam de ser exploradas, tais como esquemas atempados, micro-crédito dirigido e também mais campanhas de prevenção para grupos de alto risco.”
A deslocação de pessoas em campos congestionados e a maior ociosidade, conjugados com a pobreza, leva a comportamentos sexuais de risco |
Melhores planos de contingência
Seppänen disse que muitas vezes, a resposta ao HIV em situações de emergência humanitária é um reflexo, o que leva as organizações a tomarem decisões instantâneas e imediatas que podem ser imperfeitas.
Mia, da ONUSIDA, comentou: “O HIV só pode ser gerido em emergências se a resposta for melhor coordenada e o HIV for devidamente integrado na resposta institucional, desde a preparação até a recuperação.”
“Para que o HIV seja abordado efectivamente na resposta humanitária, tem que ser dentro das orientações da resposta nacional à SIDA, com os mecanismos de liderança e coordenação estabelecidos para a resposta à SIDA,” notou ela. “O envolvimento e liderança das autoridades nacionais de SIDA, em parceria com a sociedade civil é, portanto, vital.”
Um estudo em 2007, Estimativas do fardo do HIV em Emergências, descobriu que 10 entre 15 países com o maior número de pessoas vivendo com o HIV em 2005, foram afectadas por crises humanitárias ou grandes conflitos entre 2002 e 2006.
O estudo também estimou que 1,8 milhão de pessoas vivendo com o HIV foram afectadas por emergências no ano de 2006, representando 5,4 por cento do número global de pessoas infectadas com o vírus.
PlusNews – 09.07.2009
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