Na noite de 28 de junho de 1969, há 40 anos, no bairro de Greenwich Village em Nova Iorque, o mais popular bar gay, Stonewall Inn, estava repleto de gays, lésbicas, travetis e drags queens que lamentavam a morte da diva Judy Garland, a eterna Dorothy do filme O mágico de Oz, que estava sendo velada naquele dia. Em meio ao ambiente de comoção, a polícia invadiu o bar naquela noite para mais uma batida de rotina. Inconformados com a repressão policial, os frequentadores do Stonewall Inn lideraram naquela madrugada e nas quatro noites seguidas uma rebelião que resultou no espancamento e prisão de dezenas de manifestantes. Mas resultou também no início do movimento gay nos Estados Unidos e, consequentemente, em todo o mundo.
Inaugurado em 1966, o Stonewall Inn era comandado por Tony Lauria, filho de um mafioso bastante influente chamado Ernie e que comandava parte do Greenwich Village. No livro Stonewall The Riots That Sparked The Gay Revolution, o autor David Carter escreveu de forma clara todos os acontecimentos conectados ao Stonewall Inn. Um desses relatos retrata um dos personagens que ainda é contemporâneo – Harvey Milk e o cientista cristão Craig Rodwell. “Uma noite quando Rod estava cruzando o Washington Square Park, um oficial da polícia deu a ele uma ordem ‘mova-se bicha’, mas ele replicou e então foi preso. Até então Milk era um bancário, e logo os dois começaram a se relacionar”, conta Carter.
Outro personagem marcante de 69 foi o bar tender Tree, um nova iorquino que descobriu em Greenwich Village um porto seguro. Seu lugar preferido era o restaurante Mama’s Chick’N’Rib, onde ele trabalhou até o final do ano de 1950. Foi exatamente neste restaurante que Tree, acompanhado de amigos, viu o motim de Stonewall vir à tona.
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Encontro com os veteranos da rebelião de Stonewall |
Elizabeth e o ativista Willianson Henderson |
“Eu estava no Mama’s com amigos, próximo ao bar, quando alguém entrou dizendo que havia uma briga no local, e então, eu e meus amigos decidimos ir e ver o que estava acontecendo. Fomos presos e na manhã seguinte um juiz disse ‘saiam daqui, vocês estão desperdiçando meu tempo’. Voltamos ao bar e formamos um grupo de cerca de 400 integrantes e caminhamos até o Central Park, todas as pessoas que estavam na rua gritavam bichas, gays, abominação, então resolvemos voltar a Greenwich Village”, relata Tree.
A briga a que Tree se refere começou na madrugada de sábado, 28 de junho de 1969 e é contada por Lisa Richards, Howard Wilmot e Simon Gage no livro Queer. “Às 3 horas da manhã, nove policiais entraram no bar com lanternas acesas e pediram a carteira de identidade das pessoas que estavam no local. Funcionários foram arrastados para fora do bar por estarem comercializando bebida alcoólica sem permissão. Um bar tender, três drag queens, um porteiro e uma lésbica começaram a atirar moedas e garrafas de bebidas contra os policiais. Às 3h30 da manhã, 400 pessoas, dentre gays, lésbicas e drag queens travaram uma batalha contra a polícia.15 minutos depois os policiais prenderam 13 pessoas por acusações que foram de assédio, resistência à prisão e conduta desordenada.”
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Willianson Henderson, fundador do Stonewall Veteran’s Association |
O bar tender Tree participou da rebelião de Stonewall |
De acordo com Tree, um dos personagens chaves dessa noite foi a travesti Sylvia Rivera, que tomou as dores de todos os envolvidos e iniciou o confronto com a polícia naquela madrugada. Sobre o episódio, Sylvia relembrou ao jornal The New York Times, em 20 de fevereiro de 2002, ano de sua morte: “Eu não posso perder um minuto disso. É a revolução”.
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Sylvia Rivera, uma das primeiras a começar o motim em Stonewall |
Na noite de sábado, 28, por volta das 22h, dezenas de gays estavam reunidos e gritavam “Poder Gay e Liberdade na rua Christopher”. É exatamente no número 51-53 da rua Christopher onde fica o bar Stonewall Inn.
“No domingo 29 de junho, às 2h15 da manhã, a polícia continuou com sua tática armada e fazia uma espécie de batida na Christopher. Mas a multidão de gays continuava a perturbar a tropa, e começou a dispersar pelas ruas estreitas, assim podia cercar os policiais. Dois homens foram espancados e passados 45 minutos a multidão se desfez. Às 4h da manhã três pessoas são presas sob a acusação de assédio e conduta desordenada”, relatam os autores no livro Queer.
Os protestos continuaram na noite de terça-feira, dia 1º de julho, mas o mais sério ataque da polícia contra os manifestantes aconteceu na última noite do motim, na madrugada de quarta-feira, dia 2 de julho.
“Foram dias de terrorismo”, relata Willianson Henderson, outro personagem importante da história e fundador da Stonewall Veteran’s Association (SVA), onde acontece mensalmente reuniões em que são discutidos temas pertinentes à comunidade LGBT e seus direitos civis. Quando questionado quais os benefícios que a ONG traz a comunidade, Henderson é categórico: “Ajudamos pessoas portadoras do HIV, além de contribuir diretamente com palestras e esclarecimentos em eventos e escolas”.
Para o ativista, Stonewall não foi um motim, mas sim uma rebelião. Sobre o que o SVA representa hoje para os jovens gays, ele revela que pelo menos em Nova Iorque esta nova geração sabe o que foi a revolução de 1969. “O movimento daquele ano colaborou para a liberdade de expressão e imprimiu uma voz ativa direta em decisões políticas.” Já o prefeito de Nova Iorque, Ed Koch, enfatiza: “O SVA não é um grupo político, é mais do que isso”.
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A fachada do Stonewall Inn em 1969 |
Para o doutorando em Antropologia Social e Cultural no California Institute of Integral Studies, em São Francisco, Rodrigo Gomes Guimarães, houveram muitas conquistas e perdas, inocentes morreram, leis mudaram, e abriu precedentes para novas conquistas da comunidade LGBT. Além disso, a rebelião de 69 inspirou as Paradas do Orgulho Gay, que acontecem em diversos países pelo mundo. “Tudo o que não cumpre a universalidade, como na psicanálise, é negada, normaliza o mesmo credo sobre os movimentos sociais, como a crença de que as pessoas estão, hoje, mais livres, se comparado ao ano de 1969, por exemplo. A história tornou-se a progressão de tempo em que torna cada atrocidade um motor de progresso”, afirma Guimarães.
“Portanto, Stonewall foi um marco decisivo na vida de todos nós, enquanto seres pensantes, e nunca deverá ficar só na memória, é preciso agir, pois a luta ainda não acabou. Atualmente o Stonewall Inn, reaberto em 1991, recebe turistas de todo o mundo, porém o fato é que a nova geração não sabe nada sobre Stonewall, os jovens estão perdendo parte de sua essência”, finaliza Tree.
G.Online – 26.06.2009








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