BEIRA, 26 Junho 2009 (PlusNews) -
Afonso Neto*
Minha neta Toya, de cinco anos, é seropositiva. O pai abandonou minha filha logo após o nascimento da menina, depois de constatar que a mulher estava muito doente e que ele não teria dinheiro para sustentar o tratamento.
Os dois principais sofrimentos de Toya são a ausência da mãe e a hora em que ela tem que tomar os comprimidos. Ela toma os medicamentos às seis horas da manhã e às seis da tarde. Sempre pergunta por que tem que tomá-los e sente medo porque não aguenta suas reacções fortes.
Talvez quando ela for mais velha eu lhe explique por que sua mãe morreu e por que ela tem que tomar os remédios.
Vivo o dilema de ter que contar a Toya que ela tem o HIV porque sua mãe não observou os requisitos para evitar a transmissão vertical. Em final de 2006 sua mãe se suicidou por remorso, porque tinha medo que um dia sua filha pudesse condená-la por isso.
Eu me sustento com uma pequena banca, onde vendo cigarros, amendoim e doces. Mas o que eu ganho não é suficiente para alimentar Toya, que agora come muito por causa dos medicamentos. Na nossa casa as refeições são apenas um prato diário, na maioria das vezes arroz e feijão, que é recebido do apoio do hospital.
Outra coisa que me aflige muito é o facto de outras crianças de sua idade não poderem brincar com ela, porque os pais as proíbem. Ela vive sempre isolada. Acho que quando for um pouco mais velha vai notar que os vizinhos a tratam com desdém.
Sou viúvo e vivo sozinho com minha neta. Tenho medo de morrer e não poder acompanhar seu crescimento. Sem mim, ela ficará desamparada.
*nome fictício
PlusNews – 26.06.2009

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