Alunos mostram que ciúme não é amor

2 07 2009

Mais de cinco mil alunos, de mais de 250 escolas, envolveram-se em projectos destinados a alertar para a violência no namoro, que foram submetidos a concurso e superaram as expectativas da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género.

“O impacto deste concurso foi muito maior do que todas as expectativas e, pela apreciação (dos trabalhos), vimos que os jovens fizeram imensas pesquisas e envolveram-se turmas inteiras na construção de várias peças”, evidenciou a presidente da CIG, Elza Pais, citada pela agência Lusa.

O concurso foi lançado em Outubro, no âmbito de uma campanha destinada a alertar para as consequências do fenómeno que, segundo um estudo da Universidade do Minho, já afectou 25% dos jovens entre os 15 e os 25 anos. Os prémios serão entregues hoje.

Sob o lema “A Nossa Escola pela Não Violência”, alunos do 3.º Ciclo e do Ensino Secundário elaboraram 500 trabalhos em vários suportes, repartidos por diferentes categorias: cartaz ou poster, Tecnologias de Informação, concertos, exposições, acções de sensibilização e teatro e ainda o “Melhor Projecto Global”.

Segundo Elza Pais, houve “uma grande criatividade” e adesão por parte dos alunos, o que leva a comissão a pensar em desenvolver outras iniciativas do género. “O objectivo é que se crie um ‘elan’ nas escolas para que se continue a falar destes temas”, revelou.

Com a campanha, que incluiu distribuição de folhetos e workshops, a CIG quis “desconstruir um conjunto de mitos”. “Muitos jovens entendem o ciúme como um acto de amor, o que é grave”, disse Elza Pais, acrescentando: “Se interiorizam este valor, quer dizer que podem perpetuar e reproduzir a violência, achando que com essas atitudes estão a amar e a ser parceiros saudáveis”.

JN-30.06.2009





MOÇAMBIQUE: “Tenho medo de morrer e não ver minha neta crescer”

2 07 2009

BEIRA, 26 Junho 2009 (PlusNews) -
Afonso Neto*

Minha neta Toya, de cinco anos, é seropositiva. O pai abandonou minha filha logo após o nascimento da menina, depois de constatar que a mulher estava muito doente e que ele não teria dinheiro para sustentar o tratamento.

Os dois principais sofrimentos de Toya são a ausência da mãe e a hora em que ela tem que tomar os comprimidos. Ela toma os medicamentos às seis horas da manhã e às seis da tarde. Sempre pergunta por que tem que tomá-los e sente medo porque não aguenta suas reacções fortes.

Talvez quando ela for mais velha eu lhe explique por que sua mãe morreu e por que ela tem que tomar os remédios.

Vivo o dilema de ter que contar a Toya que ela tem o HIV porque sua mãe não observou os requisitos para evitar a transmissão vertical. Em final de 2006 sua mãe se suicidou por remorso, porque tinha medo que um dia sua filha pudesse condená-la por isso.

Eu me sustento com uma pequena banca, onde vendo cigarros, amendoim e doces. Mas o que eu ganho não é suficiente para alimentar Toya, que agora come muito por causa dos medicamentos. Na nossa casa as refeições são apenas um prato diário, na maioria das vezes arroz e feijão, que é recebido do apoio do hospital.

Outra coisa que me aflige muito é o facto de outras crianças de sua idade não poderem brincar com ela, porque os pais as proíbem. Ela vive sempre isolada. Acho que quando for um pouco mais velha vai notar que os vizinhos a tratam com desdém.

Sou viúvo e vivo sozinho com minha neta. Tenho medo de morrer e não poder acompanhar seu crescimento. Sem mim, ela ficará desamparada.
 
*nome fictício

PlusNews – 26.06.2009





QUÉNIA: Empregadas domésticas fazem mais do que o seu trabalho

2 07 2009

NAIRÓBI, 29 Junho 2009 (PlusNews) – Quando Nora Adhiambo, 21 anos, começou a trabalhar como empregada doméstica para uma família na capital do Quénia, Nairóbi, ela esperava cozinhar, limpar e cuidar das crianças; o que ela não esperava era ser obrigada a ter relações sexuais com seu patrão.

“Ele forçava-me a fazer sexo com ele; vinha sempre dormir comigo e não usava preservativo; isso continuou por dois anos seguidos”, disse ela a IRIN/Plusnews. “Ele mandou-me embora quando lhe contei que estava grávida; percebi mais tarde que eu não só havia deixado a casa grávida como também contaminada pelo HIV”.

Há cinco anos, quando tinha 16 anos, Adhiambo foi trazida pela sua tia à cidade para trabalhar para uma família após a morte de seus pais tê-la forçado a deixar a escola. Seus patrões pagavam-na 800 shillings quenianos por mês (US$10), mas o dinheiro era enviado directamente para a sua tia.

Após perder o seu emprego, ela encontrou abrigo numa igreja local e começou o tratamento antiretroviral (ARV); o seu patrão nunca foi incriminado por estupro nem por empregar uma menor de idade – as pessoas são autorizadas a trabalhar no Quénia a partir dos 18 anos.

Há mais de um milhão de empregadas domésticas no Quénia, segundo o Centro de Desenvolvimento e Treinamento Doméstico, que luta pelos seus direitos e bem-estar. A maioria está empregada de maneira informal, o que significa que os termos empregatícios – incluindo salário, dias de folga e seguro médico – são em grande parte determinados pelo empregador.

Por vezes, os salários são tão baixos que elas são forçadas a procurar por fontes de renda adicionais, incluindo o trabalho sexual. As que são forçadas a deixar a casa onde trabalham após terem sido violadas, recorrem ao trabalho sexual como única forma de sobrevivência.

“Apesar de nunca ter feito sexo com o meu patrão, eu faço-o com outros homens do bairro para ganhar dinheiro quando meus patrões estão fora trabalhando”, disse Lillian Atieno*, 17 anos, empregada doméstica em Nairóbi. “A maioria deles presume que estou confinada [a casa] e que, portanto, não faço sexo com muitas pessoas, então, eles raramente usam preservativo comigo.”

Maureen Murenga, gerente de programas na ONG local Mulheres Contra a SIDA no Quénia (WOFAK, em inglês), afirmou que o uso de preservativo entre empregadas domésticas é geralmente muito baixo. “A maior parte das vezes em que as empregadas domésticas fazem sexo não é planeada, portanto, o uso de preservativo é inexistente; além disso, poucas delas têm conhecimento sobre profilaxia pós-exposição [tratamento ARV que previne infecção por HIV após relação sexual] e muitas delas não procuram esses serviços.”

''Ele mandou-me embora quando lhe contei que estava grávida; percebi mais tarde que
eu não havia deixado a casa grávida, mas também infectada
pelo HIV
''

Leis laborais que não vigoram

O Quénia possui uma legislação que protege os direitos das empregadas domésticas, mas é raramente posto em vigor, e poucas mulheres sabem da existência do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos, Hoteleiros, de Instituições Educacionais, Hospitalares e Aliados (KUDHEIHA, na sigla em inglês), que foi estabelecida para proteger os seus direitos.

“A maioria das empregadas domésticas não é qualificada, tem pouca instrução escolar e nem mesmo sabe que tem direitos garantidos por lei”, disse Irene Opiyo, uma consultora de política laboral que gostaria de ver um sistema mais eficiente de compensação legal para as empregadas domésticas sendo posto em prática.

Uma pesquisa realizada na cidade litorânea de Mombasa, no Quénia, em 2009 pela KUDHEIHA e pelo Centro Americano de Solidariedade Laboral Internacional revelou que 77,3 por cento das 982 empregadas domésticas entrevistadas recebiam ordenados abaixo do salário mínimo, enquanto 32 por cento registou ter sido vítima de abuso sexual, verbal ou físico.

Ganhando conhecimento e construindo auto-estima

A Family Health International (FHI), que trabalha para melhorar a saúde reprodutiva ao redor do mundo, é responsável por um projecto que visa capacitar as empregadas domésticas informando-as sobre HIV/SIDA, sexualidade, saúde reprodutiva e meios para administrarem suas finanças pessoais.

Além do alto número de ocorrências de abuso sexual, as empregadas domésticas também estão sob alto risco de HIV porque as suas condições de trabalho dificultam seu acesso às mensagens de prevenção do HIV, e limitam seu acesso à assistência social. Usando a igreja como ponto de partida, o projecto da FHI conseguiu alcançar jovens mulheres e seus empregadores.

“Tornar a informação sobre HIV/SIDA disponível para essas jovens mulheres e fortalecer sua auto-estima e auto-valorização é muito importante para reduzir sua vulnerabilidade”, afirmou Jane Alaii, pesquisadora associada à FHI.

Tabitha Gathoni, uma empregada doméstica que participa do projecto da FHI, comentou: “Eu estou mais informada sobre o HIV do que estava antes, e através da formação eu agora consigo dar valor a mim mesma e ao meu trabalho. Agora, eu não posso fazer com o meu corpo o que eu conseguia facilmente fazer antes.”
PlusNews – 29.06.2009





Antiaids vira droga ‘recreativa’

2 07 2009
SÃO PAULO - Um trio perigoso começou a frequentar salas escuras de baladas e festas particulares, predominantemente procuradas pelo público gay. É a mistura de três pílulas – medicamento contra impotência, ecstasy e uma das drogas usadas no coquetel antiaids – que revela não apenas a postura suicida dos jovens com relação às doenças sexualmente transmissíveis como também a necessidade, a qualquer custo, de “alucinar” durante as noitadas.

O pagamento de até R$ 200 pela tríplice de comprimidos é justificada com argumentos que têm aterrorizado quem os escuta: o ecstasy é para pirar, o remédio antidisfunção erétil, para ter fôlego, aguentar todas as relações sexuais e aumentar a libido e o remédio contra aids é porque sabem que vão fazer sexo sem camisinha depois de tanta piração. Acreditam que o remédio pode impedir a infecção, o que não tem nenhuma comprovação científica. Usuários dizem que já havia a cultura de recorrer a fortes medicamentos para tratar o HIV pós-sexo de risco, chamado de “coquetel do dia seguinte”. Agora, as baladas mostram que engatinha a “moda” da pré-exposição.

O comportamento negligente não para aí. A combinação de remédios usada para tratar o vírus HIV, importante conquista para a sobrevivência dos pacientes soropositivos, também foi desvirtuada para a categoria de “drogas recreativas”. Além da ideia extremamente perigosa de que pode ser uma proteção para a roleta russa que é ter relações sexuais sem preservativo, também é consumido para dar um “plus no barato”, com o intuito de conseguir aumento da ereção e alucinação. O alerta dos especialistas quanto à prática é que mesmo que esse comportamento arriscado hoje esteja restrito ao grupo gay (e endinheirado), a história da aids já mostrou que a doença não segue nem respeita orientações sexuais.

O Estado de S. Paulo – 28.06.2009




Stonewall – 40 anos da rebelião que revolucionou o movimento gay

2 07 2009

Na noite de 28 de junho de 1969, há 40 anos, no bairro de Greenwich Village em Nova Iorque, o mais popular bar gay, Stonewall Inn, estava repleto de gays, lésbicas, travetis e drags queens que lamentavam a morte da diva Judy Garland, a eterna Dorothy do filme O mágico de Oz, que estava sendo velada naquele dia. Em meio ao ambiente de comoção, a polícia invadiu o bar naquela noite para mais uma batida de rotina. Inconformados com a repressão policial, os frequentadores do Stonewall Inn lideraram naquela madrugada e nas quatro noites seguidas uma rebelião que resultou no espancamento e prisão de dezenas de manifestantes. Mas resultou também no início do movimento gay nos Estados Unidos e, consequentemente, em todo o mundo.

Inaugurado em 1966, o Stonewall Inn era comandado por Tony Lauria, filho de um mafioso bastante influente chamado Ernie e que comandava parte do Greenwich Village. No livro Stonewall The Riots That Sparked The Gay Revolution, o autor David Carter escreveu de forma clara todos os acontecimentos conectados ao Stonewall Inn. Um desses relatos retrata um dos personagens que ainda é contemporâneo – Harvey Milk e o cientista cristão Craig Rodwell. “Uma noite quando Rod estava cruzando o Washington Square Park, um oficial da polícia deu a ele uma ordem ‘mova-se bicha’, mas ele replicou e então foi preso. Até então Milk era um bancário, e logo os dois começaram a se relacionar”, conta Carter.

Outro personagem marcante de 69 foi o bar tender Tree, um nova iorquino que descobriu em Greenwich Village um porto seguro. Seu lugar preferido era o restaurante Mama’s Chick’N’Rib, onde ele trabalhou até o final do ano de 1950. Foi exatamente neste restaurante que Tree, acompanhado de amigos, viu o motim de Stonewall vir à tona.

 Encontro com os veteranos da rebelião de Stonewall

 Elizabeth e o ativista Willianson Henderson

“Eu estava no Mama’s com amigos, próximo ao bar, quando alguém entrou dizendo que havia uma briga no local, e então, eu e meus amigos decidimos ir e ver o que estava acontecendo. Fomos presos e na manhã seguinte um juiz disse ‘saiam daqui, vocês estão desperdiçando meu tempo’. Voltamos ao bar e formamos um grupo de cerca de 400 integrantes e caminhamos até o Central Park, todas as pessoas que estavam na rua gritavam bichas, gays, abominação, então resolvemos voltar a Greenwich Village”, relata Tree.

A briga a que Tree se refere começou na madrugada de sábado, 28 de junho de 1969 e é contada por Lisa Richards, Howard Wilmot e Simon Gage no livro Queer. “Às 3 horas da manhã, nove policiais entraram no bar com lanternas acesas e pediram a carteira de identidade das pessoas que estavam no local. Funcionários foram arrastados para fora do bar por estarem comercializando bebida alcoólica sem permissão. Um bar tender, três drag queens, um porteiro e uma lésbica começaram a atirar moedas e garrafas de bebidas contra os policiais. Às 3h30 da manhã, 400 pessoas, dentre gays, lésbicas e drag queens travaram uma batalha contra a polícia.15 minutos depois os policiais prenderam 13 pessoas por acusações que foram de assédio, resistência à prisão e conduta desordenada.”

 Willianson Henderson, fundador do Stonewall Veteran’s Association

O bar tender Tree participou da rebelião de Stonewall

De acordo com Tree, um dos personagens chaves dessa noite foi a travesti Sylvia Rivera, que tomou as dores de todos os envolvidos e iniciou o confronto com a polícia naquela madrugada. Sobre o episódio, Sylvia relembrou ao jornal The New York Times, em 20 de fevereiro de 2002, ano de sua morte: “Eu não posso perder um minuto disso. É a revolução”.

 Sylvia Rivera, uma das primeiras a começar o motim em Stonewall

Na noite de sábado, 28, por volta das 22h, dezenas de gays estavam reunidos e gritavam “Poder Gay e Liberdade na rua Christopher”. É exatamente no número 51-53 da rua Christopher onde fica o bar Stonewall Inn.

“No domingo 29 de junho, às 2h15 da manhã, a polícia continuou com sua tática armada e fazia uma espécie de batida na Christopher. Mas a multidão de gays continuava a perturbar a tropa, e começou a dispersar pelas ruas estreitas, assim podia cercar os policiais. Dois homens foram espancados e passados 45 minutos a multidão se desfez. Às 4h da manhã três pessoas são presas sob a acusação de assédio e conduta desordenada”, relatam os autores no livro Queer.

Os protestos continuaram na noite de terça-feira, dia 1º de julho, mas o mais sério ataque da polícia contra os manifestantes aconteceu na última noite do motim, na madrugada de quarta-feira, dia 2 de julho.

“Foram dias de terrorismo”, relata Willianson Henderson, outro personagem importante da história e fundador da Stonewall Veteran’s Association (SVA), onde acontece mensalmente reuniões em que são discutidos temas pertinentes à comunidade LGBT e seus direitos civis. Quando questionado quais os benefícios que a ONG traz a comunidade, Henderson é categórico: “Ajudamos pessoas portadoras do HIV, além de contribuir diretamente com palestras e esclarecimentos em eventos e escolas”.

Para o ativista, Stonewall não foi um motim, mas sim uma rebelião. Sobre o que o SVA representa hoje para os jovens gays, ele revela que pelo menos em Nova Iorque esta nova geração sabe o que foi a revolução de 1969. “O movimento daquele ano colaborou para a liberdade de expressão e imprimiu uma voz ativa direta em decisões políticas.” Já o prefeito de Nova Iorque, Ed Koch, enfatiza: “O SVA não é um grupo político, é mais do que isso”.

 A fachada do Stonewall Inn em 1969

Para o doutorando em Antropologia Social e Cultural no California Institute of Integral Studies, em São Francisco, Rodrigo Gomes Guimarães, houveram muitas conquistas e perdas, inocentes morreram, leis mudaram, e abriu precedentes para novas conquistas da comunidade LGBT. Além disso, a rebelião de 69 inspirou as Paradas do Orgulho Gay, que acontecem em diversos países pelo mundo. “Tudo o que não cumpre a universalidade, como na psicanálise, é negada, normaliza o mesmo credo sobre os movimentos sociais, como a crença de que as pessoas estão, hoje, mais livres, se comparado ao ano de 1969, por exemplo. A história tornou-se a progressão de tempo em que torna cada atrocidade um motor de progresso”, afirma Guimarães.                         

“Portanto, Stonewall foi um marco decisivo na vida de todos nós, enquanto seres pensantes, e nunca deverá ficar só na memória, é preciso agir, pois a luta ainda não acabou. Atualmente o Stonewall Inn, reaberto em 1991, recebe turistas de todo o mundo, porém o fato é que a nova geração não sabe nada sobre Stonewall, os jovens estão perdendo parte de sua essência”, finaliza Tree.

G.Online – 26.06.2009