YAOUNDÉ, 16 Dezembro 2008 (PlusNews) – Maria Gisèle Tientcheu, 30 anos, activista da SIDA, desenvolveu resistência ao tratamento antiretroviral (ARV) de segunda linha, e teve que procurar fora dos Camarões, seu país natal, os medicamentos de que precisa.
Sua história recebeu muita atenção dos media nos Camarões, e colocou sob os holofotes uma preocupação cada vez maior quanto ao fato de que à medida que os países desenvolvem programas de tratamento, mais e mais pessoas vivendo com o HIV desenvolvem resistência aos medicamentos e precisam de drogas de segunda linha caríssimas.
Embora o número de pessoas que tenham-se tornado resistentes aos medicamentos de segunda linha ainda seja relativamente pequeno, o desafio é manter este número reduzido. Segundo muitos especialistas, a baixa adesão ao tratamento é a maior causa de desenvolvimento de variedades do vírus resistentes à medicação.
“Por diversas razões [inclusive o medo de exposição] certos pacientes esquecem de tomar seus remédios, ou pulam algumas doses; outros abandonam o tratamento e consultam curandeiros ou grupos de oração, onde recebem a promessa de cura rápida e duradoura”, disse Flavien Ndoko, responsável do programa da SIDA dirigido pela Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ).
Em Agosto deste ano, a GTZ, em colaboração com o Ministério da Saúde Pública e a Comissão Nacional da SIDA, lançou uma campanha de sensibilização encorajando os pacientes a aderirem ao tratamento.
Estima-se que 55 mil camaroneses seropositivos estejam a receber ARVs, quatro mil dos quais estão a ser tratados no hospital central (Hôpital Central de Yaoundé – HCY) na capital, Yaoundé, mas não há estatísticas oficiais quanto à taxa nacional de resistência.
Um estudo conduzido em 2007 com pacientes que recebiam tratamento neste hospital mostrou que 4,4 por cento dos pacientes desenvolviam resistência após um ano de tratamento.
Charles Kuafang, chefe da unidade de SIDA do hospital, disse que a taxa de resistência tinha diminuído em relação à taxa de 2002, quando um estudo similar revelou resistência de 16,2 por cento após somente oito meses de tratamento.
“Em 2002, a falta de adesão ao tratamento era devida ao alto custo dos ARVs”, notou ele. A situação melhorou depois que o governo introduziu o tratamento gratuito em 2007, mas “o fato de que a resistência ainda existe é um problema de saúde pública”, disse Kuafang.
Tientcheu parou de tomar seus ARVs durante sete meses em 2005 porque não podia pagar por eles. Ela inscreveu-se então para o tratamento no hospital local de Yaoundé, onde podia conseguir remédios mais baratos, e começou o tratamento com ARVs de segunda linha.
Há dois anos, os médicos começaram a suspeitar de uma resistência aos ARVs porque seu organismo não reagia mais [aos medicamentos], mas ela não podia pagar para fazer o teste que confirmaria esta suspeita. “Este teste é muito caro [150 mil CFA ou US$ 322] e é inacessível a muitas pessoas vivendo com o HIV”, disse ela.
É como se estivéssemos ainda tentando fazer-nos ouvir, apesar de muitos anos de luta e reivindicações por uma acção política. |
Após meses de espera, Tientcheu finalmente pode fazer o teste gratuitamente em 2007, no âmbito de um projecto de Médicos sem Fronteiras (MSF), ONG humanitária internacional.
Mas após ter tomado uma série diferente de ARVs de segunda linha durante alguns meses, seus níveis de CD4 (que mede a força do sistema imunitário) pararam de aumentar, e seus médicos começaram a mudar a medicação, sem sucesso. Ela agora não tem mais a quem recorrer e tem tido constantemente infecções oportunistas.
“Um dos três medicamentos prescritos por meu médico realmente afectou-me: eu tive a impressão de que ia morrer”, disse Tientcheu. Ela sente-se muito fraca para viajar longas distâncias e tem estado praticamente de cama nos últimos três meses. “Isto nunca tinha acontecido em quatro anos de tratamento, e isto é o mais difícil de enfrentar”, disse ela.
A busca pelo tratamento continua
Tientcheu não é a única camaronesa a lidar com o problema da resistência a medicamentos de segunda linha. “É imprescindível que os ARVs de terceira linha sejam distribuídos nos Camarões”, disse Caroline Kenkem, vice-secretária executiva da Rede Camaronesa de Pessoas Vivendo com o HIV (RECAP+).
É pouco provável que isto aconteça num futuro próximo, disse Alain Fogué, presidente do Movimento Camaronês de Advocacia pelo Direito ao Tratamento. “Eu não acho que as autoridades planejam distribuir ARVs de terceira linha nos Camarões; eu nem sei se eles têm consciência desta situação, porque a gestão do protocolo de segunda linha já é difícil demais.”
No final de Junho de 2008, Tientcheu decidiu interromper o tratamento e começar a procurar países que poderiam fornecer-lhe os medicamentos de que precisa desesperadamente, o que geralmente é a única solução para pacientes em sua situação.
Seu apelo foi ouvido pelos camaroneses que vivem na Europa, que criaram um fundo de solidariedade para apoiá-la, e também ajudar outros pacientes na mesma situação; eles lhe mandam regularmente seus remédios.
Mas como esta solução é temporária, as organizações de pessoas vivendo com o HIV nos Camarões lançaram um apelo às autoridades para que encontrem uma solução sustentável.
“Temos o sentimento de que não existe uma verdadeira política sobre a medicação, cuidados e apoio aos pacientes”, disse Fogué. “É como se estivéssemos ainda tentando fazer-nos ouvir, apesar de muitos anos de luta e reivindicações por uma acção política.”
PlusNews – 16.12.2008
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