Mesmo com preços mais caros de remédios produzidos no Brasil, ativistas acreditam que indústria nacional é vital para o País

16 12 2008

Remédios genéricos anti-retrovirais produzidos no Brasil chegam a custar até sete vezes mais do que aqueles fabricados em outros países, como a Índia, por exemplo. Este foi um dos destaques da edição deste último domingo do jornal O Estado de S.Paulo (saiba mais). A diferença é reconhecida pelo Ministério da Saúde.

No entanto, ativistas ouvidos pela Agência de Notícias da Aids acreditam que a indústria nacional de medicamentos, incluindo os anti-HIV, é vital para o País. “Infelizmente, esse é o preço que pagamos por ter investido tardiamente neste setor, somos menos competitivos. Mas a produção nacional é um dos pilares do programa brasileiro de Aids”, alegou o militante do Grupo Pela Vidda/SP, Mário Scheffer.

O consultor sênior do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Paulo Roberto Teixeira, também defende o País. “Existe um interesse maior, a capacidade de produção do Brasil pode ser usada para negociação de preços de outros remédios. Ainda que o custo seja mais alto, manter capacidade de produção continua sendo vital para o País”, disse.

Mário Scheffer defendeu tese de doutorado em maio deste ano (saiba mais) apontando que o Brasil depende de quatro pilares para ser mantido na área de HIV: negociações de preços de medicamentos, licenciamento compulsório, produção nacional e melhor processo de incorporação de novos anti-retrovirais. “Esses fatores, isolados, não garantem a sustentabilidade do programa, tudo depende de uma combinação de estratégias. Mesmo que o preço ainda seja um pouco mais alto, isso prova que o Brasil é capaz de produzir remédios e ajuda como um instrumento poderoso em pressionar preços de fármacos durante negociações, inclusive de novos medicamentos”, garantiu.

O ativista do Gapa de São Paulo, José Carlos Veloso, acredita que o Brasil consegue solucionar o problema se continuar investindo na indústria nacional. “Infelizmente é o preço que a gente paga. Enquanto não houver uma rede laboratorial de fato, a gente vai pagar por essas coisas. É uma conseqüência clara, se a gente não investir, o problema vai continuar. Os investimentos devem ser realizados pelo governo federal e os estaduais”, afirmou.

Já o presidente da Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), Veriano Terto, acrescentou que falta também transparência. “Não sabemos se os laboratórios públicos devem ser lucrativos ou atender exclusivamente a demanda do governo. Além disso, resta saber o que está sendo feito para diminuir os preços dos medicamentos. Precisamos de uma política industrial mais clara”, alegou.


Rodrigo Vasconcellos/Agência de Notícias da Aids – 15.12.2008





Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids no Brasil lança publicação com resumo das suas ações no país

16 12 2008


15/12/2008 – 13h40

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) no Brasil acaba de lançar uma publicação que reúne as ações do programa no país. “Há mais de 10 anos, o Sistema das Nações Unidas é parceiro do Governo e da Sociedade Civil brasileiros em sua resposta à epidemia de aids”, diz trecho do texto de apresentação. Além de fazer um balanço dos números globais e nacionais da epidemia, a publicação fala das parcerias entre o governo brasileiro e o UNAIDS local. Em 1997, lembra o programa, foi criado o Grupo Temático Ampliado sobre HIV/Aids (GT/UNAIDS), que tem como intuito prestar “apoio à resposta nacional à epidemia de aids.” O grupo é formado por representantes da sociedade civil, do governo brasileiro e de organismos internacionais. De acordo com a publicação de 32 páginas, o GT criou um plano integrado de ações em dois estados identificados como prioritários: Amazonas e Bahia. Entre 2008 e o ano que vem, explica a publicação, o sistema da Organização das Nações Unidas (ONU) no país irá gastar, aproximadamente, US$ 1 milhão com a iniciativa.

A publicação do UNAIDS também fala da atuação do Centro Internacional de Cooperação Técnica em HIV/Aids (CICT). Criado formalmente em 2005, o centro tem “a missão de fomentar projetos de cooperação técnica horizontal, visando fortalecer e ampliar respostas nacionais sustentévais ao HIV em países em desenvolvimento.” A gestão do CICT, explica a publicação, é feita em parceria pelo Programa Nacional de DST/Aids e pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids.

Entre 2005 e 2009, ainda de acordo com a publicação, os recursos financeiros alocados para as ações do CICT vão chegar a US$ 11,45 milhões. O governo brasileiro investiu no período 8,73% do total, ou seja, cerca de US$ 1 milhão. O UNAIDS alocou US$ 2 milhões (o que equivale a 17,46%). O maior financiador do CICT, no entanto, é o governo da Alemanha, por meio da Cooperação Técnica Alemã (GTZ): US$ 6,33 milhões (55,28%). Em seguida, temos o governo inglês, com US$ 2,07 milhões (18,07%). O menor investidor é o Países Baixos, com US$ 51,746 mil, o que significa 0,45% do total de recursos para o período de quatro anos.

Na mesma publicação, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids lembra de outras iniciativas realizadas no país para o enfrentamento da epidemia. Em março deste ano, por exemplo, foi realizada no Rio de Janeiro a “Primeira Reunião Ministerial sobre Políticas para Mulheres e HIV: Construindo Alianças entre Países de Língua Portuguesa pelo Acesso Universal”. O evento, que reuniu 80 participantes, teve o apoio do UNAIDS. A reunião resultou na criação de um grupo gestor para apoiar a implementação de uma agenda nesses países para o enfrentamento da feminização da epidemia provocada pelo vírus da Aids.

A publicação também lembra, entre outros, do projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE). A iniciativa é do Ministério da Saúde em parceria com três agências do sistema ONU: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). “Criado em 2003, o projeto propõe a integração entre as áreas de saúde e educação para a promoção de ações de educação em saúde preventiva que sejam incorporadas ao planejamento das secretarias de Educação estaduais e municipais, bem como aos projetos pedagógicos das escolas públicas de ensino fundamental e médio”, explica o material do UNAIDS.

Agência de Notícias da Aids – 15.12.2008





No Paraguai, discriminação e desinformação são o retrato da Aids

16 12 2008

A Agência de Notícias da Aids selecionou uma série de reportagens de veículos de comunicação hispânicos sobre a situação da Aids em países latino-americanos. Como fontes foram utilizados os seguintes jornais: o Clarín (Argentina) , ABC digital (Paraguai) Los Tiempos (Bolívia), Correo (Peru) e as agências de notícias: Prensa Latina e EFE. Confira a seguir a situação do Paraguai.

Para o presidente de Anistia Internacional do Paraguai, Julio Torales, discriminação e desigualdade são os motores que dirigem a epidemia no país. “A discriminação com as pessoas que vivem com o HIV/Aids se converteu em estigma no Paraguai, alimentado pelo temor e ignorância. A discriminação está relacionada com a falta de educação e informação inexata a respeito das formas de transmissão e tratamento do vírus”, afirma Torales.

Mirta Diaz Ruiz, coordenador geral da Fundação Vencer, diz que a informação no país é muito baixa ou quase nula e as que existem estão erradas. “Os grupos religiosos conservadores influem no não uso do preservativo, o que leva os jovens a adquirir o HIV”, explica. Os dados oficiais do Programa Nacional de Controle da Sida (PRONASIDA), mostram que uma em cada seis pessoas que vivem com HIV no Paraguai, é um jovem de 15 a 24 anos de idade.

Estima-se que, atualmente, no país, de 12 a 17mil pessoas vivam com o vírus, no entanto, os números oficiais são de 6. 729 casos relatados. (A população do país é de aproximadamente 7 milhões de pessoas). Desde o primeiro caso relatado em 1985, tem havido uma média de 68 novos casos de infecção pelo HIV por mês. E a forma mais comum de transmissão é através de relações sexuais (92,5%).

Em Assunção, Central, Cidade del Este, Encarnação e Pedro Juan Caballero são os locais com maior taxa de HIV. A faixa etária que teve o mais rápido crescimento da infecção foi a de 15 a 49 anos. E para cada duas mulheres diagnosticadas com o HIV há um homem. Os fenômenos que se vêem na epidemia no Paraguai são: heterosexualização, feminização e juvenização.

Quanto ao acesso a tratamento, estima-se que 1.400 pessoas recebem os anti-retrovirais. Segundo Julio Torales, o Pronasida está em processo de descentralização dos serviços de saúde relativos ao HIV. “Isto, até agora, só se conseguiu em cinco unidades: Asunção, Central, Itapúa, Alto Paraná e Pedro Juan Caballero. Portanto, pessoas provenientes de outros pontos do país, têm de se dirigir a uma desses quatro localidades”, informa o especialista lembrando que a centralização dos serviços de saúde é uma violação dos direitos humanos. “O governo deve dar uma resposta a isso”, conclui.

Redação e Tradução: Valéria Polizzi

Fonte: ABC digital

Agência de Notícias da Aids – 15.12.2008





CAMARÕES: Procurando medicações de terceira linha desesperadamente

16 12 2008

YAOUNDÉ, 16 Dezembro 2008 (PlusNews) – Maria Gisèle Tientcheu, 30 anos, activista da SIDA, desenvolveu resistência ao tratamento antiretroviral (ARV) de segunda linha, e teve que procurar fora dos Camarões, seu país natal, os medicamentos de que precisa.

Sua história recebeu muita atenção dos media nos Camarões, e colocou sob os holofotes uma preocupação cada vez maior quanto ao fato de que à medida que os países desenvolvem programas de tratamento, mais e mais pessoas vivendo com o HIV desenvolvem resistência aos medicamentos e precisam de drogas de segunda linha caríssimas.

Embora o número de pessoas que tenham-se tornado resistentes aos medicamentos de segunda linha ainda seja relativamente pequeno, o desafio é manter este número reduzido. Segundo muitos especialistas, a baixa adesão ao tratamento é a maior causa de desenvolvimento de variedades do vírus resistentes à medicação.

“Por diversas razões [inclusive o medo de exposição] certos pacientes esquecem de tomar seus remédios, ou pulam algumas doses; outros abandonam o tratamento e consultam curandeiros ou grupos de oração, onde recebem a promessa de cura rápida e duradoura”, disse Flavien Ndoko, responsável do programa da SIDA dirigido pela Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ).

Em Agosto deste ano, a GTZ, em colaboração com o Ministério da Saúde Pública e a Comissão Nacional da SIDA, lançou uma campanha de sensibilização encorajando os pacientes a aderirem ao tratamento.

Estima-se que 55 mil camaroneses seropositivos estejam a receber ARVs, quatro mil dos quais estão a ser tratados no hospital central (Hôpital Central de Yaoundé – HCY) na capital, Yaoundé, mas não há estatísticas oficiais quanto à taxa nacional de resistência.

Um estudo conduzido em 2007 com pacientes que recebiam tratamento neste hospital mostrou que 4,4 por cento dos pacientes desenvolviam resistência após um ano de tratamento.

Charles Kuafang, chefe da unidade de SIDA do hospital, disse que a taxa de resistência tinha diminuído em relação à taxa de 2002, quando um estudo similar revelou resistência de 16,2 por cento após somente oito meses de tratamento.

“Em 2002, a falta de adesão ao tratamento era devida ao alto custo dos ARVs”, notou ele. A situação melhorou depois que o governo introduziu o tratamento gratuito em 2007, mas “o fato de que a resistência ainda existe é um problema de saúde pública”, disse Kuafang.

Tientcheu parou de tomar seus ARVs durante sete meses em 2005 porque não podia pagar por eles. Ela inscreveu-se então para o tratamento no hospital local de Yaoundé, onde podia conseguir remédios mais baratos, e começou o tratamento com ARVs de segunda linha.

Há dois anos, os médicos começaram a suspeitar de uma resistência aos ARVs porque seu organismo não reagia mais [aos medicamentos], mas ela não podia pagar para fazer o teste que confirmaria esta suspeita. “Este teste é muito caro [150 mil CFA ou US$ 322] e é inacessível a muitas pessoas vivendo com o HIV”, disse ela.

''É como se estivéssemos ainda tentando fazer-nos ouvir, apesar de muitos anos de luta e reivindicações por uma acção política.''

Após meses de espera, Tientcheu finalmente pode fazer o teste gratuitamente em 2007, no âmbito de um projecto de Médicos sem Fronteiras (MSF), ONG humanitária internacional.

Mas após ter tomado uma série diferente de ARVs de segunda linha durante alguns meses, seus níveis de CD4 (que mede a força do sistema imunitário) pararam de aumentar, e seus médicos começaram a mudar a medicação, sem sucesso. Ela agora não tem mais a quem recorrer e tem tido constantemente infecções oportunistas.

“Um dos três medicamentos prescritos por meu médico realmente afectou-me: eu tive a impressão de que ia morrer”, disse Tientcheu. Ela sente-se muito fraca para viajar longas distâncias e tem estado praticamente de cama nos últimos três meses. “Isto nunca tinha acontecido em quatro anos de tratamento, e isto é o mais difícil de enfrentar”, disse ela.

A busca pelo tratamento continua

Tientcheu não é a única camaronesa a lidar com o problema da resistência a medicamentos de segunda linha. “É imprescindível que os ARVs de terceira linha sejam distribuídos nos Camarões”, disse Caroline Kenkem, vice-secretária executiva da Rede Camaronesa de Pessoas Vivendo com o HIV (RECAP+).

É pouco provável que isto aconteça num futuro próximo, disse Alain Fogué, presidente do Movimento Camaronês de Advocacia pelo Direito ao Tratamento. “Eu não acho que as autoridades planejam distribuir ARVs de terceira linha nos Camarões; eu nem sei se eles têm consciência desta situação, porque a gestão do protocolo de segunda linha já é difícil demais.”

No final de Junho de 2008, Tientcheu decidiu interromper o tratamento e começar a procurar países que poderiam fornecer-lhe os medicamentos de que precisa desesperadamente, o que geralmente é a única solução para pacientes em sua situação.

Seu apelo foi ouvido pelos camaroneses que vivem na Europa, que criaram um fundo de solidariedade para apoiá-la, e também ajudar outros pacientes na mesma situação; eles lhe mandam regularmente seus remédios.

Mas como esta solução é temporária, as organizações de pessoas vivendo com o HIV nos Camarões lançaram um apelo às autoridades para que encontrem uma solução sustentável.

“Temos o sentimento de que não existe uma verdadeira política sobre a medicação, cuidados e apoio aos pacientes”, disse Fogué. “É como se estivéssemos ainda tentando fazer-nos ouvir, apesar de muitos anos de luta e reivindicações por uma acção política.”

PlusNews – 16.12.2008





SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE: Embalos de sábado à noite – com preservativos

16 12 2008

SÃO TOMÉ, 15 Dezembro 2008 (PlusNews) – O novo hit está na boca do povo: “Bleguê Bleguê… A mi na mecê Bleguê, anda com bebê…”

Os versos, na língua materna são-tomense forro, transmitem duas mensagens: ao sair de casa ande sempre com o preservativo; e ao fazer sexo, utilize a camisinha.

A música atingiu as paradas em São Tomé e Príncipe, um arquipélago de 150 mil habitantes na costa do Gabão, e é tocada incessantemente nas rádios e discotecas de todo país.

Tudo começou com um grupo chamado Bulauê Linda Estrela, na pacata aldeia de Messias Alves.

Monotonia cria hit

Com casas velhas e um sistema de abastecimento de água deficitário, Messias Alves é uma comunidade pescatória de cerca de três mil habitantes.

O único televisor com acesso a vários canais, dado por um grupo empresarial, avariou em Setembro 2006. Não há acesso a Internet. Segundo um jovem morador, “o que resta depois da pesca é beber aguardente de cana-de-açúcar e fazer filhos”.

Para mudar a rotina, há três anos, homens e mulheres entre 25 e 45 anos criaram o grupo cultural Bulauê Linda Estrela, que ensaia três vezes por semana.

“Criamos este grupo para quebrar a monotonia da zona. Aqui as pessoas dormem muito cedo, não há um centro de diversão”, disse o soba Lauriano Costa, 78 anos.

O Bulauê Linda Estrela fez mais que isso: com a música Blegue Blegue, o grupo está a auxiliar no trabalho de sensibilização sobre a importância do uso da camisinha.

A letra baseia-se num episódio ocorrido com um dos membros da banda: ele convidou a mulher para ir a um dos ensaios e ela recusou o convite, mas sugeriu que ele levasse a camisinha para o caso de sexo ocasional.

Camisinha na rádio

Ludmila Monteiro, activista da ONG Médicos do Mundo, acredita que o sucesso da música é reflexo das campanhas pelo uso do preservativo feitas no país.

“Falar da camisinha não é mais novidade para o são-tomense”, disse. Segundo ela, a música se tornou tão popular porque as pessoas já estão familiarizadas com a idéia do preservativo.

O hit é cantado até por crianças. Embora o grupo não tenha gravado um CD com a canção, o Bleguê Bleguê já está disponível em coletâneas no mercado pirata.

Porém, há uma grande diferença entre gostar e entender a mensagem duma música.

“Fazer sexo com camisinha diminui a potência sexual”, disse o pescador Niker Quaresma, 27 anos, para justificar o não uso do preservativo.

“Gosto muita desta música”, disse Sabina Graça, 25 anos. Porém, quando questionada sobre o significado da letra, admitiu não ter a mínima ideia.

“O meu marido tem duas mulheres, mas ele não aceita fazer sexo com preservativo.”, Adezica Beatriz, 38 anos, membro do Bulauê Linda Estrela. “Quando lhe falei sobre esta necessidade, quase que me batia.”

PlusNews – 15.12.2008





Em 20 anos, crack alcançou todo o País

16 12 2008

Vício atinge 1 em cada 3 pessoas que procuram tratamento em capitais; maior uso ocorre entre jovens e pobres.

Os primeiros relatos sobre o consumo de crack no Brasil surgiram em 1989, entre crianças que viviam nas ruas do centro de São Paulo, um ano antes da primeira apreensão da droga feita pela polícia na cidade. Feito do cozimento da cocaína com bicarbonato de sódio, potente, barato, famoso pela fissura que causa nos viciados, sempre em busca da próxima dose, 20 anos depois do começo da epidemia em São Paulo o crack migrou para os demais Estados e o mercado da droga se consolidou em todo o País.

A droga já teve o uso identificado entre consumidores das 27 capitais brasileiras, principalmente jovens e pobres, conforme pesquisas do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). Em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Salvador, 39% dos pacientes que procuraram os principais centros de tratamento ambulatorial e hospitalar tinham problemas com crack, duas vezes mais do que os pacientes viciados em cocaína, segundo o Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No Rio, onde o Comando Vermelho proibiu que o crack fosse comercializado na década de 1990, a droga chegou com força há cinco anos.”É um tsunami e a principal preocupação atual nas comunidades. Favelas como Manguinhos e Jacarezinho têm cracolândias deprimentes”, diz Sílvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes.

No Estado de São Paulo, a apreensão de crack pela polícia bateu recorde neste ano, alcançando até setembro 731 quilos, 10% mais do que o total de todo o ano passado. No mesmo período, diminuiu a quantidade de maconha e cocaína apreendida. Para piorar, o problema migrou para municípios paulistas de pequeno e médio porte, alcançando trabalhadores rurais das plantações de cana-de-açúcar.

Em São José do Rio Preto, cidade de 450 mil habitantes do interior do Estado, há pelo menos 1.200 viciados em crack sendo acompanhados pelo programa de redução de danos à hepatite e HIV. “Nove mulheres estão grávidas”, diz a coordenadora de Saúde Mental de São José do Rio Preto, Denise Doneda.

A gravidade do crescimento da comercialização do crack foi um dos principais pontos de discussão do encontro de colegiado dos coordenadores de saúde mental ligados ao Ministério da Saúde, ocorrido em novembro. De Dourados, em Mato Grosso do Sul, veio o relato de que o crack estava sendo consumido entre comunidades indígenas que vivem perto de centros urbanos. “Existe grande dificuldade para lidar com o problema porque a abordagem ao viciado é complicada e não existem leitos hospitalares à disposição para o tratamento”, diz Pedro Gabriel Delgado, coordenador Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde.

A disseminação do uso em pequenas cidades brasileiras também foi outro ponto destacado no encontro. Em Estados nordestinos, que demoraram a sentir o drama do crack, a droga já aparece entre as preferidas dos usuários. Em Pernambuco, o crack começou a chamar a atenção entre os anos de 2001 e 2002, principalmente na região metropolitana do Estado. Atualmente, já atinge o agreste e o sertão – área tradicional da maconha.

Quixadá, no Ceará, e Picos, no Piauí, são outros municípios que registram problemas com o crack. Em Salvador, viciados que se concentram em cracolândias no centro histórico são chamados de sacizeiros, em referência ao cachimbo usado no consumo. “Em 2004, 25% da droga consumida no Recife era crack. Em 2006, chegou a 50%”, diz José Luiz Ratton, coordenador do Núcleo de Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança da Universidade Federal de Pernambuco.

É na Região Sul, no entanto, que atualmente o problema aparece de forma mais dramática. No Paraná, três das cidades mais violentas do Brasil, Foz do Iguaçu, Guaíra e Curitiba, sofrem os efeitos da chegada do crack. Nas quatro principais maternidades de Porto Alegre, nasceram neste ano 117 crianças filhas de mães viciadas. A Secretaria de Saúde do Estado estima que existam atualmente 50 mil viciados na droga. “Duas coisas ajudaram essa disseminação pelo Brasil. Primeiramente, a natureza do produto, forte, barato e bem-aceito entre os mais pobres. Depois, a disseminação das rotas de cocaína para o Sul e o Centro-Oeste”, afirma Fernando Francischini, secretário Antidrogas de Curitiba, ex- delegado da Polícia Federal responsável pela prisão do traficante Juan Carlos Ramirez Abadía.

Bruno Paes Manso/Estadão.com.br