No Zimbabwe, morreram pelo menos 575 pessoas. Muitos procuram refúgio
na África do Sul. Intensifica–se a pressão para que o Presidente deixe o poder
Poderá a epidemia de cólera no Zimbabwe conseguir o que encontros, cimeiras, protestos e actos de violência política não conseguiram? Por outras palavras, poderá a cólera assumir uma dimensão política que force à renúncia de Robert Mugabe da presidência? A questão é colocada num jornal independente do Zimbabwe, citado no Washington Post, e inspira-se na crescente pressão para a saída do poder de Mugabe.
A pressão intensificou-se com a constatação de que a epidemia de cólera assume proporções de desastre nacional e atravessa fronteiras. Já fez pelo menos 575 mortes desde Agosto e é o mais recente sinal do marasmo em que a crise política e económica mergulhou o país.
De acordo com as Nações Unidas, já se registaram pelo menos 12.700 casos . Mas estes são números abaixo do que se pensa ser a realidade. O número total de doentes e mortes é “certamente maior”, referiu ontem a ONU, uma vez que “muitos centros de saúde não funcionam e muitos casos não são conhecidos”.
A epidemia já chegou à África do Sul. Como no passado fugiram da miséria e da violência política, os zimbabweanos fogem agora dos efeitos de uma doença num país onde o sistema de saúde foi deixado ao abandono e “os hospitais centrais literalmente não funcionam”, nas palavras do próprio ministro da Saúde, David Parirenyatwa. Disse-o na quinta-feira, dia em que o Governo reconheceu a magnitude do problema e, pela primeira vez, decretou “urgência nacional” e apelou à ajuda internacional.
Apelos e pressões
Os pedidos foram atendidos, mas acompanhados de fortes críticas e apelos para o fim do regime.
O mais veemente apelo surgiu do arcebispo sul-africano e Nobel da Paz, Desmond Tutu, para quem Mugabe deve abandonar o poder ou ser afastado “pela força”. Numa entrevista a uma rádio holandesa, Tutu especificou: “Agora o mundo tem de dizer [a Mugabe] que foi responsável, com os seus correligionários, de graves violações, e que vai enfrentar uma acusação [no Tribunal Penal Internacional] de Haia a menos que renuncie.”
Quando questionado se, em caso de recusa, Mugabe devia ser deposto militarmente, Desmond Tutu não teve dúvidas: “Sim, pela força”, reforçou, acrescentando que a Comunidade para o Desenvolvimento da África do Sul (SADC) ou a União Africana teriam meios para o fazer.
As atenções centram-se na África do Sul, que lidera o processo de mediação e que é o principal país a ser potencialmente afectado com o alastramento da doença. O novo Governo e a nova presidência interina sul-africana de Kgalema Motlanthe, após a saída do Presidente Thabo Mbeki (criticado pela falta de firmeza com Harare), também abrem perspectivas. Pretória condicionou esta semana uma ajuda à agricultura do Zimbabwe ao cumprimento do acordo de partilha do poder, assinado em Setembro, e bloqueado por Mugabe querer manter as pastas do executivo ligadas à segurança. Motlanthe tem dado sinais de ver em Mugabe um líder ilegítimo, depois do conturbado processo eleitoral de há uns meses.
“Chegou a hora de Mugabe partir. A partir de agora é uma evidência”, declarou ontem a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice. Na véspera, o primeiro-ministro do Quénia, Raila Odinga, defendera o mesmo, pondo a responsabilidade nos Governos africanos. É altura de “levarem a cabo acções decisivas para afastar Mugabe do poder”, disse.
Ao mesmo tempo, Estados Unidos, Reino Unido e França anunciaram novas ajudas para fazer face à cólera – uma infecção intestinal transmissível por água ou alimentados contaminados, que pode levar a uma desidratação fatal se não for tratada. “Por uma vez, estamos de acordo com o Governo do Zimbabwe. É uma urgência nacional”, afirmou o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, ao justificar uma ajuda suplementar de 11,5 milhões de euros. “O Estado em ruptura de Mugabe já não tem capacidade ou vontade de proteger o seu povo.”
A organização Médicos sem Fronteiras explicou à BBC que o colapso do sistema sanitário e de abastecimento de água impede o controlo da epidemia. E explica que os subúrbios densamente povoados da capital do Zimbabwe, Harare, estiveram sem água potável nos últimos meses.
É de lá que vem Mawunganidze, comerciante, que o Washington Post foi encontrar em Musina, pequena cidade da fronteira, já na África do Sul, habituada a receber zimbabweanos fugidos a sucessivas crises. Confirma que no seu subúrbio de Harare não teve água durante oito meses, e que tudo praticamente parou. Talvez as Nações Unidas possam “ir em força” para o Zimbabwe, questiona. Ou a África do Sul tome uma posição mais firme com o Zimbabwe, acrescenta. No fim, pergunta: “Será que o mundo está a ouvir?”
Público – 06.12.2008
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