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| MC Zimpopo diz que poucos em sua profissão discutem o HIV em festas de cozinha |
DAR ES SALAAM, 3 Dezembro 2008 (PlusNews) – Dicas para contornar discussões domésticas e assegurar uma vida sexual feliz são apenas alguns dos ensinamentos preciosos passados adiante nos chás de cozinha na Tanzânia. Conhecidos como “festas de cozinha”, nenhum assunto é tabu quando as convidadas preparam as noivas para a vida como esposa.
Entretanto, activistas pela igualdade dos sexos dizem que as festas perpetuam a desigualdade dos papéis de cada sexo ao ensinar as mulheres a serem submissas aos homens em todos os aspectos, inclusive sexual, colocando-as sob grande risco de contrair HIV de seus maridos.
Muitas convidadas elegantemente trajadas participaram da festa de cozinha de uma bancária de 25 anos na capital comercial da Tanzânia, Dar es Salaam, na qual os únicos homens eram o operador de câmera e o DJ.
Presentes, em sua maioria utensílios domésticos e equipamentos de cozinha, foram empilhados numa plataforma elevada onde a noiva pacientemente aguardava pela aula. Uma procissão de parentes e amigas, cada uma com anos de experiência de casamento, tiveram a sua vez ao microfone.
“Se ele chegar tarde, peça à moça da casa [empregada doméstica] para abrir a porta para mostrar a ele que você está zangada”, sugeriu uma das mais velhas. “Você é quem deve lavar a roupa de cama e deixá-la limpa e branquinha”, lembrou outra convidada.
“A formação das festas de cozinha é direccionado para fazer com que a noiva seja subserviente, dócil e quieta. Dá à mulher toda a responsabilidade de fazer com que o casamento dê certo”, afirmou Charles Kayoka, da Associação de Jornalistas contra a SIDA na Tanzânia, um grupo que defende maior envolvimento dos homens na prevenção do HIV. “A intenção não é má – fazer com que o lar conjugal seja pacífico e harmonioso – mas o resultado pode ser perigoso.”
Salama Jumanne, 37 anos, mãe tanzaniana que vive com HIV, comentou: “Nas festas de cozinha pode-se aprender sobre as expectativas do seu marido, o que pode ajudar a fazer o casamento sobreviver por um curto período de tempo. Mas, na realidade, o que está a se aprender é a pensar nas necessidades do seu marido acima das suas.”
Estudos revelaram que casamento não é protecção contra a infecção por HIV para mulheres e meninas: tendências recentes em países vizinhos tais como Uganda sugeriram que pessoas casadas estão na verdade sob maior risco do que mulheres e homens solteiros.
A formação nas festas de cozinha ensinam a noiva a ser subserviente, dócil e quieta. Dá à mulher toda a responsabilidade de fazer com que o casamento dê certo. |
Mulheres raramente controlam o horário e a frequência da relação sexual no casamento; muitas mulheres africanas passam por violência sexual e coerção. A inabilidade de negociar sexo seguro, especialmente numa sociedade em que relacionamentos simultâneos são comuns, coloca a mulher sob maior risco de contrair o HIV.
Geoffrey Chambua, do Programa de Relacionamentos de Género da Tanzânia em Dar es Salaam, afirmou que discussões francas sobre sexo nas festas pré-nupciais são um desperdício se não incluírem mensagens vitais sobre HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.
“Por um lado, são encontros sociais divertidos que podem fomentar um senso de identidade cultural e tradição, enquanto a oferta de presentes ajuda os novos casais a construírem juntos um lar”, disse ele. “Por outro lado, é uma forma de expor a mulher a ser vítima de violência pelo seu marido, ao ensiná-la a ser extremamente submissa.”
Um mestre de cerimónias (MC) é geralmente contratado pela família para discutir assuntos delicados na festa de cozinha tais como sexo, mas o estigma social associado ao HIV e as concepções equivocadas sobre isso frequentemente impedem que o assunto seja discutido.
“Eu já fui MC em centenas de festas de cozinha desde 1990. Eu comecei a falar sobre a SIDA para elas há oito anos”, revela Gladys Chiduo, mais conhecida por MC Zimpopo. “Hoje em dia, nem todos na minha profissão fazem isso… Não é fácil passar essa mensagem.”
Prisca Rwezahura-Holmes, director de marketing da Marketing e Comunicação Tanzânia (T-MARC), uma companhia de marketing social, disse que pode ser que a mudança seja lenta, mas está a acontecer.
“As festas de cozinha são francas; é uma oportunidade rara de compartilhar e saber da experiência marital de outras mulheres. Antes elas tinham… [a abordagem] ‘agrade sexualmente o seu homem e faça o que for necessário para mantê-lo em casa”, mas acho que isso está a mudar.”
T-MARC organizou cerca de 100 festas de cozinha ao redor da Tanzânia para promover o preservativo feminino “Lady Pepeta”, um dos seus produtos. Organizadores usaram a oportunidade para expandir a conversa e incluir sexo seguro e saúde, esclareceu Rwezahura-Holmes.
Algumas ONGs começaram a distribuir embrulhos tradicionais, chamados khangas, nas festas de cozinha, impressos com mensagens sobre o HIV e saúde reprodutiva para encorajar a discussão sobre esses tópicos.
“Festas de cozinha estão a se tornar mais sofisticadas e com a intenção de incluir a pauta sexual” disse Rwezahura-Holmes. Na sociedade tanzaniana amplamente conservadora, assuntos relacionados a sexo e relacionamentos são difíceis de serem discutidos em casa, ao passo que nas festas de cozinha não há ameaça de censura das conversas explícitas sobre sexo.
Cerca de 6,2 por cento dos 40 milhões de tanzanianos vive com HIV; mais da metade são mulheres, segundo a Comissão da Tanzânia para a SIDA. A seroprevalência entre mulheres casadas com idade entre 15 e 49 anos é de 8,1 por cento.
PlusNews – 03.12.2008
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