SÃO TOMÉ, 14 Outubro 2008 (PlusNews) – Na sala de reuniões da organização não-governamental portuguesa Médicos do Mundo (MdM), 15 actores tentavam decorar os seus textos.
Com idades entre 16 e 25 anos, eles se preparavam para as gravações da minissérie Os que têm SIDA são como os que não têm, que começa a ser transmitida no início de Novembro e culmina no Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, em 01 de Dezembro.
A novela conta a história de Zito, 28 anos, que resolve terminar um relacionamento de sete anos com a sua namorada, depois de descobrir que ela é seropositiva.
Chica, 21 anos, é estudante da nona classe e foi infectada numa relação sexual desprotegida com um colega de turma, numa festa promovida por alunos.
Ela descobre que tem o HIV depois de uma série de exames no Hospital Ayres de Menezes, o maior de São Tomé, após ter desmaiado durante a actuação do Bulauê Paste-Lim, um grupo tradicional.
Ao receber a notícia que Chica, com quem nunca havia mantido relações sexuais, era seropositiva, Zito resolve romper a relação. Porém, depois de ser aconselhado por um amigo, reata o relacionamento e casa com sua cara-metade.
Final feliz só nos filmes?
O objectivo da minissérie, que será transmitida em horário nobre pela Televisão São Tomense (TVS), é possibilitar o mesmo final feliz na vida real.
Situado na Costa do Gabão, São Tomé e Príncipe, com uma população de 155 mil habitantes, tem uma seroprevalência de 1,5 por cento. Apesar disso, ninguém até hoje teve coragem de assumir a condição publicamente, por medo do estigma.
“Em São Tomé existe uma tendência discriminatória muito grande. Existem pessoas que ainda pensam que a SIDA é uma doença que se apanha conversando, tocando as pessoas infectadas”, afirmou Afonso Januário, realizador da minissérie.
Com o filme, rodado em seis episódios de cerca de 20 minutos, Januário pretende mobilizar a população para a situação dos seropositivos em São Tomé e Príncipe.
Actor de Imprudência, o fogo do apagar da vida, o primeiro filme sobre SIDA no arquipélago, ele sabe como pode ser difícil abordar o tema.
“Procurei um seropositivo que pudesse participar no filme, mas sem sucesso. Falei com três jovens e eles não aceitaram dar a cara, com medo de serem rejeitados”, contou Januário.
Areguine Fonseca, 26 anos, mostra que enfrentar o HIV num filme é bem diferente do que fazê-lo na vida real. Mesmo fazendo o papel de Zito, ele nunca fez o teste de HIV.
“Sei que não tenho o vírus, porque as minhas mulheres fizeram o teste pré-natal. Tenho duas mulheres e dois filhos, de dois e três anos”, explicou, enquanto aguardava para entrar em cena.
“Já vi doentes de SIDA. É complicada esta doença, tu emagreces tanto… A SIDA é quase que morte lenta”, disse. “Mas esta é uma experiência fascinante, estou a contribuir para a moralização da nossa sociedade.”
A minissérie tem o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Fundo Global de Luta contra a SIDA, Malária e Tuberculose, e a Embaixada do Brasil.
Associação de seropositivos
A minissérie pretende também preparar os próprios seropositivos para informarem a sociedade sobre a sua saúde, para que possam trabalhar em conjunto.
Para tanto, um grupo de vinte e cinco pessoas está a trabalhar para a oficialização de uma associação de seropositivos, com o apoio da MdM.
“Estamos a capacitá-los para que possam viver positivamente. Neste país é ainda muito difícil, os seropositivos se isolam e não falam da doença a ninguém”, disse Rita Aleixo, coordenadora de projectos da MdM.
“Queremos oficializar a associação de seropositivos até o final de 2009”, disse Aleixo. “Todos estão motivados, faltam apenas capacidades para poderem trabalhar de forma autónoma.”
(PlusNews – 14.10.2008)
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