Mãe, eu não preciso de remédio, eu não tenho Aids, quem tem é você!” Essa foi a resposta de Andréia*, aos seis anos de idade, quando sua mãe tentava lhe dar algumas vitaminas. “Fiquei totalmente sem ação. Nesse momento me dei conta que ela sabia que eu tinha o vírus”, conta Dora*, de 38 anos, soropositivo há 18. Andréia, hoje com 17, não tem o vírus. Este e outros temas foram abordados em uma série de reportagens que a Agência de Notícias da Aids preparou em homenagem ao Dia das Crianças. Confira a última matéria da série a seguir.
A mãe lembra que a menina, desde muito pequena, a acompanhava nas consultas médicas e grupos de apoio. “Eu não tinha com quem deixá-la, ela estava sempre comigo e ouvia as conversas”. Durante muito tempo, Dora ficou na dúvida se sua filha sabia ou não que ela vivia com HIV/Aids, mas também tinha receio de contar. “Quando me dei conta que, realmente ela sabia, continuei a tratar do assunto com naturalidade, mas não chegamos a ter um conversa a respeito, aquilo já fazia parte de nossas vidas,” diz e lembra que, já com oito anos, Andréia a chamava se estava passando alguma reportagem na televisão sobre o assunto.
Dora descobriu que tinha o HIV, em 1990, quando tinha 20 anos e estava no oitavo mês de gravidez. O marido dela começou a ficar muito doente, fez o exame, deu positivo, então ela também fez e descobriu que estava infectada. “Fiquei desesperada e só rezava para minha filha nascer sem o vírus”, relata. Na época não havia prevenção para a transmissão vertical. Quando Andréia nasceu, seu exame deu negativo. “Fiquei super aliviada e feliz, mas continuamos a testá-la até os dois anos de idade, para termos certeza absoluta”, explica a mãe.
Apesar da boa notícia a vida das duas não foi fácil. O pai de Andréia faleceu exatamente nessa época, quando ela tinha dois anos. Dora, que já tinha perdido sua mãe aos sei anos e o pai aos 18, se viu só no mundo. “Minhas irmãs, apesar de me darem apoio, moravam em outras cidades. Aqui em São Paulo, eu só tinha a família do meu marido, que nos abandonou”. Ela conta que eles chegaram a acusá-la de ter passado o vírus a ele, quando todos já sabiam que ele tinha sido usuário de droga injetável e ela, casado virgem. “Tive que criar minha filha sozinha. Foi duro, sempre com medo de ficar doente, ou de morrer e deixá-la só”, lembra.
Dora passou a freqüentar um grupo de apoio, o GIV (Grupo de incentivo à vida), que segundo ela, mudou sua história. Lá aprendeu que sua vida não se resumia ao HIV e fez amigos. Voltou a estudar, terminou o colegial, trabalhou duro, sempre procurando dar a melhor educação que pudesse à Andréia. “Muita gente da nossa classe, mais pobre, não vai atrás das oportunidades. Se contentam com uma cesta básica, ou uma pensão”, argumenta, com a certeza que, devido ao trabalho que conseguiu como atendente numa escola de freiras, sua filha pôde estudar a vida toda num bom colégio particular.
“Também fui atrás de muitos cursos para Andréia, cursos de graça, e se não eram eu pedia bolsa”, ela conta. A garota estudou inglês, computação e atualmente faz um curso de web design, numa escola onde também faz estagio. No final desse ano termina o segundo grau e sonha em estudar medicina. “Desde pequena eu via o tratamento que minha mãe recebia nos postos de saúde. Tinha médico que não encostava nela. Lembro de uma vez que ela estava com um caroço no pescoço, ela mostrou, mas o médico não examinou,” recorda triste.
Andréia é realista e sabe que será muito difícil estudar medicina. “Mesmo se eu entrasse numa faculdade pública, o curso é integral e eu tenho que trabalhar pra ajudar minha mãe”, pondera. Ela planeja, então, fazer enfermagem ou ciência da computação, só não quer ficar sem uma faculdade. Quanto à família do pai, a menina lamenta não ter crescido em contato com eles. Com cinco anos, pediu pra conhecê-los, mas não foi bem acolhida. “Eles têm muito preconceito. Foi uma pena, pois eu já não tinha parentes do lado da minha mãe, teria sido bom ter o carinho de avós, tios e primos do lado do pai”.
Mãe e filha seguem sempre unidas, batalhando juntas. Andréia se diz feliz em ver que a mãe se cuida e toma seus remédios direito. “Acho que foi Deus que quis que eu não nascesse com o HIV. Assim posso cuidar mais da minha mãe, que está bem e ainda vai viver muito”, garante sorrindo.
*O nome das personagens foi mudado para preservar suas identidades.
(Valéria Polizzi/Agência de Notícias da AIDS – 12.10.2008)
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