Quem mais sabe sobre sexo, mais tarde inicia as relações

19 10 2008

Os conhecimentos em educação sexual não antecipam o início das relações sexuais e são mesmo um factor que leva ao seu adiamento, conclui o estudo A Educação Sexual dos Jovens Portugueses: conhecimentos e fontes, que hoje é apresentado em Lisboa e foi elaborado pela Associação para o Planeamento da Família (APF) e o Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa. Mais de metade dos alunos inquiridos, todos do ensino secundário, nunca tiveram relações sexuais.

Os jovens com melhores conhecimentos na área começam com maior segurança a sua actividade sexual, dizem ter menos medo e maiores graus de satisfação durante a sua primeira experiência e são também os que menos vezes se sentem pressionados a iniciar a sua actividade sexual, diz Duarte Vilar, sociólogo e presidente da APF, confirmando-se pela primeira vez num estudo português uma tendência que já tinha sido encontrada em estudos internacionais, nota. A amostra foi de 2621 alunos de 63 escolas secundárias de vários pontos do país, com idades que andam entre os 15 e os 19 anos, inquiridos entre Novembro do ano passado e Março deste ano, mas que não é representativa desta população a nível nacional.

Na sua prática diária, Margarida Albergaria, professora coordenadora de Promoção para a Saúde na Escola Secundária de Miraflores (região de Lisboa), nota que estes conteúdos não aguçam o interesse em experimentar mas sim um interesse em saber mais. Nesta escola, onde existe um gabinete de apoio ao aluno, a professora constata que quanto “mais informados, mais criteriosos são nas suas escolhas”.

A directora executiva do Movimento para a Defesa da Vida, Graça Mira Delgado, defende que tudo tem a ver com o que se entende por educação sexual. A responsável do movimento, que até 2005 deu acções sobre o tema nas escolas, está convencida de que a educação sexual que se limita a veicular “informação científica sobre contracepção pode antecipar a actividade sexual”; mas quando inclui também aspectos da formação da personalidade, então “aí concordo que não antecipa porque responsabiliza”. O problema é que, na sua opinião, “muitas escolas limitam-se a passar informação”.

Outro dos mitos que caem com este estudo é o de que a maioria destes jovens têm relações sexuais, diz Duarte Vilar. Se é verdade que a idade da primeira relação tende a ser antecipada – no grupo dos que são sexualmente activos, os rapazes começam sobretudo aos 15 e as raparigas aos 14 -, mais de metade (58 por cento) ainda não se iniciou. Pedro Moura Ferreira, coordenador da investigação no ICS, nota que não estamos a falar “da juventude portuguesa, mas da parte mais bem-sucedida dos percursos escolares”. A média de início da actividade sexual (incluindo os que não são activos) rondaria os 16 anos nas raparigas e 17 nos rapazes, nota.

Duarte Vilar diz que o estudo denota “falhas importantes [de conhecimento] sobre quase tudo o que se refere à contracepção, excepto o preservativo”, assim como as infecções sexualmente transmissíveis, como a sífilis e a gonorreia – a excepção é a sida. Em geral, são as raparigas que têm mais conhecimentos sobre sexualidade (56 por cento, contra 47,5 por cento no caso deles).

Daniel Sampaio crítico

Isabel Loureiro, ex-coordenadora da Rede Nacional das Escolas Promotoras de Saúde, afirma que alguns dados do estudo revelam dificuldade em fazer a ponte da teoria com a prática. “É ridículo que 48 por cento não saiba onde pode adquirir contraceptivos.” Mas nota um alargamento de conteúdos que deixou de se cingir ao fisiológico e aborda temas como os sentimentos dos adolescentes e o desejo sexual. A também professora de Promoção para a Saúde na Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa, constata que, se a maior parte dos jovens não vai aos serviços de saúde, então têm que ser estes a ir até às escolas.

Nos 7.º, 8.º e 9.º anos, a maioria dos conteúdos é abordada na disciplina de Ciências Naturais (60 por cento) e, no secundário (do 10.º ao 12.º), em Biologia (40 por cento), mas começa a notar-se a importância “das áreas curriculares não disciplinares”, especialmente em Formação Cívica e actividades como colóquios.

Daniel Sampaio, psiquiatra que em Setembro do ano passado cessou funções à frente do Grupo de Trabalho de Educação Sexual, diz que, “da parte dos ministérios da Educação e da Saúde, não houve vontade de pôr em prática o que foi aprovado”. O grupo de trabalho defendeu, entre outras medidas, que, no secundário, as escolas devem ter gabinetes de apoio e que os estabelecimentos devem ter coordenador para a área da Educação para a Saúde. O assessor de imprensa do Ministério da Educação, Rui Nunes, responde que “as recomendações estão a ser cumpridas”.

Dados de 2006, que esperam actualização, apontam para cerca de 850 professores coordenadores a trabalhar na área da saúde e 57 por cento das escolas com gabinetes de apoio ao aluno a funcionar. Neste inquérito, só cinco por cento dos alunos dizem ter ido a um gabinete da escola.

(Público – 17.10.2008)





Desigualdades sociais causam um abismo na expectativa de vida

16 10 2008

A expectativa de vida entre habitantes de países ricos e pobres pode variar em até 40 anos. É o que revela o relatório anual da Organização Mundial de Saúde (OMS), divulgado ontem. E a causa, como aponta o documento, são as “desigualdades gritantes” no acesso a serviços básicos de saúde. Enquanto em algumas nações os gastos públicos anuais com saúde chegam a US$ 6 mil por pessoa, em outros eles não chegam a US$ 20.

A OMS recomenda que os países adotem como políticas publicas prioritárias o melhoria dos serviços básicos de saúde como forma de combater tamanha desigualdade.

O documento sustenta que, enquanto epidemias específicas, como a da AIDS, recebem fluxos contínuos de verbas, problemas básicos – que, somados, matam muito mais – sofrem com a falta de verbas.

E, enquanto os países ricos dispõem de tecnologias cada vez mais caras e específicas, a organização estima que milhões de mulheres nas regiões mais pobres do planeta dão à luz sem assistência médica alguma.

“A desigualdade de acesso, custos altos e a falta de confiança no sistema de saúde constituem uma ameaça à estabilidade social”, alerta o documento.

- Um mundo fortemente desequilibrado em termos de saúde não é estável e nem é seguro – afirmou a diretora-geral da organização, Margaret Chan.

A OMS critica a especialização excessiva nos países ricos, com a utilização abusiva de especialistas em detrimento de generalistas e médicos de famílias, assim como o abandono das políticas de prevenção.

“Estamos encorajando os países a se voltarem para o básico”, esclarece o texto. “A prevenção atual é muito negligente, enquanto a melhora das medidas preventivas poderia reduzir a carga mundial da morbidade em cerca de 70%.” A cada ano, 58 milhões de grávidas sem assistência A despeito dos graves problemas que o Brasil apresenta em atendimento básico de saúde, sobretudo à população mais pobre, um programa do país é citado no relatório como uma boa iniciativa a ser seguida, o Saúde da Família. “O Brasil, que começou a adotar o sistema de acesso universal em 1988 já o oferece a 70% da população”, diz o relatório.

Dados presentes no documento mostram que cerca de 136 milhões de mulheres darão à luz este ano, sendo que 58 milhões não vão receber qualquer assistência durante ou depois do parto, colocando as suas vidas em risco e também a segurança dos recém nascidos.

(O Globo – 15.10.2008)

O relatório cita como exemplo Nairóbi, onde a taxa de mortalidade de crianças de até cinco anos de idade nas áreas mais pobres da cidade é de 254 em cada mil.

- Nesses casos, não fazer nada não é uma opção – afirmou Margaret Chan.

O documento revela que os gastos individuais com saúde levam, a cada ano, nada menos que 100 mil pessoas para a linha da pobreza, gerando um círculo vicioso perigoso.





Recessão nos EUA pode brecar pesquisa com vacinas contra o HIV

16 10 2008

CIDADE DO CABO (Reuters) – Uma recessão nos Estados Unidos poderia diminuir a verba disponível para o combate à Aids e prejudicar o desenvolvimento de uma vacina, afirmou na terça-feira uma importante autoridade de um grupo à frente desses esforços.

Os EUA representam o centro da pesquisa sobre a vacina contra a doença. Seu governo contribuiu com 656 milhões de dólares (ou 69 por cento) das verbas voltadas à pesquisa em 2007, segundo dados divulgados em uma conferência sobre a vacina realizada na Cidade do Cabo (África do Sul).

No entanto, a atual crise de crédito alimentou temores de que a maior economia do mundo embarque em um período de recessão, levando o governo norte-americano e seu setor privado a diminuir o investimento em vários programas, entre os quais os de pesquisa sobre a Aids.

“Se houver um revés econômico, isso terá um impacto potencialmente negativo sobre o custeio de pesquisas em geral e de pesquisas com a vacina contra o HIV (vírus da Aids) em particular”, afirmou à Reuters, durante o encontro, Alan Bernstein, diretor-executivo da Global HIV Vaccine Enterprise.

A conferência – que reúne muitos dos grandes nomes da pesquisa sobre o HIV – ocorre depois de um ano durante o qual cientistas desistiram de planos sobre testar em um grande número de pessoas dois protótipos de vacina devido a dúvidas quanto à segurança dos produtos.

Hoje em dia, segundo estimativas, o vírus da Aids contamina 33 milhões de pessoas no mundo todo e matou entre 23 milhões e 25 milhões desde que foi identificado, nos anos 80. Coquetéis de drogas anti-retrovirais conseguem controlar o vírus, mas não há uma cura para a doença.

As duas vacinas com problema, uma desenvolvida pela gigante do setor farmacêutico Merck e outra por pesquisadores do governo norte-americano, pretendiam combater a Aids incentivando a ação de células T de forma a paralisar ou brecar o avanço da doença.

Os primeiros resultados de um teste realizado pela Merck com seres humanos não foram encorajadores, e dados mostraram que a vacina poderia deixar algumas pessoas mais vulneráveis à contaminação pelo HIV – o que paralisou os testes e levou alguns cientistas a repensarem o modelo.

Apesar de decepcionantes para os cientistas, os resultados não provocaram uma paralisação total dos testes com vacinas.

Duas vacinas desenvolvidas na África do Sul serão testadas no começo do próximo ano a fim de saber se são seguras para a fase de testes em seres humanos como parte de um esforço conjunto da África do Sul e de pesquisadores norte-americanos.

A África do Sul possui a maior população de portadores do vírus da Aids no continente africano.

Bernstein afirmou ser crucial que as grandes empresas farmacêuticas invistam mais na pesquisa com a vacina.

“Eu parto do pressuposto de que não teremos uma vacina se o setor não se envolver profundamente nesse esforço”, disse.

(Globo Online – 15.10.2008)





BRASIL VAI INICIAR CONSTRUÇÃO DE FÁBRICA DE ANTI-RETROVIRAIS EM MOÇAMBIQUE AINDA ESTE ANO

16 10 2008

Segundo o coordenador do Unaids no Brasil (órgão das Nações Unidas para a aids), Pedro Chequer, Moçambique não é signatário do acordo mundial sobre patentes o que faz com que a fábrica de Farmanguinhos, no país africano, seja estratégica para o Brasil.

“Os países mais pobres têm uma espécie de ‘termo de graça’ que eles podem produzir [medicamentos] e não são obrigados a adotar a lei de patentes de imediato. O Brasil adotou essa lei precocemente e isso foi realmente ruim e uma perda muito grande do ponto de vista econômico e da capacidade técnica.”

Para ele, a fábrica em Moçambique é um exemplo de que “projetos, experiências e estratégias brasileiras no combate à aids vêm sendo adotados por outros países”.

“O Brasil se antecipou ao associar terapia e prevenção e se antecipou ao fazer tratamento anti-retroviral. Na época, inclusive, o país foi criticado pelo Banco Mundial e por cientistas que diziam que nós estávamos cometendo uma impropriedade técnica e que iríamos gerar um exército de pessoas resistentes a medicamentos, por causa do uso de anti-retrovirais”, lembrou Chequer.

Para ele, o país sai na frente de novo ao implementar uma fábrica de medicamentos e um escritório regional da Fundação Oswaldo Cruz em Moçambique para promover a capacitação técnica em assistência à saúde nesse país. A finalização da transferência de tecnologia para o país africano deve acontecer até 2011.

“Esse projeto que o governo brasileiro, através da CPLP [Confederação dos Países de Língua Portuguesa] está promovendo, é um passo importante para a construção de uma base sólida e crescimento técnico no próprio país [Moçambique]”, explica o coordenador da Unaids.

(Agência de Notícias da AIDS – 15.10.2008)





Palestras sobre cuidados de saúde ajudam a reduzir enfermidades

16 10 2008

Uma série de palestras sobre os cuidados primários de saúde decorre em toda a extensão do município do Bailundo e está a contribuir para a redução da mortalidade e dos internamento nas instituições hospitalares.
As palestras estão a cargo de uma instituição de direito angolano, contratada pelo governo da província do Huambo, a Amosmid, e servem para esclarecer as comunidades para a necessidade da prevenção de doenças.
O chefe da repartição municipal de saúde no Bailundo, Samuel Sacundinga, admitiu que a população está mais esclarecida sobre a prevenção das doenças e dos cuidados primários de saúde, devido ao trabalho das brigadas móveis de saúde e do programa “Uhayele”, promovido pela Amosmid nas embalas e aldeias do município. Em declarações à Angop, Samuel Sacundinga considerou que o sector da Saúde no município do Bailundo trabalha “dentro da normalidade” e que os programas de saúde estão a ser acompanhados por três médicos, sendo um angolano e dois de nacionalidade cubana, além de duas técnicas especializadas em obstetrícia e ginecologia.
Samuel Sacundinga referiu que a actividade do sector de Saúde no Bailundo é agora “mais confortável”. Devido à maior afluência de pessoas, para o tratamento de dorenças, trouxe uma descida da mortalidade e do internamento nas unidades hospitalares do município. O chefe da repartição da Saúde apontou, ainda, a afluência que se tem verificado, nos últimos dias, no centro de aconselhamento e testagem voluntária de VIH-SIDA, o que, em sua opinião, traduz o sentimento da população para o combate à doença.

(Jornal de Angola – 16.10.2008)





PARA ATIVISTAS, CAMISINHA FEMININA PODE GANHAR POPULARIDADE COM INVESTIMENTO EM EDUCAÇÃO E PODE SER IDEAL NA TERCEIRA IDADE

16 10 2008

Por falta de procura, o preservativo feminino deixou de ser vendido em Portugal. É o que diz matéria reproduzida pela Agência de Notícias da Aids na noite de segunda-feira (13/10). “Praticamente não houve adesão e a indústria que os colocou no mercado acabou os retirando. Não foram considerados uma alternativa ao preservativo masculino, quando é precisamente o contrário. É a única alternativa válida que a mulher tem em relação ao preservativo masculino”, declarou, à agência Lusa, o médico Mário Sousa, presidente da Sociedade Portuguesa de Menopausa. Para acessar a reportagem na íntegra, clique aqui. Ativistas brasileiras, ouvidas nesta terça-feira (14/10), defenderam o uso e a eficácia da camisinha feminina. E também lamentaram a situação portuguesa.

Para Marta McBritton, coordenadora do Instituto Cultural Barong, aparentemente “faltou fazer investimento em educação”. Tanto para o caso do preservativo feminino quanto do masculino, ela lembra que é necessária uma “educação continuada”. “É até irresponsável tirar um produto desses do mercado”, avalia.

“A estratégia de marketing social do preservativo feminino está dando certo”, entende Marta McBritton. A ativista diz que durante a XVII Conferência Internacional de Aids, que aconteceu no início de agosto na capital do México, o assunto foi amplamente discutido. “É uma ferramenta eficaz”, conclui McBritton, referindo-se ao preservativo feminino.

Assim como o presidente da Sociedade Portuguesa de Menopausa, o médico Mário Sousa, a ativista Marta McBritton não crê em um conflito entre a camisinha masculina e a feminina. O médico avalia que o preservativo indicado para mulheres é uma “alternativa” ao insumo masculino. McBritton considera que mais do que uma alternativa, um até pode complementar o outro. “Não acredito na disputa entre eles. Eles podem se complementar”, diz.

“O preservativo feminino é muito mais prazeroso que o outro. Ele é muito mais gostoso”, garante Beatriz Pacheco, advogada e integrante do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP). Ela contou que quando o seu marido ainda era vivo, esse era insumo preferido de ambos. “Nós preferíamos o preservativo feminino”, lembra.

“O fato de nós não termos de negociar o preservativo já é uma grande coisa”, diz, apontando uma das vantagens da camisinha feminina em relação à masculina. A advogada avalia que o insumo também é fundamental na política de prevenção ao HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST) na terceira idade.

Mesmo com o advento do Viagra (e outros medicamentos para tratar do problema da impotência sexual), a ativista pondera que a ereção nessa idade é naturalmente mais complicada e daí surge uma das dificuldades para o uso da camisinha masculina. Obstáculo, é importante ressaltar, apontado pelos seus próprios usuários. Com o preservativo feminino, mesmo quando a ereção não é a ideal, não há o risco de a camisinha sair da posição indicada para o seu uso seguro.

“Eu sou fã do preservativo feminino”, diz Beatriz Pacheco. “Eu acho que é um preservativo que veio para ficar”, acredita, referindo-se a sua utilização no Brasil. No caso de Portugal, a advogada e ativista tem um entendimento bem distinto: “É um país muito conservador. Lá ainda existe uma submissão muito grande da mulher ao homem”.

Segundo dados da fabricante americana de preservativos, a The Female Health Company, em novembro de 2007, Portugal comprou 40 mil preservativos femininos da segunda geração. A última compra aconteceu em setembro de 2008 – 20 mil unidades. De novembro de 2007 até setembro 2008, Portugal adquiriu 70 mil preservativos femininos.

“Se comparado com o tempo de existência do preservativo masculino (desde o século XVII), o preservativo feminino ainda está na fase inicial da sua vida, pois foi lançado oficialmente em 1993. Além do fator ‘tempo de existência’, o custo do preservativo feminino, e aqui me refiro à primeira geração feita em poliuretano, também pode ser considerado um fator determinante para sua baixa popularidade. Porém, como o desenvolvimento e lançamento da segunda geração do preservativo feminino, feito em polímero de nitrilo, em 2006, o fator custo deve deixar de ser um dos fatores determinantes para sua baixa popularidade”, explicou Simone Martins, consultora da Female Health Company.

Para ela, esses dois principais fatores – tempo de existência e custo – impedem ainda por algum tempo que o preservativo feminino receba a devida atenção e que sua promoção seja efetiva e constante. “Por outro lado, são várias as histórias de sucesso de programas de distribuição que podem ser compartilhadas, tais como, Brasil, África do Sul e Índia, além de outros países que introduziram a camisinha feminina em seus programas de prevenção ao HIV/Aids e planejamento familiar”, acrescentou.

Léo Nogueira e Rodrigo Vasconcell/Agência de Notícias da AIDS – 15.10.200)





Aids Feminina

16 10 2008

O HIV se espalha entre as mulheres sexualmente ativas. O relatório do Fundo de Desenvolvimento da ONU para as Mulheres mostra que, na faixa etária entre 15 e 25 anos, 60% das infecções ocorrem no sexo feminino.

Em 1981, num congresso sobre doenças infecciosas em Nova York, foram apresentados cinco casos de homens aparentemente saudáveis acometidos por um tipo raro de pneumonia que costuma instalar-se apenas em portadores de deficiências imunológicas. Em conversa durante o café que se seguiu à apresentação, os médicos responsáveis pelo acompanhamento dos doentes citados estranharam a coincidência: seus pacientes eram jovens e homossexuais.

Em seguida, casos semelhantes foram descritos entre habitantes das comunidades homossexuais das grandes cidades americanas e européias. Setores da imprensa imediatamente batizaram a nova epidemia como “peste gay”.

A denominação não passava de mera expressão do preconceito contra homossexuais, porque quase concomitantemente foram descritos casos idênticos entre usuários de drogas injetáveis, receptores de transfusões de sangue e seus derivados, haitianos residentes nos Estados Unidos e, em seguida, entre os habitantes dos países africanos situados na região abaixo do deserto do Saara.

O rótulo “peste gay” prestou grande ajuda à disseminação do HIV, porque os heterossexuais automaticamente se julgaram imunes à infecção. No início da epidemia, a Aids era considerada por quase todos uma doença exclusiva de “drogados” ou de “homossexuais promíscuos”. No final dos anos 80, encontrei várias mulheres que mantinham relações anais receptivas – a mais arriscada das práticas sexuais – confessarem que jamais tinham imaginado correr risco de adquirir o vírus.

Ao mesmo tempo, outro mito colaborou decisivamente para propagação do HIV entre as mulheres: o de que homens heterossexuais não seriam infectados por elas. Se os homens não pegavam Aids, para que usar preservativo?

Durante os anos 1990, tive várias discussões com alguns colegas sobre esse tema. Muitos deles acreditavam cegamente nessa insensatez, alheios à existência de milhões de heterossexuais africanos infectados e ao fato de não existir exemplo de doença sexualmente transmissível capaz de poupar um dos sexos. Quando lhes dizia ter perdido a conta de quantos presos infectados pelo HIV encontrei no Carandiru que negavam uso de drogas injetáveis e a prática de relações homossexuais, respondiam que não se podia acreditar em bandidos.

À relutância masculina em aceitar o uso de preservativo, foram acrescidos outros fatores decisivos para a disseminação da epidemia entre as mulheres.

O primeiro está ligado à anatomia feminina. A vagina representa um ambiente muito mais acolhedor do que o pênis para um vírus como o HIV, que precisa penetrar através das mucosas, para invadir o corpo humano pela via sexual. Nela, o vírus contido no esperma fica retido por mais tempo, dispõe de maior superfície de contato e pode utilizar como porta de entrada os processos inflamatórios ginecológicos, tão freqüentes nas mulheres.

O segundo é de ordem econômica: as mulheres são mais pobres e têm menos poder do que os homens. Como outras epidemias de doenças transmissíveis, a Aids se alastra com mais velocidade nas classes sociais mais desfavorecidas. A falta de escolaridade e a dependência econômica colocam a mulher em desvantagem na hora de negociar com o parceiro o uso do preservativo.

O terceiro está relacionado com fatores culturais: a sociedade faz vista grossa à infidelidade masculina. Todos os que trabalham com Aids conhecem exemplos de senhoras ingenuamente infectadas pelo marido, único parceiro sexual de suas vidas.

Nos primeiros anos da epidemia, os conceitos de “grupo de risco” e de “promiscuidade” – aceitos até pelas publicações científicas de primeira linha para caracterizar aqueles com maior probabilidade de contrair a doença – contribuíram decisivamente para a falsa sensação de segurança das mulheres em relação ao HIV. As que não se consideravam “promíscuas” (característica que jamais atribuímos a nós mesmos) imaginavam estar imunes à infecção, sem pensar que um homossexual com cem parceiros HIV-negativos jamais pegará o vírus, enquanto a senhora casada correrá risco com marido infectado.

A face feminina que a epidemia adquiriu exige intervenções educacionais agressivas destinadas a convencer as mulheres de que não podem confiar na sorte.

A responsabilidade dessa tarefa começa em casa: não tem sentido os pais insistirem que os filhos homens carreguem preservativos na carteira, enquanto se omitem envergonhados no caso das filhas. Não custa lembrar que, assim como aconteceu conosco no passado, nossas filhas não nos pedirão licença para iniciar a vida sexual; portanto precisam receber orientação antes da puberdade. Ninguém espera uma criança atravessar a rua sozinha pela primeira vez para depois adverti-la do perigo dos automóveis.

A sociedade e os responsáveis pelas políticas de saúde pública precisam agir conscientes de que a epidemia de Aids é uma ameaça gravíssima. Para enfrentá-la, distribuir medicamentos aos doentes é medida necessária, mas não suficiente: se não quisermos chegar à situação crítica em que se encontram alguns países da Ásia e da África, precisamos ensinar práticas de sexo seguro às meninas e aos meninos em idade pré-sexual. E, o mais importante de tudo, garantir a eles o acesso universal aos preservativos.

(Gazeta Digital – 15.10.2008)





MADAGÁSCAR: Visitantes sim, turismo sexual não

16 10 2008

TOLIARA, 15 Outubro 2008 (PlusNews) – Os pôsteres de advertência começam no aeroporto da capital, Antananarivo, a informar aos visitantes que Madagascar diz “NÃO ao turismo sexual”e que “mulheres malagaxes não são souvenirs de viagem”.

Grandes cartazes a informar aos que chegam que as autoridades irão processar aqueles que forem pegos praticando sexo com crianças acompanham o caminho para a cidade, e em hotéis turísticos – junto a um pôster colorido que diz “Bem-vindo a Madagasikara – a terra dos lémures” – é provável que haja um aviso de que o hotel tem o direito de verificar a idade de qualquer pessoa que acompanhe os hóspedes aos seus quartos.

Madagascar, a grande ilha tropical na costa leste da África, está a tentar sair do mapa de turismo sexual, e especialmente a fechar as portas para os pedófilos à procura de menores.

Para enfatizar o compromisso, o governo adoptou uma nova lei contra a exploração sexual de menores que inclui punição dos exploradores adultos; como resultado, diversos estrangeiros foram condenados.

Mas um passeio à noite pelas ruas de Toliara, uma cidade turística que está a prosperar no sul de Madagascar, mostra que ainda há muito a ser feito. Profissionais do sexo dominam as ruas, a jogar beijos e acenar para os estrangeiros, na tentativa de lucrarem com os turistas que não estão a visitar essa empobrecida ilha do Oceano Índico pela sua biodiversidade única.

“É um lugar muito barato, as mulheres são bonitas, há pouco controle do turismo sexual. Ninguém diz nada a respeito; pode-se vir aqui e fazer o que quiser” disse Jose Louis Guirao, que gere projectos da Bel Avenir, uma organização não-governamental (ONG) que promove iniciativas sociais e relacionadas a educação e saúde. “As mulheres começam quando têm 10 a 12 anos; são muito novas.”

Um relatório realizado pelo Departamento de Estado dos EUA este ano afirmou que Madagascar era um “país onde mulheres e crianças são traficadas para os propósitos de exploração sexual”, mas elogiou o governo por estar a tentar acabar com o problema.

A realidade

A realidade é que as crianças, em geral nas áreas rurais, são altamente vulneráveis à exploração: são traficadas para escravidão doméstica, trabalho forçado e trabalho sexual. As crianças muitas vezes entram no mercado de trabalho com a aprovação das mães, para quem sua renda pode ser a única fonte de sustento. Na Província de Toliara, por exemplo, 80 por cento das pessoas vivem na pobreza.

''Nós aceitamos qualquer cliente que houver porque precisamos do dinheiro. Eu não digo ´não´, mas a menina que consegue o cliente loiro, francês ou americano, é a que tem a melhor sorte.''

Bruno Maes, representante em Madagascar e nas Comores do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), é categórico na sua condenação da exploração sexual de crianças.

“Uma criança que é vítima de abuso sexual pode sofrer consequências sérias e para a vida inteira; é um crime que é totalmente inaceitável em todos os contextos. A UNICEF tem consciência da sua disseminação em Madagascar”, disse.

No escritório da Bel Avenir, Aline, uma profissional do sexo, participa de uma reunião com suas colegas, algumas das quais trouxeram seus filhos, para saber mais sobre seus direitos, oportunidades futuras e protecção.

Aline faz piadas e brinca com os preservativos distribuídos pela ONG, mas fica séria quando fala sobre seu trabalho. “Nós aceitamos qualquer cliente que houver – precisamos de dinheiro. Eu não digo não, mas a menina que consegue o cliente loiro, francês ou americano, é a que tem melhor sorte”, disse ela. “Muitos estrangeiros vêm para Toliara e ficam com meninas. Eles gostam de Madagascar, mas gostam ainda mais das meninas mais jovens.”

Os principais países de onde vêm os turistas sexuais são França, Itália, Espanha, Alemanha e Suíça, e as ilhas vizinhas Maurícias e Reunião. As vítimas em geral são meninas, mas registos de turistas estrangeiros homens à procura de meninos menores de idade está a tornar-se mais frequente.

Grupos militantes dizem que progresso está sendo feito na luta contra o turismo sexual, mas o controlo é difícil por causa da corrupção, e até mesmo protesto dos pais das crianças – prostituição é frequentemente uma ocupação hereditária passada adiante para as próximas gerações.

Madagascar até agora foi muito menos afectada pela SIDA do que a maioria dos países da África continental, mas organizações internacionais advertem que isso pode mudar rapidamente. “A completa falta de conhecimento sobre a doença, segundo o que vejo aqui, significa que em breve pode ser muito, muito pior”, afirmou Guirao, da Bel Avenir.

Um rápido crescimento económico relacionado aos projectos locais de mineração atraiu profissionais do sexo do outro lado da ilha para as novas cidades, e uma epidemia de sífilis na cidade de mineração Fort Dauphin no sudeste em 2007 foi alarmante: apontou para a escassez de uso do preservativo, além de que infecções sexualmente transmissíveis aumentam o risco da transmissão de HIV.

Ao ser questionada sobre o uso de preservativos dados pela Bel Avenir, Aline disse: “Muitos clientes não querem usar, e dão dólares ou euros, então concordo em não usar. Assim é a minha vida em Madagascar”.

(PlusNews – 15.10.2008)





GUINÉ-BISSAU: Epidemia de cólera ainda não atingiu pico

16 10 2008

DAKAR, 14 Outubro 2008 (PlusNews) – A epidemia de cólera ainda está fora de controlo na Guiné-Bissau, onde o número de casos duplicou nos últimos três anos, elevando o número total de pessoas atingidas para 10.476, registadas até 9 de Outubro.

Houve 312 novas infecções nos últimos dois dias, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), e 181 pessoas em decorrência da doença.

“A epidemia não está sob controlo. Eu não quero ser alarmista, mas ainda não atingimos o pico e há novos casos a cada dia”, disse Daniel Remartinez, coordenador de emergências da organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) Espanha.

Com 7.143 casos, Bissau é a região mais afectada, seguida por Biombo, no oeste do país, com 1.405 casos, e as ilhas Bijagós, a 60 km da costa da capital, com 144 infecções – a maior parte das infecções em Bijagós foi contraída nas últimas semanas, segundo Agostino Betunda, co-director do Centro de Epidemiologia de Bissau.

Uma em cada 10 pessoas contaminadas pela cólera morre da doença na região de Quinara, vizinha à capital, e uma em cada nove em Bafatá, na região central da Guiné-Bissau, devido em parte à falta de tratamento disponível, segundo Betunda.

A MSF está a prover tratamento em hospitais e clínicas de saúde nas regiões de Bissau, Oio e Biombo.

Fonte descoberta

Epidemiologistas em Bissau rastrearam o primeiro caso de cólera numa ilha na região sul de Tombali.

“Nossa pesquisa aponta para os pescadores da Guiné que vivem em acampamentos na ilha de Campeane próximo à fronteira da Guiné”, disse Betunda. Ele acredita que a origem da epidemia está relacionada aos casos recentes de cólera na Guiné. Cerca de 40 casos foram registados na Guiné em Maio, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Quando há casos na Guiné Conakry, é frequente termos casos aqui”, disse Sylvana Nzirorera, vice-representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na Guiné-Bissau.

“A epidemia na Guiné foi contida muito rapidamente porque a resposta do governo foi muito organizada”, disse ela.

“Não há boas fontes de água na ilha, então as pessoas atravessam o rio à procura de água. A partir de lá, a proliferação continua pela região”, afirmou Betunda.

Higiene

A cólera é um problema recorrente na Guiné-Bissau, particularmente durante os meses chuvosos de Junho a Outubro. Uma epidemia em 2005 matou 400 pessoas e infectou mais de 25 mil.

“Devemos olhar para as razões pelas quais o país sempre tem surtos. É um problema de falta de infra-estrutura para água, mas práticas de higiene também são uma grande causa”, afirmou Nzirorera, do UNICEF.

Nzirorera observou que menos de um terço dos guineenses acreditam que lavar as mãos irá protegê-los de doenças provenientes da água, tais como a cólera. “Esse é um grande problema”, disse. “Até mesmo as pessoas que têm água não lavam as mãos sistematicamente, e aquelas que o fazem não usam sabão.”

O UNICEF colocou anúncios no rádio para encorajar as pessoas a lavarem suas mãos regularmente ao longo do dia. Um relatório do UNICEF de investigação das causas da falta de higiene descobriu que práticas culturais têm parte da responsabilidade.

“Há um provérbio [entre alguns grupos] que diz que uma criança de mãos sujas cresce mais forte”, esclareceu Nzirorera.

O relatório do UNICEF revelou também que o estigma em torno da doença contribui significativamente para os esforços de prevenção.

“A maioria das pessoas nas vilas pensa que cólera é uma doença vergonhosa, então, escondem-na”, explica Nzirorera. “As pessoas estão começando a relacionar a cólera à falta de higiene e não querem ser vistas como sujas.”

Muitas pessoas morrem em casa ou postergam a procura por tratamento porque envergonham-se de admitir que têm a doença.

Término à vista

Remartinez, da MSF, afirmou que espera-se que o número de infecções chegue ao ápice nas próximas semanas, embora tenha ressaltado que ainda faltam meses para o fim da epidemia.

“É difícil dizer quantos casos teremos no final. Mas não terminará com o fim da estação chuvosa. Perdurará por algum tempo – provavelmente até Novembro ou Dezembro”, disse.

Nzirorera foi mais optimista. “A boa notícia de hoje é que não houve registo algum de casos em Tombali nos últimos quatro dias”, disse ela. “Com as chuvas quase a cessar, em breve poderemos começar a ver o fim do pesadelo.”

(PlusNews – 14.10.2008)





MINARS apoia crianças portadoras do VIH/Sida

15 10 2008

Trezentas e 50 crianças de zero aos dois anos de idade portadoras do VIH/Sida, na província do Cunene, estão a receber apoio alimentar da direcção local do Ministério da Assistência e Reinserção Social (MINARS), de forma a terem uma dieta adequada em conformidade com o seu estado de saúde, soube a Angop de fonte do sector.
O facto foi avançado pelo chefe do departamento de Prevenção de Infância e Adolescência daquela direcção, Mateus Nduulipoupyo, referindo que os petizes contraíram o vírus da Sida através das próprias mães no acto do parto.
“Este é o número de crianças controladas pelo MINARS na região que recebem regulamente leite de acordo com as idades, bem como alguma dotação alimentar entregue aos familiares próximos dos pequenos”, sublinhou o responsável.
Frisou que as crianças necessitam de um bom acompanhamento desde a sua dieta alimentar e a saúde, por tal facto o Governo angolano intervém, prestando a atenção necessária, para que cresçam saudáveis, apesar do estado serológico.
Mateus Nduulipoupyo disse que, actualmente, regista-se uma rotura no stock do armazém, como a falta de leite e outros bens alimentares, uma vez que este apoio é proveniente da direcção central em Luanda e, até momento ,aguarda-se pela resposta do ministério de tutela.
A par destes petizes, o MINARS no Cunene assiste cerca de quatro mil e 294 crianças órfãs, cujos pais morreram vítimas da Sida, e, num período de um a três meses recebem bens alimentares, desde arroz, açúcar, óleo, fuba e outros produtos de primeira necessidade, sublinhou Mateus Nduulipoupyo.

(Jornal de Angola – 14.10.2008)





SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE: Final feliz com HIV

15 10 2008

SÃO TOMÉ, 14 Outubro 2008 (PlusNews) – Na sala de reuniões da organização não-governamental portuguesa Médicos do Mundo (MdM), 15 actores tentavam decorar os seus textos.

Com idades entre 16 e 25 anos, eles se preparavam para as gravações da minissérie Os que têm SIDA são como os que não têm, que começa a ser transmitida no início de Novembro e culmina no Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, em 01 de Dezembro.

A novela conta a história de Zito, 28 anos, que resolve terminar um relacionamento de sete anos com a sua namorada, depois de descobrir que ela é seropositiva.

Chica, 21 anos, é estudante da nona classe e foi infectada numa relação sexual desprotegida com um colega de turma, numa festa promovida por alunos.

Ela descobre que tem o HIV depois de uma série de exames no Hospital Ayres de Menezes, o maior de São Tomé, após ter desmaiado durante a actuação do Bulauê Paste-Lim, um grupo tradicional.

Ao receber a notícia que Chica, com quem nunca havia mantido relações sexuais, era seropositiva, Zito resolve romper a relação. Porém, depois de ser aconselhado por um amigo, reata o relacionamento e casa com sua cara-metade.

Final feliz só nos filmes?

O objectivo da minissérie, que será transmitida em horário nobre pela Televisão São Tomense (TVS), é possibilitar o mesmo final feliz na vida real.

Situado na Costa do Gabão, São Tomé e Príncipe, com uma população de 155 mil habitantes, tem uma seroprevalência de 1,5 por cento. Apesar disso, ninguém até hoje teve coragem de assumir a condição publicamente, por medo do estigma.

“Em São Tomé existe uma tendência discriminatória muito grande. Existem pessoas que ainda pensam que a SIDA é uma doença que se apanha conversando, tocando as pessoas infectadas”, afirmou Afonso Januário, realizador da minissérie.

Com o filme, rodado em seis episódios de cerca de 20 minutos, Januário pretende mobilizar a população para a situação dos seropositivos em São Tomé e Príncipe.

Actor de Imprudência, o fogo do apagar da vida, o primeiro filme sobre SIDA no arquipélago, ele sabe como pode ser difícil abordar o tema.

“Procurei um seropositivo que pudesse participar no filme, mas sem sucesso. Falei com três jovens e eles não aceitaram dar a cara, com medo de serem rejeitados”, contou Januário.


Photo: Ramusel Graça/PlusNews
Actores ensaiam suas partes na minissérie

Areguine Fonseca, 26 anos, mostra que enfrentar o HIV num filme é bem diferente do que fazê-lo na vida real. Mesmo fazendo o papel de Zito, ele nunca fez o teste de HIV.

“Sei que não tenho o vírus, porque as minhas mulheres fizeram o teste pré-natal. Tenho duas mulheres e dois filhos, de dois e três anos”, explicou, enquanto aguardava para entrar em cena.

“Já vi doentes de SIDA. É complicada esta doença, tu emagreces tanto… A SIDA é quase que morte lenta”, disse. “Mas esta é uma experiência fascinante, estou a contribuir para a moralização da nossa sociedade.”

A minissérie tem o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Fundo Global de Luta contra a SIDA, Malária e Tuberculose, e a Embaixada do Brasil.

Associação de seropositivos

A minissérie pretende também preparar os próprios seropositivos para informarem a sociedade sobre a sua saúde, para que possam trabalhar em conjunto.

Para tanto, um grupo de vinte e cinco pessoas está a trabalhar para a oficialização de uma associação de seropositivos, com o apoio da MdM.

“Estamos a capacitá-los para que possam viver positivamente. Neste país é ainda muito difícil, os seropositivos se isolam e não falam da doença a ninguém”, disse Rita Aleixo, coordenadora de projectos da MdM.

“Queremos oficializar a associação de seropositivos até o final de 2009”, disse Aleixo. “Todos estão motivados, faltam apenas capacidades para poderem trabalhar de forma autónoma.”

(PlusNews – 14.10.2008)





CPLP: A transmissão intencional do HIV deve ser considerada crime?

15 10 2008

JOHANNESBURG, 14 Outubro 2008 (PlusNews) – A criminalização da transmissão intencional do HIV é hoje um dos assuntos mais controversos no contexto da epidemia.

Os que defendem que alguém que infectou outra pessoa propositadamente deve ser acusado de homicídio têm um argumento claro: a SIDA é uma doença fatal, portanto se a transmissão foi intencional, quem o fez tinha o objectivo de matar.

O problema é que a transmissão intencional nem sempre pode ser provada. Como provar que houve intenção? E como provar quem infectou quem? Será que quem foi diagnosticado antes é necessariamente que infectou o parceiro?

Já especialistas dizem que a criminalização pode trazer um tremendo retrocesso às campanhas de testagem voluntária. Para eles, criminalizar a transmissão sem métodos seguros para se provar intenção vai fazer com que as pessoas deixem de se testar – afinal, se ela não souber que está infectada, não poderá ser acusada de infectar intencionalmente.

Enquanto isso, países no mundo todo tacteiam para elaborar legislações apropriadas, que levem em conta variáveis como direitos humanos, direitos das mulheres e testagem voluntária.

E você, o que acha? A transmissão intencional do HIV deve ser considerada crime? Vote no site do PlusNews Português.

Para ler mais sobre o assunto:

ÁFRICA: Novas e aterrorizadoras leis sobre HIV enfraquecem resposta à SIDA

ANGOLA: Infecção propositada – crime e castigo?

MOÇAMBIQUE: Novo anteprojecto de lei na defesa dos seropositivos





Metro rende-se às fotonovelas

14 10 2008

A edição de hoje do gratuito Metro dá início à publicação do «Metro e a Cidade», uma fotonovela diária que o jornalvai incluir nas suas páginas. Uma rubrica num registo humorístico que conta as aventuras e desventuras de uma família jovem e cosmopolita.

A este projecto, que também assume uma componente de sensibilização para questões como a Sida, associaram-se como parceiros a Comissão Nacional da Luta Contra a Sida e a marca de preservativos Control. O argumento é da autoria da equipa da Monomito.

O projecto «Metro e a Cidade» esteve a ser planeado nos últimos dois anos e foi produzido pela Bollywood de Gustavo Vilhena-Ayres.

(Jornal Metro – 13.10.2008)





DIA DAS CRIANÇAS: MINHA MÃE TEM AIDS

14 10 2008

Mãe, eu não preciso de remédio, eu não tenho Aids, quem tem é você!” Essa foi a resposta de Andréia*, aos seis anos de idade, quando sua mãe tentava lhe dar algumas vitaminas. “Fiquei totalmente sem ação. Nesse momento me dei conta que ela sabia que eu tinha o vírus”, conta Dora*, de 38 anos, soropositivo há 18. Andréia, hoje com 17, não tem o vírus. Este e outros temas foram abordados em uma série de reportagens que a Agência de Notícias da Aids preparou em homenagem ao Dia das Crianças. Confira a última matéria da série a seguir.

A mãe lembra que a menina, desde muito pequena, a acompanhava nas consultas médicas e grupos de apoio. “Eu não tinha com quem deixá-la, ela estava sempre comigo e ouvia as conversas”. Durante muito tempo, Dora ficou na dúvida se sua filha sabia ou não que ela vivia com HIV/Aids, mas também tinha receio de contar. “Quando me dei conta que, realmente ela sabia, continuei a tratar do assunto com naturalidade, mas não chegamos a ter um conversa a respeito, aquilo já fazia parte de nossas vidas,” diz e lembra que, já com oito anos, Andréia a chamava se estava passando alguma reportagem na televisão sobre o assunto.

Dora descobriu que tinha o HIV, em 1990, quando tinha 20 anos e estava no oitavo mês de gravidez. O marido dela começou a ficar muito doente, fez o exame, deu positivo, então ela também fez e descobriu que estava infectada. “Fiquei desesperada e só rezava para minha filha nascer sem o vírus”, relata. Na época não havia prevenção para a transmissão vertical. Quando Andréia nasceu, seu exame deu negativo. “Fiquei super aliviada e feliz, mas continuamos a testá-la até os dois anos de idade, para termos certeza absoluta”, explica a mãe.

Apesar da boa notícia a vida das duas não foi fácil. O pai de Andréia faleceu exatamente nessa época, quando ela tinha dois anos. Dora, que já tinha perdido sua mãe aos sei anos e o pai aos 18, se viu só no mundo. “Minhas irmãs, apesar de me darem apoio, moravam em outras cidades. Aqui em São Paulo, eu só tinha a família do meu marido, que nos abandonou”. Ela conta que eles chegaram a acusá-la de ter passado o vírus a ele, quando todos já sabiam que ele tinha sido usuário de droga injetável e ela, casado virgem. “Tive que criar minha filha sozinha. Foi duro, sempre com medo de ficar doente, ou de morrer e deixá-la só”, lembra.

Dora passou a freqüentar um grupo de apoio, o GIV (Grupo de incentivo à vida), que segundo ela, mudou sua história. Lá aprendeu que sua vida não se resumia ao HIV e fez amigos. Voltou a estudar, terminou o colegial, trabalhou duro, sempre procurando dar a melhor educação que pudesse à Andréia. “Muita gente da nossa classe, mais pobre, não vai atrás das oportunidades. Se contentam com uma cesta básica, ou uma pensão”, argumenta, com a certeza que, devido ao trabalho que conseguiu como atendente numa escola de freiras, sua filha pôde estudar a vida toda num bom colégio particular.

“Também fui atrás de muitos cursos para Andréia, cursos de graça, e se não eram eu pedia bolsa”, ela conta. A garota estudou inglês, computação e atualmente faz um curso de web design, numa escola onde também faz estagio. No final desse ano termina o segundo grau e sonha em estudar medicina. “Desde pequena eu via o tratamento que minha mãe recebia nos postos de saúde. Tinha médico que não encostava nela. Lembro de uma vez que ela estava com um caroço no pescoço, ela mostrou, mas o médico não examinou,” recorda triste.

Andréia é realista e sabe que será muito difícil estudar medicina. “Mesmo se eu entrasse numa faculdade pública, o curso é integral e eu tenho que trabalhar pra ajudar minha mãe”, pondera. Ela planeja, então, fazer enfermagem ou ciência da computação, só não quer ficar sem uma faculdade. Quanto à família do pai, a menina lamenta não ter crescido em contato com eles. Com cinco anos, pediu pra conhecê-los, mas não foi bem acolhida. “Eles têm muito preconceito. Foi uma pena, pois eu já não tinha parentes do lado da minha mãe, teria sido bom ter o carinho de avós, tios e primos do lado do pai”.

Mãe e filha seguem sempre unidas, batalhando juntas. Andréia se diz feliz em ver que a mãe se cuida e toma seus remédios direito. “Acho que foi Deus que quis que eu não nascesse com o HIV. Assim posso cuidar mais da minha mãe, que está bem e ainda vai viver muito”, garante sorrindo.

*O nome das personagens foi mudado para preservar suas identidades.

(Valéria Polizzi/Agência de Notícias da AIDS – 12.10.2008)





Oficina Participação e Facilitação

13 10 2008

No próximo dia 24 de Outubro, entre as 09:30 e as 18:00, a Cidadãos do Mundo organiza uma OFICINA PARTICIPAÇÃO E FACILITAÇÃO (clique no link)  no Instituto de Higiene e Medicina Tropical (Rua da Junqueira. 96).

VEJA AQUI A AGENDA (Clique no link)

Inscrições para o e‐mail:
crias.cidadãosdomundo@hotmail.com até ao dia 22.10.2008 com o teu nome e contactos.
A participação é gratuita.

Facilitação: Maria Teresa Santos





Dez mil têm sida sem saber

13 10 2008

Cerca de 10 500 dos 32 491 portugueses que, no início de 2008, estavam infectados com o vírus da imunodeficiência adquirida (VIH) desconheciam a sua situação, por não efectuarem exames para o rastreio da doença.

A revelação foi feita ontem por Kamal Mansinho, director do Serviço de Infecciologia e Medicina Tropical do Hospital Egas Moniz, no Congresso Nacional de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica, Sida e Parasitologia, que decorre em Vilamoura.

O medo e o estigma são apontados como responsáveis pela situação, que também abrange a restante Comunidade Europeia. Estima-se que 30% dos infectados por VIH na Europa desconhecem o seu diagnóstico.

“O teste de rastreio é elemento-chave para o diagnóstico precoce da infecção”, afirma Kamal, que lembra a análise casuística efectuada por um grupo de médicos do Egas Moniz , com base nos registos clínicos de 200 doentes infectados, concluindo que apenas 45 por cento dos heterossexuais fizeram o exame de rotina.

(Correio da Manhã – 11.10.2008)





Campanhas para jovens devem ser pensadas por jovens, defende alta-comissária da Saúde

13 10 2008

Porque hão-de ser sempre os adultos a pensar pelos jovens? Inspirada em práticas que têm vindo a ser seguidas em alguns países europeus e nos EUA, a alta-comissária da Saúde, Maria do Céu Machado, quer fazer de outro modo e entregar aos mais novos a responsabilidade de encontrarem mensagens eficazes para os seus pares.
Para tal, propõe que o Ministério da Saúde promova a realização de um fórum de estudantes do ensino secundário e dos primeiros anos da universidade e recolha as suas ideias. Por exemplo, sobre como convencer um jovem a nunca pegar num cigarro.
Em Portugal, é entre as raparigas dos 15 aos 24 anos que o consumo de tabaco mais tem aumentado: em seis anos, subiu 40 por cento. “Não tem havido campanhas [antitabágicas] especificamente dirigidas aos jovens”, constata a alta-comissária, em declarações ao PÚBLICO.
Montar campanhas diferenciadas consoante os públicos a atingir pode ser fundamental mas não basta, como mostraram várias das que foram implementadas sobre a sida. Inquéritos recentes dão conta que são poucos os jovens que se lembram de alguma delas e ainda menos os que dizem ter aprendido alguma coisa com elas.
Como sempre em comunicação, trata-se de como fazer passar a mensagem. No ano passado, no âmbito de uma reunião interministerial da Organização Mundial de Saúde (OMS), 51 jovens, com idades entre os 16 e os 22 anos, oriundos de 28 países europeus (mas nenhum de Portugal), foram a Viena para mostrarem aos adultos ali reunidos como eles continuam a falhar na produção de mensagens “amigas da juventude” (youth friendly).
Primeiro diagnóstico: “A informação disponível é demasiado longa e chata.” É preciso “informar de um modo compreensível e atraente”, “utilizar sinais e slogans em vez de longos e dispendiosos anúncios”, aconselharam. Segundo diagnóstico: “Os pais não estão suficientemente informados.” Vários jovens portugueses inquiridos sobre as campanhas de prevenção do HIV contrapuseram com a ignorância dos adultos: mais do que eles, eram os seus pais quem deviam ser informados sobre os perigos e os meios de os prevenir.

A ignorância dos pais
Mas os jovens que foram a Viena – a maioria são membros nos seus países de organizações não governamentais – não se limitaram a apontar falhas. Apresentaram propostas alternativas. Por exemplo, transformaram o palavroso Plano de Acção Europeu Ambiente e Saúde para as Crianças, adoptado em 2004 pela OMS, num documento imediato. Quase logo no início, a nova versão tem esta bicada: “É absurdo quando os adultos debatem problemas dos jovens sem terem jovens entre eles.”
Uma informação mais acessível e eficaz é também uma forma de garantir o que está estipulado na Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU: as crianças e os jovens têm o direito a serem consultados nos processos e decisões que afectam a sua vida, presente e futura.
A saúde e o ambiente fazem parte deste pacote. Desde 2004, a OMS tem garantido a presença de delegados jovens no seu Comité Europeu para o Ambiente e Saúde (EEHC, na sigla em inglês), disse ao PÚBLICO Lúcia Liccari, assessora da organização para esta área. “A participação dos jovens alarga a sua compreensão do mundo, reforça as suas capacidades de decisão e contribui para os tornar cidadãos activos”, frisa.
O jovem Teodor, um moldavo de 17 anos, já deu o seu primeiro contributo com um pequeno vídeo, de 60 segundos, que apresentou no ano passado em Viena. Chama-se Unlucky Strike e, com este nome, só podia ser sobre cigarros, embora a coisa se passe numa batalha de rua.
Teodor elaborou o seu filme no âmbito de um workshop promovido pelo projecto europeu OneminutesJr, promovido para proporcionar aos jovens mais meios e oportunidades de se expressarem (ver www.publico.pt).
Céu Machado era um dos adultos que estava na reunião de Viena. A proposta que agora dirigiu ao Ministério da Saúde começou a germinar ali: “O que se pretende é a opinião dos jovens.”

(Público – 12.10.2008)





Fosse a malária uma doença de países ricos…

13 10 2008

Se a malária afectasse mais os países ricos do que os pobres o esforço de se encontrar uma vacina já teria sido muito maior. Embora não seja fácil admiti-lo, Pedro Alonso, director do Centro de Barcelona para a Investigação na Saúde Internacional e notabilizado pelo seu trabalho em torno de um programa de vacinação contra a doença, referiu hoje durante um seminário, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que enfermidades transmissíveis têm um peso maior sobre as populações desfavorecidas por razões financeiras.
Existem pessoas a viver com menos de um dólar por dia (0,73 euros) que não têm dinheiro para vacinas e, muitas vezes, nem para se alimentarem.  Pedro Alonso aventou que, apesar disso, nos últimos 50 anos, “a saúde melhorou significativamente, pois morreram menos crianças com idade inferior a cinco anos”. O círculo vicioso da pobreza/ doença verifica-se mais significativamente nos casos de HIV, em que 40 milhões de pessoas vivem infectadas e a grande maioria situa-se em países subdesenvolvidos.

A malária é responsável pela morte de uma pessoa a cada 30 segundos que passam especialmente em África. Chegaram recentemente 1233 novos fármacos ao mercado e só 13 eram para tratar doenças tropicais.

Como disse o orador, desde há 50 anos, muita coisa mudou. Passou-se da televisão a preto e branco para as cores do grande plasma, dos telefones para os telemóveis, de equipamentos médicos rudimentares para outros mais avançados e computorizados, mas no combate à malária, a técnica é a mesma: a pulverização insecticida.

Pedro Alonso é director de uma unidade que coordena a definição de uma agenda global para a erradicação do Paludismo e membro do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (Moçambique) e centraliza os seus esforços na missão de salvaguardar a saúde das crianças africanas. O primeiro passo foi criar um plano de vacinação e tentar impedir que o mosquito pique as suas vítimas recorrendo ao uso de redes mosquiteiras.

A vacina em que o director clínico espanhol tem trabalhado tem a capacidade para proteger a criança ou recém-nascido até ao primeiro ano de vida e pode reduzir a malária até 65 por cento, com a combinação de estratégia em mulheres grávidas. É, portanto, mais eficaz e moderada, embora seja ainda um passo de bebé para chegar à erradicação. Prevê-se para 2025 o objectivo de desenvolver uma vacina que dure até cinco anos.

(Marlene Moura/Ciência Hoje – 10.10.2008)





Envelhecendo com HIV

10 10 2008

Homens e mulheres que vivem com o HIV há mais de uma década, e estão envelhecendo com o vírus, podem possuir a chave para inúmeros questionamentos sobre a aids. São pessoas que sobreviveram à pior fase da epidemia e conseguiram encontrar um equilíbrio na convivência com o vírus e os medicamentos. Sabem se cuidar, exigem seus direitos, são bem informados sobre a doença e discutem com os profissionais de saúde os rumos do tratamento. “Somos a vanguarda da aids”, afirma Dimas Santos que convive com o HIV há 22 anos. “Aprendemos a conviver com o HIV num período pré-coquetel, fomos os primeiros a utilizar os medicamentos mais potentes, em meados dos anos 90 – uma experiência que ajudou a comunidade científica a ajustar o tratamento ao longo dos anos –, e agora estamos na linha de frente dessa batalha contra as novas doenças que começam a surgir em função do tempo de exposição ao vírus e ao tratamento anti-retroviral”.

Colher e compartilhar experiências
Estudos sobre a longa convivência com o HIV e sobre o envelhecimento da população que vive com o vírus ainda são raros, mas cada vez mais necessários. Para a psicóloga Carmen Lent, coordenadora do Banco de Horas – projeto que oferece atendimento psicológico gratuito a pacientes com HIV, no Rio de Janeiro –, este é um tema que merece toda a atenção por parte dos profissionais de saúde que trabalham com aids. “Temos que colher as experiências das pessoas que vivem com o HIV há muito tempo, saber o que elas ganharam de bom e que novas ansiedades emergem. Acredito que cada profissional de saúde, em sua rotina de atendimento, já vem observando individualmente esses pacientes. Agora é o momento de compartilhar experiências, ajudando a criar referências sobre o tema que possam ser úteis para as gerações futuras”, sugere Carmen. “Esse compartilhamento deve ocorrer não apenas por meio de seminários e conferências, mas também no universo micro das unidades de saúde, entre os profissionais das equipes que trabalham no atendimento de pacientes com HIV/aids”, completa a psicóloga.

HIV antecipa processo de envelhecimento
O infectologista Gustavo Magalhães, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), concorda com Carmem Lent. “É preciso aprender com as pessoas com mais de 15 anos de infecção, e entender como o vírus se comporta depois de muito tempo”, diz o médico, destacando uma constatação atual que preocupa e aponta para novas abordagens: “O HIV antecipa o processo de envelhecimento, principalmente com o uso prolongado dos anti-retrovirais”. O fato não desmerece o sucesso da terapia antiretroviral potente contra o HIV (HAART, na sigla em inglês), mas é um alerta para que as equipes de saúde atentem para o diagnóstico de doenças que até então não faziam parte do universo do HIV/aids, mas que são comuns ao envelhecimento. “As especialidades em saúde que trabalham com o HIV/aids têm um espectro mais amplo agora. Não se restringem à profilaxia e ao tratamento de doenças oportunistas, mas envolvem questões metabólicas, de ossos, hepáticas, renais, neurológicas e pulmonares”, afirma o infectologista e pesquisador da Fiocruz Estevão Portela. “O controle da replicação viral continua sendo a forma mais eficaz para evitar essas complicações, mas o monitoramento, por meio de exames, pode contribuir para um diagnóstico mais precoce de doenças, e para um tratamento mais adequado”, reforça Portela.

Alterações metabólicas são as que mais preocupam
De todas as complicações observadas nos pacientes com longo tempo de tratamento, as questões metabólicas podem ser consideradas as mais comuns e mais graves. Alterações nos níveis de glicose, triglicérides e colesterol podem levar a diabetes e doenças cardiovasculares – principal causa de morte em pacientes com HIV/aids. “Essas alterações podem ser minimizadas com o uso de medicações específicas, pela prática de exercícios físicos, por uma alimentação mais adequada e, em último caso, pela troca de anti-retrovirais, embora este não deva ser o foco”, diz o infectologista Estevão Portela.
Uma doença típica do envelhecimento que vem aparecendo com mais freqüência em pacientes com HIV/aids – não necessariamente idosos – é a osteoporose, que está relacionada ao uso prolongado de alguns inibidores da protease e ao tenofovir. É uma doença silenciosa que não se manifesta previamente e que pode levar, em alguns casos, a deficiências graves, como a paralisia. “Existem algumas recomendações que podem retardar ou evitar a osteoporose, como atividade física, reposição de cálcio, uso de vitamina D e uma medicação chamada alendronato”, afirma Estevão Portela. Os exames tradicionais de densitometria óssea ajudam no diagnóstico e devem ser realizados a critério médico. Sua periodicidade dependerá da presença ou não de outros fatores de risco, como tabagismo, uso de corticóide e idade mais avançada. Portela cita ainda as doenças pulmonares crônicas, como enfisema, que podem evoluir mais rapidamente em pacientes fumantes infectados pelo HIV.
Mais freqüentes em pessoas idosas, doenças hepáticas e renais também estão relacionadas ao uso prolongado de anti-retrovirais.

Doenças neurológicas
O infectologista Gustavo Magalhães aponta para doenças neurológicas que até agora não faziam parte do universo do HIV/aids, sendo mais freqüentes nos idosos, como a demência senil ou vascular – formas diferentes daquela observada nos pacientes com aids no período pré-HAART. Os sintomas mais comuns são dificuldades de concentração e memória, tendência ao isolamento, apatia, empobrecimento das respostas emocionais, irritação, comportamentos inadequados e períodos de desorientação. “O exame clínico e a avaliação neuropsiquiátrica são os métodos diagnósticos mais seguros. Mas exames de imagens como tomografia ou ressonância magnética do crânio podem ajudar na precisão, descartando outras doenças neurológicas”, sugere o médico.

Cânceres: exames preventivos mais freqüentes
As neoplasias, ou cânceres, também são freqüentes em pacientes com longa exposição ao HIV e aos anti-retrovirais. A infectologista Valéria Ribeiro Gomes, chefe da Infectologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto e infectologista do Hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro, alerta que há uma tendência
de aparecimento precoce de alguns tipos de neoplasias. “Os tumores hepáticos são mais freqüentes em pacientes soropositivos com coinfecção dos vírus B e C da hepatite, mas também preocupam alguns tumores de pulmão e o sarcoma de Kaposi, que está ressurgindo, sendo responsável por um número cada vez maior de internações. Há ainda os tumores do canal anal e os carcinomas do cólon de útero, que estão associados ao HPV”, enumera a médica. “Os profissionais de saúde devem ficar mais atentos a essas complicações e realizar os exames de diagnóstico com um intervalo menor, nos pacientes soropositivos”, conclui.

Trabalho em equipe proporciona melhores resultados
Os especialistas concordam que o envelhecimento com HIV/aids, associado ao uso prolongado dos anti-retrovirais, é um processo novo e que a forma mais eficaz de reduzir o impacto dessas doenças ainda é o controle. “Esses pacientes precisam de uma excelente qualidade de vida, que inclui boa alimentação, prática regular de exercícios físicos e apoio psicológico, quando necessário”, diz o infectologista Gustavo Magalhães. “Por isso, o atendimento multiprofissional é fundamental. Não basta ter médicos: o paciente necessita da ajuda do nutricionista, do fisioterapeuta, do psicólogo, da assistente social, do farmacêutico
e da enfermagem. É o trabalho em equipe que irá proporcionar o melhor resultado”, afirma o infectologista.
Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, reforça que pacientes com longo tempo de tratamento merecem uma atenção especial e aconselha os profissionais que os assistem a ficar atentos quando é necessário fazer trocas no esquema anti-retroviral. “Muitas vezes, acreditase que, por já ter tomado outros remédios, este usuário não terá dificuldade de adesão. No entanto, a cada troca de esquema, mudam-se horários, dosagens e possíveis efeitos adversos, que devem ser acompanhados pela equipe de saúde”, alerta Mariângela Simão. “Também nunca é demais conversar sobre sexualidade e prevenção, já que estas práticas também podem mudar ao longo dos anos”, sugere.

(Saber Viver – 10.10.2008)





ZIMBABWE: Novo governo dá esperança a seropositivos

10 10 2008

HARARE, 9 Outubro 2008 (PlusNews) – Activistas esperam que o novo governo do Zimbábue cumpra suas promessas de melhorar com urgência o acesso a serviços e tratamento do HIV/SIDA em hospitais públicos.

Os três partidos políticos do país – ZANU-PF e as duas facções do partido majoritário, o Movimento para a Mudança Democrática (MDC, em inglês) – assinaram um acordo de partilha do poder em 15 de Setembro, pondo um fim a um dos piores períodos da violência política inter-partidária desde a independência do país em 1980.

Apesar do cepticismo quanto ao fato de que os três partidos possam trabalhar juntos, o acordo trouxe esperança para o cidadão comum, principalmente as pessoas que vivem com o HIV, que têm lutado para sair-se bem num contexto económico e político difícil.

Estima-se que, das 320 mil pessoas que necessitam de tratamento antiretroviral (ARV), apenas 100 mil tenham acesso aos medicamentos nos centros de saúde públicos. Além desta lacuna no tratamento, os hospitais do governo estão a batalhar para fornecer seus serviços apesar da escassez de medicamentos, equipas médicas e capital estrangeiro.

O ministro do bem-estar social do Zimbábue proibiu as actividades de todas as organizações não-governamentais (ONG) durante a preparação do segundo turno das eleições presidenciais, piorando ainda mais a lacuna de serviços do sector público de saúde. Estavam incluídas na proibição cerca de 400 ONGs que fornecem serviços a seropositivos, tais como cuidados domiciliares, cuidados de órfãos e tratamento ARV.

Apesar da proibição ter sido suspendida após protestos dos activistas dos direitos humanos a nível internacional, somente as organizações que dirigem programas de tratamento ARV foram autorizadas a retomar suas actividades. As pessoas que se beneficiavam de outros serviços de apoio, inclusive órfãos e crianças vulneráveis, foram obrigadas a cuidar de si mesmas.

As ONGs afectadas pela proibição esperam agora receber autorização para continuar seu trabalho sem interferências injustificadas e restrições governamentais.

Altas expectativas para o governo

Bernard Nyathi, presidente do Sindicato de Activistas do HIV/Sida do Zimbábue, que é seropositivo, disse que com a nova administração, o parlamento poderia deixar de ser o “carimbo” que foi durante os últimos 28 anos de domínio do ZANU-PF.

''O bem-estar dos zimbabueanos seropositivos tem sido ignorado por muito tempo.''

“Com formatos legais adequados, os membros do parlamento… poderiam ajudar a melhorar as vidas dos seropositivos. Não temos nenhuma dúvida quanto a isto e somos muito optimistas”, disse Nyathi. “O bem-estar dos zimbabueanos seropositivos tem sido ignorado por muito tempo.”

Benjamin Mazhindu, presidente da Rede Nacional de Pessoas vivendo com o HIV/SIDA no Zimbábue, compartilha o optimismo de Nyathi. “Nos anos anteriores, as verbas atribuídas a ministérios importantes como o da saúde e o do bem-estar social foram insuficientes, enquanto outros como o da defesa foram considerados como prioritários”, disse ele.

“Num governo multipartidário, a decisão da alocação de verbas não será a decisão de um só partido majoritário, como era antes. Nossa esperança, como pessoas vivendo com o HIV/SIDA, é de que as propostas de orçamento serão de agora em diante debatidas no parlamento.”

Mazhindu acrescentou que assim que o novo gabinete for empossado, o ZNNP+ mobilizaria seus membros para começar a fazer pressão para uma acção urgente para o acesso ao tratamento, e para o aumento da verba atribuída ao sector da saúde.

Um outro desafio para o novo governo será melhorar as relações com os doadores, para garantir mais fundos estrangeiros destinados à resposta ao HIV/SIDA. Devido à crise política, muitos doadores acabaram por deixar o Zimbábue de lado, provocando um grande déficit para os programas HIV/SIDA.

Mas levará tempo para que o novo governo faça mudanças importantes, e nesse meio tempo, as vidas do 1,7 milhão de pessoas vivendo com o HIV/SIDA no Zimbábue, continuará a ser uma luta.

Com a taxa de inflação a 11,2 milhões por cento, os seropositivos que recebem tratamento estão a ter cada vez mais dificuldade para conseguir comprar comida, essencial para o sucesso do tratamento. Aqueles ainda na lista de espera para começar o tratamento, ter uma alimentação correcta também é essencial para retardar a progressão da doença.

(PlusNews – 10.10.2008)