ÁFRICA DO SUL: Esperança num contentor-clínica

3 09 2008

RUSTENBERG, 2 Setembro 2008 (PlusNews) – Quando Margaret Ndinisa chegou ao Freedom Park, o campo de alojamentos informais nas cercanias da mina Impala Platinum na província sul-africana de North West, o bairro era pouco mais que algumas palhotas regularmente desmanteladas pela polícia.

“Nessa altura, nossa, era tão perigoso. Nós dormíamos fora e quando chovia dormíamos debaixo de plásticos,” recordou ela. “Não havia emprego; eu vendia refrigerantes e bebidas alcoólicas para as pessoas nas minas.”

Vinte e cinco anos depois, cerca de 25 mil pessoas afluíram a este bairro informal de zonas pobres de toda a África do Sul e de países vizinhos, na esperança de partilhar a riqueza da platina da área, mas pouca coisa mudou.

Palhotas como aquela em que Ndinisa e sua família vivem, feita de metal velho e pintado em cores brilhantes, parecem alegres sob o céu azul, mas viver lá é longe de ser fácil: o governo local ainda considera o bairro ilegal, portanto não há electricidade, sistema de esgoto, ruas ou mesmo água.

Alguns homens arranjam emprego nas minas, mas as oportunidades para as mulheres são quase inexistentes. Para muitas, a sobrevivência depende de encontrar um homem, ou vários homens, para lhes satisfazer as necessidades básicas em troca de sexo.

“Elas vêm aqui a pensar que vão conseguir emprego, mas não há emprego,”, disse Thembi Maboyana, que seguiu o seu irmão, um mineiro de Vosloorus, um bairro de Johannesburg, para Freedom Park em 1990. “Se elas não têm dinheiro para [comprar algo para] vender, elas arrumam quatro ou cinco namorados para arranjar dinheiro para comprar água, combustível e roupas.”

Segundo Maboyana, muitos homens têm mulheres nas suas aldeias de origem, “então quando ficas doente, eles simplesmente te abandonam e te deixam na palhota”.

Em meados dos anos 90, os residentes de Freedom Park começaram a adoecer e a morrer de doenças relacionadas à SIDA. A Impala e outras minas na zona começaram a implementar políticas e programas de HIV/SIDA para os seus trabalhadores, mas muita gente a viver em Freedom Park e outros bairros informais na área não tinham acesso a eles.

“Havia muita gente a sofrer neste lugar; não havia dinheiro para ir ao hospital e, se chovesse, nenhum carro podia entrar para socorrê-los, então as pessoas morriam dentro das suas casas”, disse Ndinisa.

A primeira clínica de Freedom Park, construída em 1998 por Kevin Dowling, o bispo católico de Rustenburg, confirmou a escala do problema de HIV e a falta de resposta. A organização de HIV/SIDA de Dowling, Tapologo (que significa “paz e sossego” na língua Setswana), recrutou mulheres locais como Ndinisa e Maboyana para proporcionar cuidados domiciliares, mas a sua tarefa era difícil.

“O estigma e a discriminação eram terríveis. Os activistas estavam em perigo, e mulheres eram espancadas a caminho da clínica; uma vez tivemos que fechar por seis meses porque havia vidas em perigo”, lembrou Dowling. “Mas aquela equipa de cuidados domiciliares, elas continuaram firmes, e agora é muito diferente.”

''O estigma e a discriminação eram terríveis. Os activistas estavam em perigo, e mulheres eram espancadas a caminho da clínica; uma vez, tivemos que fechar por seis meses porque havia vidas em perigo.''

O contentor onde foi construída a primeira clínica expandiu para uma série de contentores, onde membros de um grupo de apoio começam o dia com hinos em voz alta enquanto enfermeiras cruzam de um lado para o outro e os pacientes se juntam em bancos do lado de fora.

Programa comunitário acessível

Desde 2004 Tapologo também tem fornecido tratamento antiretroviral (ARV) através de uma doação do Fundo do Presidente dos Estados Unidos para Auxílio da SIDA (PEPFAR, em inglês). Cerca de 1.090 pessoas estão agora a receber os medicamentos em oito clínicas, incluindo a de Freedom Park.

“Existe apenas um lugar [do governo] em toda a área – o Hospital Rustenberg – que fornece ARVs e os extremamente pobres não têm dinheiro para ir até lá”, disse Dowling. “Assim, um programa comunitário como o nosso – que se encontra nos bairros informais para que as pessoas tenham acesso a ele – é a nossa ideia.”

Os funcionários das minas que precisam de tratamento podem acessá-lo através das facilidades médicas da mina, mas os trabalhadores em contratos temporários, que representam uma parte significativa da força de trabalho, são geralmente excluídos.

Tapologo é uma salvação para pessoas como Phatheka Goenze, um trabalhador de contrato temporário seropositivo que veio do Lesoto. “Se és um contratado, não te prestam qualquer ajuda na mina,”, disse. “Eu conhecia esta clínica [Tapologo] porque toda a gente que vem aqui está viva.”

Impala Platinum tem apoiado a maior parte do trabalho da Tapologo em Freedom Park, fornecendo contentores, equipamento de testes de HIV e medicamentos para tratar infecções oportunistas.

”Eles concentraram-se nos mineiros e fortaleceram a Tapologo financeiramente para ajudar as comunidades”, disse Dowling. “Tem sido uma parceria muito sustentável.”

Prevenção a fracassar

Apesar de a Tapologo ter transformado a resposta ao HIV/SIDA em Freedom Park e em alguns outros bairros informais, a organização teve menos sucesso em mudar as condições sócio-económicas que aceleram as taxas de infecção na área.

Cerca de 52 por cento de mulheres grávidas que se dirigem à clínica Tapologo testam positivo para o HIV, comparado à média provincial de 29 por cento, segundo uma sondagem pré-natal de 2006.

Activistas incorporam educação sobre prevenção do HIV no seu trabalho, mas Dowling disse que muitas mulheres não estavam em condições de aplicar o que aprenderam na sua relação com os homens que as apóiam.

''Não há maneira de salvar as mulheres da morte certa nesta área a menos que elas sejam economicamente fortalecidas.''

“Não há maneira de salvar as mulheres de morte certa nesta área a menos que elas sejam economicamente fortalecidas”, disse. Um programa de desenvolvimento de habilidades teve sucesso limitado, com poucas oportunidades para vender os artigos que as mulheres produzem.

Negação e falta de informação sobre o HIV/SIDA ainda são comuns entre os homens. “Eles ainda se recusam a usar preservativos”, disse Maboyana.

Johannes Tsinyene, que veio do Lesoto há 15 anos para trabalhar na Impala, tinha ouvido falar de HIV mas não acreditava que fosse uma doença real até que ele caiu doente e foi diagnosticado positivo. “Simplesmente dormia com mulheres sem preservativo, e essa é a razão por que contraí esta doença,” disse ele.

A namorada de Tsinyene, com quem partilha a palhota onde moram em Freedom Park, testou negativa para o vírus, mas terá que ser testada novamente depois do período janela de três meses, durante o qual uma nova infecção pelo HIV pode não ser detectada.

A esposa dele, que ficou no Lesoto com os seus quatro filhos, morreu há algumas semanas. “Alguma coisa estava errada com o coração dela,” disse ele.

(PlusNews – 02.09.2008)


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