OMS exorta Estados africanos a melhorar saúde de mulheres

3 09 2008

Yaoundé, Camarões (PANA) - O director regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para África, o Angolano Luís Sambo, instou terça-feira os Governos africanos a melhorar a saúde das mulheres nos seus países, sublinhando que elas constituem “um ponto chave” na cadeia de desenvolvimento em virtude dos seus múltiplos papéis.

Num relatório apresentado por ocasião da 58ª sessão do Comité Regional da OMS para África que decorre em Yaoundé, nos Camarões, Sambo propôs um plano de acção que os países deverão instaurar com vista a melhorar o bem-estar geral das mulheres para reforçar a sua contribuição aos esforços de desenvolvimento na região.

O plano de acção consiste na integração da condição da mulher nas políticas e programas nacionais para melhor evidenciar a importância da mulher, o desenvolvimento e a realização de programas sobre a informação e a educação adaptados aos adolescentes, a melhoria dos serviços clínicos para as mulheres e o reforço das intervenções essenciais ligadas à saúde da mulher.

As outras medidas preconizadas abrangem o reforço das capacidades das mulheres, famílias e comunidades com vista a dar meios económicos às mulheres e formar uma equipa nacional multidisciplinar de peritos da saúde, a questão do género e dos direitos humanos para levar a cabo pesquisas sobre as questões específicas da saúde da mulher como as mutilações genitais e outras práticas tradicionais nocivas.

Sambo propôs igualmente a mobilização de recursos essenciais para a aplicação efectiva das intervenções essenciais na formulação dum plano de comunicação integrado para aumentar a compreensão da importância do papel da mulher com vista a promover uma mudança de comportamento a respeito das questões ligadas à saúde da mulher.

“Uma grande maioria das mulheres africanas ainda não conhece os seus direitos à saúde, à educação e à vida”, deplorou Sambo no relatório.

Chamou atenção que várias delas continuam a ser vítimas de discriminações socioculturais de práticas prejudiciais, de actos de violência ligados ao sexo, de tabus alimentares, de casamentos forçados e precoces, de gravidezes não desejadas e excessivas.

“Estes problemas, associados à fraqueza dos sistemas de saúde estão na origem da elevada taxa de mortalidade na África Subsariana, onde uma em 26 mulheres corre o risco de morrer durante o parto”, indicou o director regional da OMS para África.

As estimativas actuais da OMS mostram que a elevada taxa de mortalidade em África constitui um dos problemas de saúde mais trágicos da região.

Dos 14 países do mundo onde a mortalidade materna é superior a mil por 100 nados vivos, 13 encontram-se na África Subsariana.

A redução da mortalidade materna de 75 por cento entre 1990 e 2015 é um das metas dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.

No entanto, um recente estudo da OMS, do Fundo das Nações para População (FNUAP), do Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF) e do Banco Mundial revela que em 2005 a mortalidade materna apenas foi reduzida a 0,1 por cento na região.

A situação foi imputada a algumas pressões do sistema da saúde, nomeadamente o facto de 57 por cento das mulheres nos países da região cerecerem de acesso à assistência de pessoal qualificado durante o parto.

(Panapress – 03.09.2008)





LIVRO EXPLICA A AIDS, MOSTRA COMO A DOENÇA SE PROPAGOU E DISCUTE TRATAMENTOS; LEIA CAPÍTULO

3 09 2008

O livro “A Aids”, volume da coleção “Folha Explica”, da Publifolha, permite entender o que é a doença e como se propagou. Redigido em linguagem clara e acessível, a obra também descreve os meios mais atualizados de prevenção e tratamento e comenta ainda o impacto cultural da Aids.

O autor, Marcelo Soares, é doutor em genética pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pela Universidade do Alabama (EUA), com tese sobre Aids, além de ter atuado no Instituto Pasteur, em Paris.

Como o nome indica, a série “Folha Explica” ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.

Confira a introdução do “Folha Explica A Aids”:

A história registra inúmeros eventos catastróficos, pontuando a ocupação humana da Terra. Mais recentemente, a mídia moderna tem contribuído para expandir os limites do tolerável e dar continuidade dramática a esses relatos sombrios. Dentre certos religiosos fervorosos, há quem diga que as catástrofes foram ou são castigos de ordem divina, em decorrência da indignidade humana. Eventos de ordem médica abrangem a peste negra, que assolou a Europa na Idade Média, a gripe espanhola do começo do século 20 e o câncer dos dias atuais. Esse último, em especial, foi até há pouco tempo tachado como “o mal do século”, e vem sendo alvo de imensa atividade médica e científica, em busca de uma cura definitiva.

Nenhuma dessas doenças, entretanto, teve conseqüências tão devastadoras, em nível social, econômico e político, e num tempo tão relativamente curto, como a Aids, também conhecida como Sida ou “síndrome da imunodeficiência adquirida” (o termo Aids vem do inglês acquired immunodeficiency syndrome). Em pouco menos de 20 anos, a Aids já foi responsável por cerca de 19 milhões de óbitos no mundo inteiro. Somam-se a esses os quase 34 milhões de portadores vivos de Aids no planeta. Acredita-se que grande parte desses indivíduos não sobreviverá, pois vive em países que são estrutural e economicamente incapazes de prover tratamento.

Supondo-se que a Aids fosse controlada hoje (o que é obviamente uma impossibilidade) e somente esses dois números juntos totalizassem o seu número de mortes, ela seria responsável por mais de 53 milhões de óbitos. Esse número ultrapassa qualquer calamidade pública já vivida pelo homem, seja ela de caráter natural, médico ou social. A peste negra, por exemplo, matou de 22 a 45 milhões de pessoas na Europa. Mesmo a gripe espanhola, talvez a mais grave epidemia conhecida até então, matou cerca de 21 milhões de pessoas entre 1918 e 1919.

É importante ressaltar também que tais números são agravados pela contemporaneidade da Aids e pelo seu modo de transmissão, ou sua patologia. A Aids ocorre no nosso tempo atual, em que dispomos de tecnologia e conhecimentos não disponíveis, por exemplo, na Idade Média ou no começo do século 20, quando a peste negra e a gripe espanhola nos assolaram. Possivelmente, com as nossas atuais ‘armas’, seríamos capazes de frear em grande escala essas outras doenças. Além disso, a Aids não é uma doença transmitida pelo ar ou por contato físico simples (como veremos mais adiante), assim como também leva um tempo consideravelmente longo para se manifestar e matar. Não fosse esse o caso, possivelmente já teríamos nos extinguido da face da Terra, visto que virtualmente todos os países e grande centros urbanos do mundo já relataram casos de Aids.

Este livro tem como objetivo informar de modo relativamente simples o leitor sobre a Aids e tirar suas dúvidas mais comuns com relação a essa doença e seu impacto no mundo atual.

No primeiro capítulo, discutiremos o que é a doença, quais as suas características mais importantes, como identificá-la e quais as suas manifestações clínicas mais e menos comuns, assim como o mecanismo pelo qual ela se desenvolve no organismo humano. Veremos também como a Aids foi descoberta quase simultaneamente na França e nos Estados Unidos.

No capítulo 2, veremos como a Aids surgiu na população humana. Conheceremos alguns dos vírus ‘primos’ do HIV, que infectam macacos e mesmo outros animais menos aparentados com o homem, como gatos e cabras. Analisaremos como o vírus foi (e possivelmente ainda é) transmitido ao homem.

No capítulo seguinte, iremos examinar a epidemiologia da Aids no Brasil e no mundo. Teremos uma noção do quadro atual de infecções e do espalhamento da doença nas principais áreas do globo, assim como o impacto crítico da Aids em alguns países. Examinaremos como em determinadas partes do Terceiro Mundo, a Aids já causou e continuará causando profundas desestruturações em suas economias internas, em suas sociedades e até mesmo em suas expectativas de vida e pirâmides etárias.

No quarto capítulo, estudaremos os modos de transmissão da Aids entre indivíduos na população humana. Analisaremos um pouco dos chamados ‘comportamentos de risco’ e seu papel na transmissão do vírus em nível horizontal (entre dois indivíduos). Analisaremos também o modo de transmissão vertical, ou seja, da mãe para o filho.

No capítulo 5, abordaremos os aspectos do tratamento da Aids. As drogas mais potentes atuais e seu modo de ação, seus efeitos colaterais e suas escolhas dentre as (poucas) opções disponíveis serão revistas. Nesse capítulo também exploraremos as pesquisas no desenvolvimento de uma vacina.

Finalmente, no sexto e último capítulo, analisaremos de forma breve a influência da Aids na cultura humana, através de suas manifestações no teatro, na televisão e na literatura.

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Autor: Marcelo Soares
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 17,90

Fonte: Folha Online

(Agencia de Notícias da AIDS – 03.09.2008)





UGANDA: Partos feitos em casa dificultam o programa de corte vertical

3 09 2008

KAMPALA, 3 Setembro 2008 (PlusNews) – O número de crianças em Uganda a serem infectadas por HIV durante a gestação, nascimento e amamentação continua alto, apesar do contínuo desenvolvimento de serviços pelo governo para prevenção da transmissão vertical.

A provisão de medicamentos antiretrovirais (ARV) a gestantes seropositivas pode reduzir a transmissão do vírus para menos de dois por cento, mas mesmo assim, 20 mil crianças em Uganda são infectadas por HIV anualmente, o que representa 42 por cento de todas as novas infecções no país, segundo dados do governo.

“A necessidade crescente e não atendida de serviços pediátricos de HIV/SIDA demonstra a falha dos nossos programas de corte vertical em prevenir a transmissão de HIV de mãe para filho”, afirmou Keith McKenzie, representante nacional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

Das 100 mil pessoas em tratamento ARV em Uganda actualmente, apenas 10 mil são crianças, observa o Ministério da Saúde. Acredita-se que mais 40 mil crianças precisem dos medicamentos, mas apenas pouco mais da metade dos 310 postos de distribuição de ARV de Uganda fornecem tratamento pediátrico.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que todas as crianças seropositivas abaixo de um ano de idade devem ser submetidas a tratamento, mas Uganda teria que começar a tratar com ARV ao menos 20 mil crianças por ano para alcançar essa meta.

“Se prevenirmos a infecção por HIV em crianças não teremos que cuidar delas quando estiverem infectadas”, disse Phillipa Musoke, presidente do comitê pediátrico do departamento de saúde.

Programas de corte vertical foram experimentados pela primeira vez em 2000 na capital, Kampala, e nos distritos Arua e Gulu da região norte, mas agora os serviços estão disponíveis na maioria dos centros de saúde locais e distritais em 76 dos 83 distritos do país.

Até mesmo no norte de Uganda, onde conflitos afetaram severamente os serviços de saúde, cerca de 70 por cento das mulheres têm acesso aos serviços de corte vertical. O Ministério da Saúde pretende expandir os serviços para todos os centros de saúde nacionais até 2010.

''Nós nascemos numa geração livre da SIDA. Temos a obrigação moral de assegurar que nossos filhos e netos nasçam, e permaneçam, livres dela.''

Embora a maioria das gestantes seropositivas agora tenha acesso a serviços de corte vertical, entre 60 e 70 por cento das mulheres grávidas ainda têm os bebés em casa, tornando impossível a administração de ARV que possa prevenir a transmissão de mãe para filho recém-nascido.

Dennis Tindyebwa, director técnico da Fundação Pediátrica Elizabeth Glaser, observou que 98 por cento das mulheres grávidas em Uganda concordaram em fazer o teste de HIV e receber aconselhamento, mas apenas 67 por cento retornaram para ver o resultado; daquelas diagnosticadas positivas, pouquíssimas foram a facilidades médicas para ter seus bebés.

“Para algumas mulheres o problema é a distância até o centro de saúde, ou a qualidade precária dos serviços e funcionários, assim como a falta de infra-estrutura”, disse ele. “Mas também há pouco envolvimento dos homens no corte vertical, já que os homens negam às suas mulheres a oportunidade de participar do programa.”

Estudos mostraram também que o conhecimento da disponibilidade de serviços e opções correctas de alimentação para crianças após o nascimento ainda era baixo. “Muitas mulheres não sabiam que dar comida ou bebidas a bebés sendo amamentados por uma mãe seropositiva não era permitido”, afirmou Deogratius Mugisa no Ministério da Saúde em Kayunga, distrito central de Uganda.

“Crenças culturais, estigma social, ignorância e status económico influenciaram as atitudes da mãe e a preferência por alternativas diferentes [de alimentação]”.

A seroprevalência em Uganda caiu de mais de 20 por cento nos anos 1990 para cerca de seis por cento em 2000, mas tem crescido um pouco recentemente. David Apuuli Kihumuro, presidente da Comissão para a SIDA em Uganda, observou que controlar os níveis de infecção entre os adultos significaria menos infecções pediátricas.

“Se as mães não forem infectadas, as crianças também não serão”, disse ele. “Estou convencido de que nós podemos reduzir as novas infecções neste país; a vontade política precisa ser reenergizada.”

“Nós nascemos numa geração livre da SIDA”, acrescentou. “Temos a obrigação moral de assegurar que nossos filhos e netos nasçam, e permaneçam, livres do HIV/SIDA.”

(PlusNews – 03.09.2008)





ÁFRICA: PlusNews Português lança pesquisas de opinião

3 09 2008

OHANNESBURG, 2 Setembro 2008 (PlusNews) – Vinte e cinco anos após o início da epidemia do HIV, ninguém tem dúvidas sobre a importância de prevenção e tratamento. Mas outras questões que permeiam a SIDA ainda dividem a opinião pública. Qual seria a sua resposta para perguntas como:

“Você namoraria uma pessoa seropositiva?”

“Você acha que casais seropositivos devem ter filhos?”

“Você acha que a SIDA deve ter um orçamento especial e separado de outras doenças?”

Para saber o que os leitores pensam de tais assuntos e transformar a página do PlusNews Português também num espaço de discussão, adicionamos aos nossos recursos as pesquisas de opinião.

As pesquisas abordarão questões controversas sobre o HIV/SIDA ou que estejam em discussão no momento. A idéia é colocar os dilemas sobre a mesa e saber onde o público se encontra em determinados temas.

As pesquisas ficarão no ar por duas semanas e os resultados serão divulgados no próprio site.

Se quiser participar da primeira enquete, acesse: http://www.plusnews.org/pt ou clique em Pesquisa, no canto superior direito da página.

(PlusNews – 02.09.2008)





As mil faces do HIV

3 09 2008

írus da AIDS nasceu na África. Estudos genéticos conduzidos nos últimos vinte anos demonstraram que as origens do HIV-1, causador da maioria esmagadora dos casos mundiais de AIDS, remntam a ancestrais que infectavam primatas não-humanos.

O progenitor do HIV-1 deve ter sido o SIVcpz, vírus que infectou diversas populações de chimpanzés em comunidades isoladas, no sul de Camarões. Provavelmente, o SIVcpz foi transmitido, por meio do sangue desses chimpanzés, para caçadores que com eles entraram em contato.

Análises filogenéticas do HIV-1 sugerem que três eventos genéticos independentes, ocorridos no início do século XX, deram origem aos três grupos de HIV-1 já descritos: M, N e O.
É provável que os primeiros seres humanos tenham sido infectados ao longo do rio Congo, a caminho de Kinshasa, no Congo. Nessa região, foi documentada a presença do HIV numa amostra de sangue colhida e congelada em 1959. É o caso mais antigo que se conhece. As estratégias de sobrevivência mais surpreendentes do HIV são a capacidade de multiplicação rápida e a de sofrer mutações. À custa delas, o vírus enfrenta as adversidades do meio externo, e faz de tudo para escapar das investidas do sistema imunológico do hospedeiro e dos medicamentos usados para eliminá-lo.

O HIV se multiplica em velocidade alucinante. No organismo infectado, em condições habituais, são produzidos 10 bilhões de novos vírions (partículas de vírus) em um único dia. Nesse processo surgem milhões de variantes geneticamente distintas das que lhes deram origem.

Quando uma mesma pessoa é infectada por duas dessas variantes ao mesmo tempo, pode ocorrer a recombinação, um processo segundo o qual os genes das duas variantes se juntam e se separam em combinações de alta complexidade.

Só para dar idéia da biodiversidade resultante dessa versatilidade, tomemos o grupo M, responsável pela maioria das infecções mundiais por HIV. É tamanho o distanciamento genético entre as diversas cepas que fazem parte do grupo M, que os virologistas costumam dividi-las em subtipos designados com letras e números: A1, A2, A3, A4, B, C, D, F1, F2, G, H, J e K.

Dentro do mesmo subtipo as disparidades genéticas atingem 15% a 20%. De um subtipo para outro, 25% a 35%. Se lembrarmos que menos de 3% de nossos genes nos distinguem dos chimpanzés, e que 30% nos diferenciam dos camundongos, podemos avaliar o que representam esses números.

Cada subtipo vai interagir de forma singular com seu hospedeiro. Da facilidade para invadir as mucosas, à penetração no núcleo das células e à emergência de novos vírions pela membrana da célula infectada, todas as fases do ciclo biológico do HIV serão afetadas pelas características genéticas de cada subtipo.
Um estudo realizado com mulheres quenianas grávidas mostrou que é mais fácil detectar a presença do HIV na vagina das portadoras do subtipo C, do que naquelas infectadas pelos subtipos A ou D, sugerindo que a transmissão sexual do vírus C seja mais freqüente. Embora haja resultados discordantes, é provável que diferentes subtipos possam acelerar ou retardar a progressão para AIDS. Em Uganda, o acompanhamento de 1.045 pacientes revelou que a doença evoluía mais rapidamente para as fases finais nos portadores do subtipo D, do que no A.

A sensibilidade de cada subtipo à ação das drogas antivirais tem provocado debates. A maioria dos estudos, no entanto, mostra que não existem desigualdades significantes.

As diferenças que parecem existir devem-se aos padrões de resistência do vírus às drogas mais empregadas.

As mutações que conduzem à resistência são semelhantes nos diversos subtipos, mas determinadas mutações são mais encontradas em subtipos não-B.

O grau de variabilidade genética do HIV é o maior de todos os desafios para chegarmos a uma vacina de eficácia internacional, que seja capaz de induzir imunidade duradoura contra todos os subtipos, apesar da incrível variabilidade genética existente entre eles.

(ABIA/Drauzio Varella/Carta Capital – 01.09.2008)





Fiocruz testa composto de algas contra HIV

3 09 2008

Três substâncias obtidas a partir de algas marinhas comestíveis estão em estudo pré-clínico e podem se tornar ANTI-RETROVIRAIS de baixa toxicidade, capazes de inibir as três etapas de replicação do vírus HIV: a transcriptase reversa, a protease e a morfologia viral. As substâncias também poderão ser utilizadas para prevenir a contaminação da doença, com a aplicação de uma pomada especial microbicida nos genitais antes da relação sexual.

A pesquisa, iniciada em 1996 e elaborada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em conjunto com a Fundação Ataulpho de Paiva (FAP) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), analisou 22 compostos naturais encontrados na costa brasileira. A partir das substâncias selecionadas, a equipe planeja desenvolver medicamentos, via oral ou injetável, com baixos efeitos colaterais, para portadores de AIDS resistentes aos ANTI-RETROVIRAIS existentes no mercado – há 17 tipos atualmente.

Os resultados preliminares do estudo, divulgados ontem no Rio de Janeiro, mostraram que em testes in vitro, as substâncias foram capazes de inibir a replicação do HIV em macrófagos e linfócitos, células envolvidas na resposta imunológica do organismo humano diante à infecção pelo vírus. Já nos testes feitos em camundongos, foi comprovado o baixo nível tóxico das substâncias pesquisadas.

“Este é o grande diferencial, uma vez que os medicamentos disponíveis hoje são eficazes, mas têm efeitos colaterais severos”, explica o imunologista e responsável pela pesquisa, Luiz Roberto Castello Branco.

Cerca de 33 milhões de pessoas no mundo sofrem de AIDS. No ano passado, 2,5 milhões foram infectadas no Brasil – a maioria das novas infecções ocorrem através de relações extra-conjugais, geralmente cometidas por maridos que não usam preservativos e não concordam que as mulheres também usem a proteção.

Assim, apostam os especialistas, o microbicida brasileiro será uma maneira das mulheres se prevenirem. Na forma de pomada ou gel incolor, elas poderão aplicar o remédio na vagina antes das relações sexuais. O efeito terá duração de 12 horas. “Mas a pomada deverá ser usada juntamente com o preservativos“, alerta Valéria Laneuville.

A estimativa é de que as substâncias entrem na fase de teste clínico em 2010, e cheguem ao mercado em 2015. No caso de uma delas ser aprovada, já representaria uma economia de R$ 50 a 100 milhões ao ano para o País, que gasta, durante um mesmo período, mais de R$ 1 bilhão com royalties e compras de medicamentos no exterior, segundo Castello Branco.

(ABIA/Cecilia MInner/Gazeta Mercantil – 01.09.2008)





ÁFRICA DO SUL: Esperança num contentor-clínica

3 09 2008

RUSTENBERG, 2 Setembro 2008 (PlusNews) – Quando Margaret Ndinisa chegou ao Freedom Park, o campo de alojamentos informais nas cercanias da mina Impala Platinum na província sul-africana de North West, o bairro era pouco mais que algumas palhotas regularmente desmanteladas pela polícia.

“Nessa altura, nossa, era tão perigoso. Nós dormíamos fora e quando chovia dormíamos debaixo de plásticos,” recordou ela. “Não havia emprego; eu vendia refrigerantes e bebidas alcoólicas para as pessoas nas minas.”

Vinte e cinco anos depois, cerca de 25 mil pessoas afluíram a este bairro informal de zonas pobres de toda a África do Sul e de países vizinhos, na esperança de partilhar a riqueza da platina da área, mas pouca coisa mudou.

Palhotas como aquela em que Ndinisa e sua família vivem, feita de metal velho e pintado em cores brilhantes, parecem alegres sob o céu azul, mas viver lá é longe de ser fácil: o governo local ainda considera o bairro ilegal, portanto não há electricidade, sistema de esgoto, ruas ou mesmo água.

Alguns homens arranjam emprego nas minas, mas as oportunidades para as mulheres são quase inexistentes. Para muitas, a sobrevivência depende de encontrar um homem, ou vários homens, para lhes satisfazer as necessidades básicas em troca de sexo.

“Elas vêm aqui a pensar que vão conseguir emprego, mas não há emprego,”, disse Thembi Maboyana, que seguiu o seu irmão, um mineiro de Vosloorus, um bairro de Johannesburg, para Freedom Park em 1990. “Se elas não têm dinheiro para [comprar algo para] vender, elas arrumam quatro ou cinco namorados para arranjar dinheiro para comprar água, combustível e roupas.”

Segundo Maboyana, muitos homens têm mulheres nas suas aldeias de origem, “então quando ficas doente, eles simplesmente te abandonam e te deixam na palhota”.

Em meados dos anos 90, os residentes de Freedom Park começaram a adoecer e a morrer de doenças relacionadas à SIDA. A Impala e outras minas na zona começaram a implementar políticas e programas de HIV/SIDA para os seus trabalhadores, mas muita gente a viver em Freedom Park e outros bairros informais na área não tinham acesso a eles.

“Havia muita gente a sofrer neste lugar; não havia dinheiro para ir ao hospital e, se chovesse, nenhum carro podia entrar para socorrê-los, então as pessoas morriam dentro das suas casas”, disse Ndinisa.

A primeira clínica de Freedom Park, construída em 1998 por Kevin Dowling, o bispo católico de Rustenburg, confirmou a escala do problema de HIV e a falta de resposta. A organização de HIV/SIDA de Dowling, Tapologo (que significa “paz e sossego” na língua Setswana), recrutou mulheres locais como Ndinisa e Maboyana para proporcionar cuidados domiciliares, mas a sua tarefa era difícil.

“O estigma e a discriminação eram terríveis. Os activistas estavam em perigo, e mulheres eram espancadas a caminho da clínica; uma vez tivemos que fechar por seis meses porque havia vidas em perigo”, lembrou Dowling. “Mas aquela equipa de cuidados domiciliares, elas continuaram firmes, e agora é muito diferente.”

''O estigma e a discriminação eram terríveis. Os activistas estavam em perigo, e mulheres eram espancadas a caminho da clínica; uma vez, tivemos que fechar por seis meses porque havia vidas em perigo.''

O contentor onde foi construída a primeira clínica expandiu para uma série de contentores, onde membros de um grupo de apoio começam o dia com hinos em voz alta enquanto enfermeiras cruzam de um lado para o outro e os pacientes se juntam em bancos do lado de fora.

Programa comunitário acessível

Desde 2004 Tapologo também tem fornecido tratamento antiretroviral (ARV) através de uma doação do Fundo do Presidente dos Estados Unidos para Auxílio da SIDA (PEPFAR, em inglês). Cerca de 1.090 pessoas estão agora a receber os medicamentos em oito clínicas, incluindo a de Freedom Park.

“Existe apenas um lugar [do governo] em toda a área – o Hospital Rustenberg – que fornece ARVs e os extremamente pobres não têm dinheiro para ir até lá”, disse Dowling. “Assim, um programa comunitário como o nosso – que se encontra nos bairros informais para que as pessoas tenham acesso a ele – é a nossa ideia.”

Os funcionários das minas que precisam de tratamento podem acessá-lo através das facilidades médicas da mina, mas os trabalhadores em contratos temporários, que representam uma parte significativa da força de trabalho, são geralmente excluídos.

Tapologo é uma salvação para pessoas como Phatheka Goenze, um trabalhador de contrato temporário seropositivo que veio do Lesoto. “Se és um contratado, não te prestam qualquer ajuda na mina,”, disse. “Eu conhecia esta clínica [Tapologo] porque toda a gente que vem aqui está viva.”

Impala Platinum tem apoiado a maior parte do trabalho da Tapologo em Freedom Park, fornecendo contentores, equipamento de testes de HIV e medicamentos para tratar infecções oportunistas.

”Eles concentraram-se nos mineiros e fortaleceram a Tapologo financeiramente para ajudar as comunidades”, disse Dowling. “Tem sido uma parceria muito sustentável.”

Prevenção a fracassar

Apesar de a Tapologo ter transformado a resposta ao HIV/SIDA em Freedom Park e em alguns outros bairros informais, a organização teve menos sucesso em mudar as condições sócio-económicas que aceleram as taxas de infecção na área.

Cerca de 52 por cento de mulheres grávidas que se dirigem à clínica Tapologo testam positivo para o HIV, comparado à média provincial de 29 por cento, segundo uma sondagem pré-natal de 2006.

Activistas incorporam educação sobre prevenção do HIV no seu trabalho, mas Dowling disse que muitas mulheres não estavam em condições de aplicar o que aprenderam na sua relação com os homens que as apóiam.

''Não há maneira de salvar as mulheres da morte certa nesta área a menos que elas sejam economicamente fortalecidas.''

“Não há maneira de salvar as mulheres de morte certa nesta área a menos que elas sejam economicamente fortalecidas”, disse. Um programa de desenvolvimento de habilidades teve sucesso limitado, com poucas oportunidades para vender os artigos que as mulheres produzem.

Negação e falta de informação sobre o HIV/SIDA ainda são comuns entre os homens. “Eles ainda se recusam a usar preservativos”, disse Maboyana.

Johannes Tsinyene, que veio do Lesoto há 15 anos para trabalhar na Impala, tinha ouvido falar de HIV mas não acreditava que fosse uma doença real até que ele caiu doente e foi diagnosticado positivo. “Simplesmente dormia com mulheres sem preservativo, e essa é a razão por que contraí esta doença,” disse ele.

A namorada de Tsinyene, com quem partilha a palhota onde moram em Freedom Park, testou negativa para o vírus, mas terá que ser testada novamente depois do período janela de três meses, durante o qual uma nova infecção pelo HIV pode não ser detectada.

A esposa dele, que ficou no Lesoto com os seus quatro filhos, morreu há algumas semanas. “Alguma coisa estava errada com o coração dela,” disse ele.

(PlusNews – 02.09.2008)





MOÇAMBIQUE: Corredor aberto para o HIV

3 09 2008

MOATIZE, 2 Setembro 2008 (PlusNews) – A tarde espreita e um cansado Farai Mbonde, 39 anos, caminha para a clínica nocturna de Moatize, estrategicamente montada à beira da longa estrada, que liga Moçambique a Malawi, Zâmbia e Zimbabwe.

Segundo o médico da clínica, Mbonde, que é camionista de longo curso, tem sífilis.

“Tenho uma DTS [doença de transmissão sexual] e me está a provocar muito cansaço na condução, quando tenho uma longa viagem pela frente”, conta Mbonde.

O camionista acredita ter contraído a sífilis numa relação sexual desprotegida na vila de Moatize, a 20 quilómetros da cidade de Tete, capital da província de mesmo nome.

“Só depois me apercebi que o preservativo tinha arrebentado e que eu tinha tido uma relação sexual desprotegida”, conta Mbonde, que garantiu ter exigido preservativos em todas as relações sexuais ocasionais.

Como Mbonde, uma média de 150 camionistas estacionam diariamente na vila de Moatize à noite, aguardando para atravessar a fronteira do Malawi ou continuar a viagem até o porto da Beira, no oceano Índico.

E como ele, muitos frequentam prostitutas que trabalham na área. Esta paragem atrai profissionais do sexo e está a causar uma proliferação de casas do género, o que preocupa as autoridades devido aos grandes riscos de infecção por HIV.

A compra de sexo também é feita nas portas dos camiões. A partir das 18 horas, as prostitutas começam a circular e a se insinuar para os camionistas estacionados ao longo dos corredores que cortam Moatize.

Erro de estratégia

Moatize é hoje uma das áreas mais afectadas pela SIDA na província de Tete, principalmente devido à sua localização: a vila fica no corredor que liga Zimbábue, Malawi e Zâmbia, países cujas taxas de infecção pelo HIV estão entre as mais altas do mundo.

Com uma população de cerca de 33,5 mil habitantes, Moatize tem uma seroprevalência de 23 por cento, enquanto a média nacional é de 16 por cento entre adultos.

“A grande concentração de camionistas e trabalhadoras de sexo em Moatize, acompanhada de desinformação sobre a SIDA, incentiva a proliferação de DTS e infecção por HIV”, explica Luísa Cumba, directora provincial de Saúde de Tete.

Não se trata de uma preocupação recente. Em Novembro de 2002, o Ministério da Saúde, em parceria com a Universidade Ghent, da Bélgica, abriu a clínica nocturna com serviços de aconselhamento e testagem em Moatize voltados exclusivamente para camionistas e trabalhadoras de sexo.

Porém, a estratégia teve o efeito contrário do desejado. A exclusividade fazia com que muitas profissionais do sexo passassem longe da clínica, por medo de serem reconhecidas.

Naquela época, cerca de 10 pacientes procuravam diariamente os serviços da clínica, que funciona das 16 às 22 horas, de segunda a sexta-feira.

O número duplicou quando os serviços foram expandidos para outros grupos da comunidade, como adolescentes e jovens, em 2006.

''Este corredor é o de maior risco na província toda, porque junta muitos países e as comunidades estão em constante contacto, inclusive contactos sexuais.''

“Tivemos que atender também outras pessoas da comunidade, que a priori não estavam no plano, como forma de atrair mais utentes para a clínica”, diz o enfermeiro Jovinário Magasso.

No primeiro semestre de 2008, perto de 3500 pacientes foram atendidos na clínica – um avanço significativo, comparado aos três mil pacientes que foram atendidos no primeiro ano de funcionamento do serviço.

Corredor comercial e de risco

Segundo Magasso, “este corredor é o de maior risco na província toda, porque junta muitos países e as comunidades estão em constante contacto, inclusive contactos sexuais”.

Por isso, a organização Visão Mundial e a Direcção Provincial de Saúde de Tete estão a efectuar campanhas de prevenção do HIV voltadas a prostitutas e camionistas na região.

A iniciativa transforma as trabalhadoras de sexo em activistas, para oferecer prevenção do HIV aos camionistas e outros transeuntes enquanto exercem a sua actividade.

“Elas sensibilizam os camionistas a usarem preservativos, para que não optem pelo sexo desprotegido”, explica Magasso.

Porém, a campanha se transforma em desafio quando é o bolso que está em jogo: uma relação sexual custa em média 75 meticais (US$ 3) com preservativo e mais que o dobro – 175 meticais (US$ 7) – sem protecção.

Uma profissional do sexo atende uma média de cinco clientes por dia. Se o preservativo não for usado em nenhuma das relações, o facturamento no final do mês seria de cerca de US$ 1 mil, quinze vezes o salário mínimo em Moçambique – uma quantia atraente, mas acompanhada de um risco altíssimo de infecção por HIV.

Além do desejo de um rendimento mensal mais alto, muitas profissionais do sexo têm relações desprotegidas a pedido dos clientes. Porém, a maior conscientização – em parte devido à morte de algumas prostitutas locais de doenças relacionadas à SIDA – já está a surtir efeito.

“Agora já somos muito poucas que aceitamos sexo sem preservativo, apesar de ser mais caro, porque mesmo os camionistas já não aceitam sexo desprotegido”, diz Jacinta M.*, 19 anos, trabalhadora de sexo.

Os preservativos masculinos em Moatize são distribuídos gratuitamente junto à clínica. Nas barracas informais, os preservativos custam entre um e 25 meticais (US$ 0,03 a US$ 1).

Para Mbonde, o camionista com sífilis, o bolso não é justificativa para se optar por sexo sem camisinha.

“Os preservativos não são caros, portanto o sexo desprotegido não tem explicação económica. Os camionistas sabem dos riscos quando optam por ele”, explica Mbonde.

(PlusNews – 02.09.2008)