ADDIS ABABA, 28 Agosto 2008 (PlusNews) – Birkay Gadenah não é bem o que um banco poderia considerar como um bom risco de crédito. Esta mulher de 36 anos, mãe de cinco filhos, mora numa barraca de zinco numa favela de Burayu, a 12 km da capital da Etiópia, Addis Ababa. Mas há oito meses, ela e mais outras nove mulheres da associação funerária da vizinhança, ou “edir”, formaram um grupo de poupança e empréstimos comunitários. “Isto mudou minha vida”, disse ela.
No ano anterior ela ganhava 90 Birr (US$ 9,38) por mês, lavando roupas para três famílias do bairro. “Era um trabalho muito cansativo”, disse.
Com um crédito de 300 Birr (US$ 30) do grupo, ela começou a fabricar colares de contas que ela vende no mercado central de Addis. Hoje ela quadruplicou seus ganhos e embora ainda esteja longe de ter uma vida de classe média, ela disse que conseguirá pagar o empréstimo de volta com juros na data prevista, daqui a três meses. “Eu posso me sentar em casa com meus filhos e descansar um pouco”, disse.
Gadenah tem incentivo a mais pagar de volta o empréstimo. Se ela não o fizer, será expulsa da edir. As associações funerárias têm um papel muito importante na vida etíope, mesmo entre os mais pobres. Se um dos membros da família morre, os membros da edir ajudam a pagar o enterro e vêm confortar os parentes durante o período de luto de três dias.
“Se não fazes parte de uma edir, és discriminado”, disse Almaz Kebede, que também faz parte do grupo de Gadenah. “Ninguém vai te ajudar se tua casa pegar fogo; ninguém vai te enterrar se morreres.”
Projetos de micro-finanças deslancharam nos países em desenvolvimento na última década, uma tendência que se acentuou quando o empreendedor Muhammad Yunus ganhou o prémio Nobel da Paz em 2006 pela criação do banco de micro-finanças Grameen Bank em Bangladesh, seu país natal.
Pequenas cooperativas financeiras têm sido promovidas como um meio de ajudar as comunidades como Burayu, que têm sido duramente atingidas pela epidemia do HIV/Sida. Mas elas não são uma panacéia.
Um estudo recente do Banco Mundial em um distrito do Quénia mostrou que 30 por cento dos beneficiários não haviam pago de volta seus empréstimos. Entretanto, em Burayu, o grupo de auxílio internacional CARE insiste na tática de associar os mecanismos de poupança e empréstimos às associações funerárias, aumentando assim a pressão social para que os beneficiários dos empréstimos os reembolsem.
O esquema em si é simples. Gadenah e nove amigas da vizinhança de Burayu – todas membros da mesma associação funerária – receberam uma formação sobre como elaborar um programa simples de poupança e empréstimos como parte de um projeto financiado pela CARE e pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, em inglês).
Nos últimos oito meses, as mulheres reuniram-se nas sextas-feiras à tarde e cada uma colocou três Birr (US$ 0,29) em uma caixa de metal fechada com cadeado. Economizar mesmo uma quantia tão pequena não tem sido fácil.
“Nós achávamos que seria difícil economizar”, disse Kebede, cujo marido morreu de uma doença desconhecida mais de dez anos atrás. “Nós somos muito pobres, como podemos economizar?”
As mulheres do grupo decidiram então cortar um dos poucos luxos de suas vidas: o café. A Etiópia é conhecida como sendo o berço do café, e até mesmo num bairro pobre como Burayu, as mulheres torram os grãos de café três vezes por dia, como parte de uma cerimônia do café. Ao cortar o café uma vez por dia, cada uma conseguiu economizar o suficiente para a contribuição semanal.
Em alguns meses o grupo tinha economizado o suficiente para oferecer a Gadenah um empréstimo para seu comércio de colares e aumentar o crédito a Kebede para que começasse um comércio de “injera”, pão tradicional etíope feito à base de “teff”, cereal local.
Se uma beneficiária não devolve o empréstimo mais os três por cento de juros, os outros membros podem denunciá-la ao presidente da associação funerária, que pode expulsá-la do grupo. Ela então terá que encarar o ostracismo que representa não fazer parte de uma edir.
“É como quando um país não respeita as regras das Nações Unidas, então fazem um embargo”, explicou Biniyam Habtewold, director de programas da Associação pelo Desenvolvimento Tesfa, uma aliança de associações funerárias.
Por enquanto as mulheres do grupo de Burayu ainda não tiveram que expulsar ninguém, e espera-se que o projeto seja uma salvação para as mulheres em situação precária. Dos 10 membros do grupo de Burayu, que tem todas menos de 50 anos, oito são viúvas.
Muitas delas dizem que seus maridos morreram de doenças desconhecidas – código geralmente usado para falar do HIV/SIDA numa comunidade onde a discriminação contra os seropositivos é generalizada. A seroprevalência na área urbana da Etiópia é de cerca de nove por cento, mas os trabalhadores humanitários acreditam que ela seja mais alta em Burayu por causa de uma estação de ônibus interurbanos que podem proporcionar uma rota de transmissão para outras partes do país.
O marido de Adama Tsehay morreu há sete anos. Desde então ela tem lutado para sustentar a família com um salário de faxineira de 230 Birr (US$ 23,71) por mês. Um empréstimo do grupo ajudou-a a começar um comércio de pães que ela assa de manhã antes de ir ao trabalho.
Embora o aumento dos preços dos alimentos signifique que ela ganha somente o suficiente devolver o empréstimo, seus quatro filhos agora podem comer o café da manhã que ela prepara, uma refeição que ela não podia oferecer-lhes antes da formação do grupo de poupança e empréstimos.
“Eu realmente me beneficiei disto, ajudou-me muito a tornar-me independente”, disse.
(PlusNews – 28.08.2008)

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