ABUJA, 22 Agosto 2008 (PlusNews) – Não há uma cena explícita de gays na Nigéria, mas no bar Ibiza na capital, Abuja, a acção na pista de dança lotada parece um pouco mais exclusivamente homem-a-homem, um pouco mais lasciva do que poderia ser considerada “normal”.
De acordo com Oliver Okem*, um activista da SIDA elegante e estiloso com seus óculos, quando o clima e a música estão em sintonia, ele e seus amigos podem exibir-se no Ibiza, Excelsior ou em algumas outras poucas discotecas que toleram gays em Abuja. Por vezes, no entanto, é aconselhável “ficar sério; indivíduos com cara de durões podem te encarar, a perguntar-se o que há de errado, e a comentar entre si”.
Ser gay na Nigéria não é fácil: sexo homossexual é ilegal, e também existe a punição que faz parte de uma maré crescente de fundamentalismo religioso, além das tradições culturais que geralmente abominam união de indivíduos do mesmo sexo.
Num país – especialmente no sul – onde casamento e filhos são considerados sagrados, há ainda a pressão dos pais que esperam que seus filhos se casem e dêem-lhes netos. Ser gay significa tornar-se invisível e, como resultado da vida oculta, ser muito mais vulnerável ao HIV/SIDA.
Uma pesquisa de vigilância comportamental realizada pelo Ministério da Saúde em 2007 revelou que, depois dos trabalhadores do sexo, homens que praticam sexo com homens (HSH) representam o grupo sob maior risco de infecção pelo HIV, com uma seroprevalência de 13,4 por cento – três vezes a média nacional de 4,4 por cento. Houve uma variação considerável nas três cidades em que a pesquisa foi realizada, e na capital comercial, Lagos, a seroprevalência chegou a 25 por cento.
As circunstâncias da vulnerabilidade dos HSH não são exclusividade da Nigéria. Assim como no resto no mundo, alguns HSH não se consideram gays e estão em relacionamentos heterossexuais, o que torna difícil para campanhas ortodoxas de HIV alcançá-los.
“Um grande estigma é associado ao aspecto moral [da homossexualidade]. Isso leva as pessoas a esconderem-se – a não saírem do armário, o que significa que não podem ter acesso aos serviços [relativos à SIDA]”, afirmou um pesquisador sénior de HIV, que pediu para que seu nome não fosse divulgado por não ter autorização para falar com a imprensa.
Okem afirmou que era um pouco mais complicado. “A vasta maioria dos HSH acredita que não se pode contrair ITSs [infecções sexualmente transmissíveis] com sexo anal. Na Nigéria, nós não falamos sobre sexo anal, e todas as intervenções [relativas à SIDA] são direccionadas para heterossexuais e sexo vaginal. A percepção de que os homossexuais não usam preservativo não significa que nós não queremos, mas que não estamos bem informados.”
A internet, com sites de relacionamento como Facebook, e as discotecas mais discretas fornecem oportunidades suficientes para entrosamento. “Muito poucos relacionamentos são formados, a maioria refere-se a sexo ou aos benefícios”, afirmou Okem.
“A maioria dos homens gays ‘passivos’ [receptores] aceitaram sua sexualidade… alguns ‘activos’ podem ter feito isso uma ou duas vezes e gostado – mas não acham que são gays. Há uma troca financeira, mas, mais comumente, são os activos que recebem dinheiro por sexo.”
Organizando-se
Gays e lésbicas estão começando a se organizar: ao menos 10 grupos foram formados na Nigéria e estão a pressionar por melhor representatividade na resposta à SIDA, o que o governo parece pronto para conceder. Alliance Rights Nigeria, um dos mais antigos, foi estabelecido em 1999 em resposta ao número de mortes pela SIDA entre os HSH, que estavam “a morrer em ignorância”, disse o director executivo do grupo, Ifeanyi Orazulike.
Diferentemente de Okem, que não contou aos seus pais ou recusou-se a casar-se, Orazulike é franco quanto a sua sexualidade e sente que as atitudes começam a mudar. “As pessoas começam a perceber que há gays na Nigéria”, disse ele. “Existe um nível de tolerância.”
No norte muçulmano, houve historicamente uma aceitação cultural dos “Dan Daudu” – homens que vivem como mulheres – apesar da contradição com os ensinamentos islâmicos tradicionais. Mas, mesmo no sul, com sua visão declaradamente machista da vida, Orazulike disse que nunca foi confrontado com agressão homofóbica. Isso pode ser uma prova tanto da sua discrição quanto da incredulidade com que os nigerianos vêem a homossexualidade.
Nós não pretendemos esfregar isso na cara das pessoas, porque isso as forçaria a reagir; apenas viva sua vida”, explicou Orazulike. É provável que essa abordagem guie a resposta da Nigéria à SIDA em relação à comunidade gay e lésbica, e um pouco de tacto pode ser necessário para evitar a atenção da assembléia nacional e alguns dos elementos mais conservadores do governo.
“Não haverá intervenção específica direccionada a esse grupo”, disse o pesquisador, que trabalha para uma grande agência de financiamento. “Será um pacote voltado para os grupos de maior risco, e nós iremos alcançá-los dessa maneira, mas não como grupo populacional fechado”.
(PlusNews – 22.08.2008)

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