SOMÁLIA: Combater a SIDA numa zona de guerra

21 08 2008

NAIRÓBI, 19 Agosto 2008 (PlusNews) – Agências de ajuda humanitária a trabalhar num clima de alta insegurança na Somália têm sido forçadas a encontrar maneiras inovadoras para manter vivos os seus programas de HIV e o seu pessoal, depois dos recentes sequestros de vários trabalhadores estrangeiros e nacionais.

“A situação de segurança deteriorou-se, e há um acesso muito limitado das Nações Unidas e agências parceiras para garantir assistência humanitária,” disse Ulrike Gilbert, um especialista em HIV do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na Somália, a principal beneficiária dos fundos de HIV para a Somália do Fundo Global de Luta contra a SIDA, Malária e Tuberculose.

“Tivemos que construir a capacidade de nossos parceiros locais – ONGs locais que trabalham no campo e vivem nas comunidades em zonas inseguras – porque mesmo o nosso pessoal somali agora não têm acesso a muitas zonas.”

A prevalência de HIV na Somália é baixa – pouco menos de um por cento – mas o conhecimento sobre a pandemia e acesso aos serviços de HIV é também baixo. Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/SIDA (ONUSIDA), somente cinco por cento da população foi testada ao HIV, e somente quatro por cento de jovens mulheres entre 15 e 24 anos possuem conhecimento claro sobre o vírus.

O UNICEF e os seus parceiros lançaram vários programas de HIV, incluindo um programas de educação de pares entre mulheres, encorajando líderes religiosos a discutir a doença mais abertamente, e oferecendo aconselhamento e testagem voluntária e terapia antiretroviral (ARV) em seis locais em todo o país.

“Algumas destas organizações estão a fazer um trabalho formidável, continuando a fornecer consciencialização e outros serviços no meio de tiroteio e insegurança”, disse Gilbert.

Um desses grupos é a Coalition of Grassroots Women’s Organization (COGWO), uma agência que trabalha em cinco zonas do centro-sul da Somália, onde a luta entre forças somalis, apoiadas pela Etiópia, e rebeldes forçou mais de um milhão de pessoas a abandonarem as suas casas, e resultou na morte de cerca de 6.500 civis desde 2007.

“Estamos a gerir o programa de HIV/SIDA de mulher para mulher usando 24 facilitadores unidades para sensibilizar as mulheres sobre o HIV,” disse uma porta-voz da COGWO, que pediu anonimato. “Temos reuniões onde as mulheres falam de assuntos relacionados à SIDA, aconselhamos pessoas vivendo com o HIV, referimos pessoas aos centros de aconselhamento e testagem voluntária (VCT, em inglês) e vamos de casa em casa para educar.”

Voando de baixo do radar

Todas estas actividades envolvem interacção com as pessoas nas suas comunidades. “É perigoso; nós temos que nos manter em muito sigilo para evitar sermos ameaçados pelas milícias,”, disse ela. “Nós não vamos para a linha da frente: a zona onde o Governo Federal de Transição, as tropas etíopes e os rebeldes estão a lutar.”

“Também tomamos cuidado sobre o horário em que desenvolvemos nossas actividades,” disse ela. “ De manhã, antes do khat [um estimulante suave muito usado no Chifre da África] chegar ao mercado, as milícias estão alerta e podem pertubar o nosso pessoal sobre o que estamos a fazer, e se têm autorização para fazê-lo. Mas nas tardes, quando muitos deles já foram para mastigar o khat, podemos movimentar-nos mais livremente.”

Para evitar uma possível perseguição, o pessoal da COGWO não menciona a componente HIV no seu trabalho e simplesmente dizem às milícias que estão a promover encontros para mulheres.

A porta-voz disse que é possível continuar a educar as pessoas, mas que a contínua insegurança pode ser tanto perigosa quanto disruptiva para esta actividade. “Um recente tiroteio em Beletweyne (330 km a norte da capital, Mogadishu), provocou o deslocamento de alguns dos nossos facilitadores e outros educadores, e o seu trabalho teve que parar.”

Levar as pessoas doentes para o hospital é também extremamente difícil. O único lugar no centro-sul da Somália com serviços de VCT e tratamento ARV é Merka, a 100 km a sul de Mogadishu, disse um funcionário da COGWO. “A estrada entre Merka e Mogadishu não é segura”, disse.

(PlusNews – 19.08.2008)



Acções

Informação

Publicar um comentário