Teve início na manhã desta quinta-feira, 31, o Living 2008, conferência de pessoas vivendo com HIV/AIDS que reúne mais de 300 pessoas soropositivas de 88 países de todo o mundo. Na mesa de abertura, Eric Fleutelot, da Sidaction, organização francesa de luta contra o HIV/AIDS, saudou os participantes, lembrando a importância desta conferência que não é realizada desde 2003.
Em seguida, passou a palavra para Anuar Luna, que fez um discurso emocionante. Líder da Rede Mexicana de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS, Luna contou um pouco de sua história pessoal e seu envolvimento com o movimento de pessoas vivendo com HIV/AIDS no México. Contou que um dos momentos mais importantes em sua luta pessoal contra o HIV foi quando, após dar uma entrevista para a CNN, recebeu um telefonema de sua mãe, que lhe disse estar muito orgulhosa por ter um filho como ele. Para Luna, a realização desta conferência é uma “oportunidade única para fortalecer as pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHA) de toda a América Latina”, região onde as PVHA sofrem pelo estigma e pela discriminação, sobretudo entre as populações mais vulneráveis (gays e outros homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas injetáveis, mulheres, jovens, transexuais e nas populações indígenas). Ainda para Luna, o Living 2008 deve ser um divisor de águas nas políticas públicas da região.
Em seguida, a representante da Rede Mundial de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS no Caribe, Deborah Williams, falou em nome dos parceiros que promovem o encontro. O diretor executivo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) e secretário-adjunto da Organização das Nações Unidas (ONU), Peter Piot, começou sua fala lembrando discurso que proferiu em 1995 no Peru. Para Piot, as PVHA ensinaram muito a toda a comunidade científica; também falou na importância dos US$ 48 bilhões, recém-liberados pelo Congresso norte-americano, para o fortalecimento do envolvimento das PVHA na luta contra o HIV/AIDS em todo o mundo. Para Piot, as PVHA têm necessidade de construir uma agenda agressiva, também necessitam avançar na luta pelo acesso universal ao tratamento, ressaltando que a luta pelo acesso universal aos remédios. É apenas um primeiro passo, salientando a importância da sustentabilidade do acesso aos medicamentos anti-retrovirais.
Em seguida, o diretor executivo do UNAIDS citou a questão do estigma e da discriminação que sofrem as PVHA em todo o mundo, citando exemplos no lugar de trabalho na França e na Espanha, apesar dos avanços conquistados nesses países. Piot pediu mais participaçã das PVHA na elaboração de políticas públicas em seus respectivos países. Citou algumas PVHA que trabalharam ou ainda trabalham nos escritórios do UNAIDS pelo mundo, e lembrou o assassinato de Trotsky, ocorrido na cidade do México, para defender a “infiltração” das PVHA nos diversos organismos das Nações Unidas.
Outro ponto abordado pelo diretor do UNAIDS foi sobre a última Conferência Internacional de AIDS, realizada em Toronto, no Canadá, em 2006. Para ele, fez muita falta a fala de novos líderes das mais diversas áreas da luta contra o HIV/AIDS, desde a liderança comunitária até a comunidade científica. Para Piot, a terapia anti-retroviral não é tudo. “Precisamos de novas lideranças e de apoio financeiro para as redes de PVHA.”
Finalmente, o diretor-adjunto da ONU pediu para as PVHA presentes que sejam compartilhadas as experiências e informações apreendidas no Living 2008. “Afinal, as lideranças de PVHA são fundamentais para o UNAIDS”. Minutos depois, em entrevista coletiva para a imprensa, perguntado sobre as tendências de criminalização da transmissão do HIV, Piot ressaltou que “não estamos falando de estupros e de violência sexual, mas temos informações sobre a criminalização vinda de todos os escritórios do UNAIDS no mundo. Temos conversado com advogados soropositivos e soronegativos, advogados que são contra e a favor da criminalização da transmissão do HIV. Mas precisamos estudar mais o assunto. Finalmente, e ainda sobre os recursos aprovados pelo Congresso norte-americano, Piot disse que os paÌses do G8 devem aplicar 7,5% dos seus Produtos Internos Brutos (PIB) para a prevenção e assistência ao HIV/AIDS. “Isso não vem acontecendo. … necessário uma pressão nesse sentido”, finalizou. Após a coletiva de imprensa, especialistas abordaram brevemente os eixos da Living 2008. Depois do almoço, os participantes foram divididos por região e por idioma, ocasião em que se começou a analisar os temas da Living.
(Mix Brasil – 01.08.2008 )
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