QUÉNIA: Mais educação resulta em menos gravidez e HIV na adolescência

30 07 2008

AIRÓBI, 30 Julho 2008 (PlusNews) – Manter as meninas quenianas na escola e assegurar que elas tenham acesso a educação sobre sexo e HIV tem um efeito dramático na diminuição de futuros índices de HIV, segundo especialistas.

“Os jovens não têm a informação da qual precisam, e a taxa de abandono escolar, particularmente por meninas, ainda é muito alta”, informou Rosemarie Muganda-Onyando, directora executiva do Centro de Estudos da Adolescência (CSA, em inglês), que pesquisa o comportamento de adolescentes e implementa programas direccionados a eles.

“Abandonar a escola assegura uma vida de pobreza para essas meninas, e muitas delas acabam seropositivas porque as dinâmicas de poder homem-mulher tornam-se ainda mais acentuadas contra elas”, disse.

Embora o governo tenha dado início à educação primária gratuita em 2003, aproximadamente um milhão de crianças de idade escolar não estão a frequentar a escola. Cerca de 13 mil raparigas quenianas abandonam a escola todos os anos como resultado de gravidez, e cerca de 17 por cento das meninas já tiveram relações sexuais antes dos 15 anos. A seroprevalência entre mulheres quenianas de 15 a 24 anos é de cerca de cinco por cento, comparada com apenas um por cento dos homens.

A Pesquisa Demográfica e de Saúde do Quénia de 2004 revelou que raparigas mais escolarizadas eram menos propensas a casar cedo, mais propensas a fazer um planejamento familiar, e seus filhos têm maior probabilidade de sobrevivência.

De acordo com Fundo das Nações Unidas para a Infância, meninas não escolarizadas são mais propensas a contrair HIV/ Sida, que se espalha muito mais rapidamente entre elas do que entre raparigas que tiveram alguma escolaridade.

O Ministério da Educação tem um currículo de prevenção ao HIV/ SIDA e educação sexual que foca em escola primária e secundária, mas não há horário pré-determinado para tratar do assunto, deixando que professores e directores da escola decidam onde encaixar a disciplina.

“Eu gostaria de ver uma educação sobre sexo e HIV que fosse obrigatória e abrangente – e não apenas o básico, mas algo que vá além e ensine as crianças a tornarem-se responsáveis por seus actos e a ter mais controle sobre seu futuro”, afirmou Muganda-Onyando. “Não foram treinados professores suficientes para esse tipo de educação, então as crianças estão saindo da escola com qualificações académicas, mas sem muitas ferramentas para a vida.”

Esses não foram os únicos obstáculos: a forte influência dos fundamentalistas cristãos no financiamento à resposta ao HIV no Quénia também teve um papel importante no impedimento ao ensino de educação sexual nas escolas.

“Também há resistência por parte dos pais, muitos deles pensam que a escola não é o lugar para aprender sobre sexo”, disse ela.

Essa falta de informações significa que as meninas não estavam a praticar sexo seguro. Uma pesquisa de 2003 feita pelo governo observou que apenas 25 por cento das mulheres entre 15 e 24 anos registaram ter usado preservativo com um parceiro que não fosse seu cônjuge ou com quem não morasse.

Escolas mal-equipadas para educação sexual

Escolas em áreas rurais remotas, e áreas urbanas carentes são frequentemente mal preparadas para tratar de educação sexual; muitas nem chegaram a ver o currículo do governo.

''Quando investigamos sobre a gravidez das meninas, é sempre com um homem mais velho (…) Trabalhamos com a polícia local para processá-los.''

“Nós não temos educação sexual ou sobre o HIV; o governo não nos deu qualquer material ou formação, então, nós não sabemos por onde começar”, disse Christopher Barassa, director da escola primária e secundária Genesis Joy, em Mathare, segundo maior favela de Nairóbi.

Embora registada no Ministério da Educação e na prefeitura de Nairóbi, a escola é considerada “informal” devido a sua localização e falta de infra-estrutura; não possui pátio ou casas de banho, de forma que a escola é cercada de “despojos voadores” – fezes em sacos plásticos que são jogadas – e lixo. Todos os estudantes são da favela, e Barassa diz que mantê-los na escola pode ser difícil.

“Nosso índice de abandono não é muito alto, o maior problema é gravidez na adolescência”, disse ele. A política da escola é encorajar meninas a retornar à escola após o parto, mas muitas se sentem estigmatizadas ou não têm quem cuide de seus filhos e, portanto, não retornam.

“Quando investigamos sobre a gravidez das meninas, é sempre com um homem mais velho (…) acima de vinte e às vezes acima de trinta anos”, disse ele. “Trabalhamos com a polícia local para processá-los – recentemente tivemos um caso de um homem de 31 anos de idade preso por casar com uma de nossas alunas que tinha apenas 15 anos.”

Ele observou que muitos pais na favela não têm o controlo adequado porque seu trabalho os mantém longe de seus filhos, às vezes por dias. Como resultado, as crianças aprendem sobre sexo através de fontes erradas, tais como as diversas salas de cinema que permitem que crianças assistam filmes pornográficos.

“Além de tudo, as meninas têm que viver no mesmo quarto em que seus pais até que amadureçam, e muitas delas presenciam seus pais durante a prática sexual, então aprendem cedo sobre sexo”, afirmou Barassa. “Às vezes elas arrumam um homem quando ainda são muito jovens para poder sair daquela situação.”

Mais educação sexual, menos sexo

O CSA realiza projectos com o objectivo de diminuir o índice de desistência escolar de meninas e de ensiná-las sobre saúde reprodutiva e sexual, incluindo HIV.

“Os projectos formam professores para ensinar ferramentas para a vida, para criar espaços seguros nas escolas onde as meninas possam discutir livremente os problemas que estão a enfrentar, e para fomentar a relação “mentor-aprendiz” entre as alunas mais novas e mais velhas, de forma que as mais novas tenham com quem contar”, disse Muganda-Onyando do CSA.

“Um dos maiores problemas tem sido a quebra dos nossos sistemas tradicionais africanos, em que uma tia ou avó era responsável pela educação sexual… Dizem que discussões sobre sexo na África são um tabu, mas isso não é verdade”, disse ela. “Nós perdemos aqueles sistemas através da colonização e modernização, e eles não foram substituídos; esses projectos estão a tentar trazer de volta aquele sistema de apoio.”

O CSA também cria laços com a comunidade, encorajando os pais a desempenharem um papel activo na aprendizagem de suas crianças sobre sexo, e a terem eles mesmos um comportamento mais responsável.

A iniciativa, que está a ser implementada em mais de 100 escolas por todo o país, teve um resultado positivo até então; escolas participantes observaram uma queda significante de gravidez na adolescência, maior índice de retenção e conclusão da educação escolar e aumento da auto-estima e autoconfiança entre meninas, que, por sua vez, levou a maiores notas nos testes.

“As meninas também precisam de ajuda em relação a uniformes, livros e outras necessidades materiais da escola”, disse o director Barassa. “Se uma menina tem tudo o que precisa para a escola, ela pode ficar na escola e concentrar-se nos estudos, e não irá procurar um homem mais velho para comprar o que ela precisa em troca de sexo”.

(PlusNews – 30.07.2008 )


Acções

Informação

Uma resposta

31 07 2008
Equipe VOZ

Conheça VOZ, o site para quem tem algo a dizer

Caro Blogueiro,

Você, que escreve no blog CRIASnotícias, e se interessa em expor suas idéias sobre os temas relevantes para o desenvolvimento do Brasil, está convidado a conhecer o portal VOZ.

O VOZ é um espaço onde todas as pessoas que como você têm algo a dizer, podem participar do debate sobre questões tão fundamentais sobre o país que queremos ter.

A sua voz é muito importante. Saiba mais como participar e solte a Voz. http://www.dialeto.net/clientes/voz

Equipe VOZ.

Publicar um comentário