LIMBÉ, 29 Julho 2008 (PlusNews) – Os persistentes e crescentes surtos de violência contra membros da comunidade de homossexuais masculinos em África está a colocar em risco os esforços para combater o HIV, tanto dentro deste grupo como na população em geral, alertaram activistas contra a SIDA num recente encontro em Limbé, Camarões.
A extrema vulnerabilidade dos membros da comunidade de homossexuais masculinos em relação ao HIV no continente foi enfatizada no encontro, organizado pela organização não-governamental francesa AIDES, e os seus parceiros, que reuniu activistas da SIDA vindos de países francófonos africanos.
Calcula-se que a seroprevalência média entre homens que fazem sexo com homens (HSH) é de quatro a cinco vezes mais alta do que na população no geral, com picos em determinadas áreas.
Em Bamako, capital do Mali, testes de triagem realizados entre centenas de HSH mostraram que a taxa de infecção era cerca de 37 por cento, segundo a ARCAD-SIDA, uma organização no Mali que apóia pessoas vivendo com HIV/SIDA. Estatísticas oficiais estimam a taxa de infecção na população em 1,3 por cento.
No Senegal, uma pesquisa feita em 2005 mostrou que 21,5 por cento de HSH na capital, Dakar, estavam infectados com HIV, comparados à seroprevalência nacional de 0,7 por cento.
O relatório “Fora do Mapa” de 2007, produzido pela Comissão Internacional de Direitos humanos para Gays e Lésbicas (IGLHRC, em inglês), uma organização americana que defende os direitos dos homossexuais, destacou que “a vulnerabilidade dos gays e lésbicas não é devida a qualquer predisposição biológica, mas resulta de uma interacção de violação dos direitos humanos e desigualdades sociais que agravam o risco de HIV.”
Criminalização da homossexualidade
Segundo a IGLHRC, 38 dos 53 países africanos ainda consideram a homossexualidade como uma ofensa punível a diferentes níveis, incluindo prisão.
Este é o caso nos Camarões, onde 11 pessoas foram presas em 2007 por actividade homossexual, segundo um relatório de 2008 da Anistia Internacional, uma organização dos direitos humanos. Por falta de cuidados, um dos prisioneiros morreu de uma infecção relacionada com o HIV/SIDA poucos dias após a sua libertação.
Steave Nemande, médico e presidente da organização de direitos humanos Alternatives Cameroun, acredita que ao criminalizar a homossexualidade “legitima-se a homofobia social e cria-se medo entre os HSH, que se expõem a maiores riscos para viverem a sua vida sexual secretamente.”
No Senegal, a homossexualidade continua ilegal, embora em 2005 os HSH tenham sido integrados nos programas de SIDA. Aqui a “caça ao homem” e prisões que aconteceram durante os últimos meses, seguindo a publicação de fotos de um festival gay nos jornais locais, forçaram alguns membros da comunidade homossexual a exilarem-se, e outros, incluindo alguns infectados pelo HIV, a esconderem-se – e a pararem o tratamento.
Mesmo em países sem legislação sobre homossexualidade, tais como a Costa do Marfim, MSM ainda estão longe de poder reivindicar os seus direitos, disse Hervé Beuté, membro da Arc-en-Ciel+, uma associação de prevenção de HIV/SIDA para MSM. “Continuamos a lutar para que os (HSH) tenham acesso aos centros de saúde.”
Photo: Reinnier Kazé/IRIN ![]() |
| A ONG Alternatives Cameroun proporciona serviços de HIV/SIDA gratuitos para HSH |
Membros da comunidade morreram de HIV/SIDA sem terem cuidados de saúde, depois de terem sido rejeitados por algumas unidades sanitárias, disse. Ele acrescentou que ele próprio foi “vítima de violência algumas vezes” durante campanhas de prevenção para HSH.
Comunidades mal informadas
“No continente, cada vez mais HSH estão organizando campanhas de prevenção, contudo, nunca vão ser efectivos enquanto continuarem a ser caçados e/ou a serem presos, ou mesmo excluídos das estratégias oficiais de combate a pandemia”, disse David Monvoisin, membro da Africa Gay – um grupo de luta contra a SIDA entre as comunidades homossexuais – que também trabalha com a ONG francesa AIDES.
Philippe (sem o sobrenome) está a ser monitorado por um centro que oferece informação gratuita e cuidados para HSH, recentemente aberto pela Alternatives Cameroun em Douala, a grande cidade portuária.
Ele decidiu arriscar-se a revelar a sua orientação sexual e o seu estado de seropositivo para dar a apoio a outros, “na esperança de que isto servirá de exemplo aos outros para que haja mais discussão sobre a doença entre os HSH e profissionais de saúde”.
Tais iniciativas são indispensáveis, porque muitos HSH “não são instruídos e ignoram todos ou quase todos os métodos de prevenção”, dise Aboubakar Dabo, membro da ARCAD-SIDA, no Mali. Segundo um estudo realizado em 2006 por esta organização, 77 por cento dos HSH inquiridos tinham tido relações íntimas sem protecção.
”Muitos HSH estavam certos de que não há risco de infecção na penetração anal”, disse Yves Jong, coordenadora da unidade de saúde e prevenção da Alternatives Cameroun.
Perigosa existência clandestina
Mesmo quando os HSH estão cientes, a sua exclusão da maioria das políticas de saúde no continente significa que é difícil para eles obter o que necessitam para se proteger da infecção. O problema mais frequente é o acesso ao gel lubrificante, explicou Monvoisin. “Muitos (HSH) usam manteiga ou óleo mas, infelizmente, isto danifica os preservativos.”
A existência clandestina em que as comunidades gay são forçadas a se esconder os expõe não só ao risco do HIV, mas também o resto da população: porque eles não podem viver abertamente como homossexuais, muitos também têm relações sexuais com mulheres, ou são até casados, destacaram os activistas.
No Mali, “a maioria dos homossexuais – 88 por cento, segundo um estudo – são bissexuais, o que aumenta a propagação da doença”, disse Dabo.
Os governos africanos devem, por isso, agir o mais rapidamente possível para proteger os grupos vulneráveis no interesse de toda a população, insistiram os participantes do encontro nos Camarões.
Enquanto os MSM forem ignorados, todos os esforços de combate à SIDA no mundo estão condenados ao fracasso”, concluiu Joel Nana, do gabinete africano da IGLHRC.
(PlusNews – 29.07.2008 )


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