Brasilino António Comonde tem 13 anos. Perdeu a mãe, por causa da SIDA, quando ainda era pequeno. O seu pai, também seropositivo, morreu em 2005. Brasilino foi obrigado a mudar para a casa de sua avó com a sua irmã mais velha.
A SIDA faz parte da sua vida, de mais maneiras do que as palavras conseguem expressar. Mas uma máquina fotográfica ajudou-lhe a entender melhor a sua própria história.
Brasilino é uma das crianças que participam do projecto A Casa é Pequena, mas a Hospitalidade é Grande, cujas fotos foram expostas no Centro Franco Moçambicano, em Maputo, em meados deste mês.
Com a ajuda de fotógrafos profissionais, 21 crianças e adolescentes entre 11 e 17 anos, munidos de câmeras e curiosidade, registaram cenas da sua rotina na família e na comunidade. As fotos vêm acompanhadas de relatos em primeira pessoa.
“Com esse projecto as crianças expressam os seus sentimentos e podem sensibilizar as populações e os adultos sobre o que se está a passar”, explica Olinda Mugabe, directora executiva da organização Reencontro, uma das idealizadoras do projecto.
Além da Reencontro, participam também da iniciativa a organização norte-americana Venice Arts, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a African Millenium Foundation e a Associação Moçambicana de Fotografia.
Brasilino, que quer ser fotógrafo, encontrou nas imagens a sua própria voz. Numa das suas fotografias, o adolescente mostra duas raparigas pobres e escreve: “Elas são órfãs, como eu. Vivem sozinhas e não têm nada. Quando amanhece vão para a machamba”.
Histórias que educam
Moçambique tem uma seroprevalência de 16 por cento, uma das mais altas do mundo. Estima-se que dos cerca de 1,6 milhão de órfãos no país, 470 mil tenham perdido os pais por causa da SIDA.
Não espanta, portanto, que muitas das histórias contadas pelas fotos remetam a um passado mais seguro e acolhedor.
“Aprendi a fotografar o mundo como eu o vejo. Espero que as minhas fotos mostrem que eu era muito mais feliz quando os meus pais estavam vivos. Desde a morte deles, a minha vida mudou drasticamente”, diz Varlito Rafael Magerequene, 15 anos, que quer ser contabilista.
O pai de Varlito morreu em decorrência da SIDA em 2001; a sua mãe, também seropositiva, morreu três anos depois. Desde então ele mora sozinho. A sua irmã mais nova, Belarmina, vive noutro sítio.
A experiência de Irenio Borges Roque, 17 anos, também foi de nostalgia. Uma das suas fotos leva o título de O meu cartão de estudante.
“Esta fotografia mostra o meu cartão de estudante junto com a fotografia da minha falecida mãe. Eu gostava muito dela. Essa foto só me traz saudades”, conta.
Mas para os organizadores, as histórias contadas pelas crianças no projecto A Casa é Pequena mas a Hospitalidade é Grande podem ser usadas, além de educar e consciencializar, para influenciar políticas.
“Com o projecto pretende-se dar oportunidade às crianças para tratarem dos assuntos que dizem respeito a elas”, diz Emídio Machiana, oficial de comunicação do UNICEF.
O projecto também incluiu seis activistas adolescentes, que usam a televisão, rádio e teatro para discutir assuntos sociais e de saúde pública nas suas comunidades.
Nilza Laice, 17 anos, é uma delas. Aluna da 12ª classe do ensino geral, ela sonha em tornar-se uma parlamentar. Com o projecto afirma ter aprendido “alguns segredos por detrás da fotografia”.
“Pude ver quanto a imagem pode ser importante para a vida das pessoas, e como, através de uma simples foto, as crianças tornadas órfãs pela SIDA podem ter a oportunidade de mostrar ao mundo a vida difícil que levam”, diz.
Há planos de que ainda este ano A Casa é Pequena, mas a Hospitalidade é Grande seja vista noutras províncias de Moçambique e nos Estados Unidos da América.
O projecto já começa a render frutos: a partir da iniciativa, a Associação Moçambicana de Fotografia pretende dar formações regulares a crianças e adolescentes como forma de engajamento social.
A exposição acontece no ano em que se comemoram 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de onde foi criada a Convenção sobre os Direitos da Criança, ratificada por Moçambique em 1994.
(PlusNews – 22.07.2008 )
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