VIVENDO HÁ QUATRO ANOS COM UM SEROPOSITIVO: NICHE EXEMPLO DE QUE NO AMOR NÃO HÁ BARREIRAS

21 07 2008

Eunice Helena Almeida, uma jovem santa-cruzense 23 anos de idade,
vive maritalmente com um seropositivo, há quatro anos. Lutando contra todos os preconceitos, Niche, como ela é conhecida, tem sido a companheira de luta de Daniel Delgado, que convive com a doença há, 17 anos, cuja, a história de vida foi também retratada por este semanário (edição nº 344).

Independentemente da condição de Dany, Niche ultrapassou o medo, o preconceito e até mesmo a imposição da sua família para viver ao lado do homem que ama. Niche diz o que mais admira no Dany é o facto de ele em nenhum momento esconder o seu estado de saúde.

Por ter feito esta escolha, a jovem tem sofrido muito. Como ela conta, tem sido alvo de constantes ataques, vindas de várias pessoas, inclusive da sua família, que hoje a virou as costas, mas “tenho sobrevivido”, assegura. “Este é o caminho que escolhi. Sou feliz e, até hoje, não me arrependi”.

Perante a situação de discriminação, Niche diz que, por vezes fica triste e deprimida mas o namorado a encoraja.

Quando começou a namorar com Dany, presidente da “Associação Esperança” dos Seropositivos de Santiago, não foi fácil: “no início tive medo, mas nunca fui preconceituosa em relação a HIV, estava bem esclarecida sobre este problema. Penso que perante o amor não há barreira. Principalmente porque os meus familiares criticaram, tentaram impedir o nosso relacionamento, mas nós seguimos em frente”. Os familiares de Niche chegaram ao ponto de lhe dizer preferiam que ela namorasse com um drogado ou com um bandido do que com um seropositivo.

Depois de quatro anos, Niche diz que a maior parte dos seus familiares encaram de forma diferente o seu relacionamento com Dany. “Alguns até já aceitaram, os restantes, por não poderem fazer nada, fingem aceitar”, acrescenta.

Do outro lado desta história, existe a filha de Niche, uma menina de cinco anos de idade, fruto de um outro relacionamento. Uma das grandes preocupações da jovem é que, futuramente, “quando a minha filha começar a entender as coisas, ela não venha a ser agredida pelas pessoas por causa do preconceito que existe nas suas cabeças”. Pois, Niche teme que a pequena venha a sofrer os mesmos preconceitos por que ela tem passado.

Na intimidade do casal

A história deste casal é a prova viva de que o preconceito ainda existe e de que muitas pessoas ainda sofrem por causa disso. Um preconceito que Niche tem vivido na pele. Desde que namora com Dany, ela foi “catalogada” como seropositivo, tendo em conta a condição do seu parceiro. Foram vários os testes de Sida que teve de fazer para provar às pessoas de que não era portadora de vírus e que, “uma pessoa seropositiva é igual a todos nós. Lá porque eu escolhi Dany, para ser o meu companheiro, não quer dizer que, automaticamente, eu serei seropositivo”.

Na intimidade do casal, Niche conta que tomam as dividas precauções para evitar que ela seja contaminada. “Usamos camisinha na nossa relação e, basta que o preservativo seja utilizado correctamente não há nenhum problema”. Dany é presidente da Associação Esperança de Seropositivos de Santiago. Uma posição que tem sido de muita valia para o casal. “O Dany é um homem esclarecido sobre a sua doença, ele sabe muito bem o que podemos ou não fazer e ele tem todo o cuidado para não me contaminar”, diz a jovem.

Mesmo depois de quatro anos de relacionamento, ainda ela é vítima de discriminação. “Desentendi com uma vizinha, ela disse-me que emagreci por ser portadora de vírus, outros dão indirecta”.

O grande sonho do casal:
ter um filho

O grande sonho do casal era “poder ter um filho”. Um sonho que “caiu por terra”, porque seria um processo dispendioso. Para terem um filho teriam de ter dinheiro para fazer, talvez, uma fertilização in vitro, um ganho da medicina que ainda não chegou a Cabo Verde.

Mas lá no fundo, o casal guarda esperanças de realizar este sonho: “se no Senegal fazem este tratamento para podermos ter filhos, vamos tentar”, diz Dany.

Niche diz ter medo de uma eventual separação com o seu namorado, porque a nossa sociedade é muito preconceituosa, alguém poderá não querer namorar com ela porque vivia com Dani “mas espero que o nosso relacionamento seja para sempre”.

Para a sociedade, especialmente os jovens, Niche deixa certas recomendações: “eu acredito que existe amor a primeira vista, mas tenham cuidado porque muitas vezes as pessoas parecem estar saudáveis poderá não estar. Também se amas uma pessoa não é por ele ser seropositivo que não podes levar esse amor em frente”.

(Expresso das Ilhas – 18.07.2008 )


Acções

Informação

Publicar um comentário