Combate à aids entre jovens da A.Latina é insuficiente, diz especialista

21 07 2008

México, 20 jul (EFE).- A América Latina foi incapaz de combater devidamente o HIV, vírus causador da aids, entre os jovens, dada a falta de informação que as autoridades dos países da região têm sobre a cultura sexual deste segmento populacional, disse hoje à Agência Efe um especialista na prevenção da doença.

“Acho que não temos informação suficiente sobre a epidemia entre a população jovem”, disse à Efe a chilena Raquel Child, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Segundo a especialista, há dois problemas essenciais em relação ao tema: o déficit de conhecimento sobre hábitos e condutas juvenis e a falta de programas e de serviços de atendimento específicos para eles.

“Se queremos formular e implementar políticas, temos que saber o que vamos fazer, onde e por quem”, defendeu Child.

Como exemplo, a especialista citou uma área pouco conhecida e amplamente usada pelos jovens de hoje nos contatos e relações sexuais: a internet.

“Em segundo lugar, acho que os jovens são vistos como um mundo homogêneo, e não o são”, acrescentou Child.

De acordo com a especialista, “o mundo adulto ainda não foi capaz de reconhecer as culturas sexuais juvenis”, muito diferentes das suas.

Por essas circunstâncias, os países latino-americanos estão falhando na construção de “respostas para que (os jovens) tenham comportamentos preventivos”, ressaltou.

Child lamentou que o acesso especializado a serviços de saúde para este segmento da população seja muito limitado, o que, segundo disse, deixa a juventude em situação de “desamparo” em relação aos adultos.

Raquel Child participará, com mais de 20 mil especialistas, da 17ª Conferência Internacional sobre Aids, que vai acontecer de 3 a 8 de agosto na capital mexicana, a primeira localidade latino-americana a sediar o evento.

(EFE – 20-07-2008 )





ZÂMBIA: Procuram-se: mais pessoas para fazer o teste de HIV

21 07 2008

Os medicamentos para o tratamento de HIV estão disponíveis, assim como a informação sobre como se prevenir dele, mas muito poucas pessoas na Zâmbia estão a submeter-se ao teste.

“Eu preferiria morrer a ir fazer o teste”, disse Joseph Mwewa, residente da capital Lusaka.

“Até onde eu sei, é melhor continuar sem saber minha condição. Nós vemos muitas pessoas morrendo logo depois que descobrem ser seropositivos. Eu sei do que eu fiz e também sei do que eu não fiz, mas, acredite, fazer o teste de HIV é a última coisa que passa pela minha cabeça… nem mesmo no meu leito de morte.”

Mwewa não está só. O governo estima que quase dois milhões dos 11,7 milhões de zambianos tenham sido testados para HIV, mas a taxa de seroprevalência na Zâmbia de 15 por cento está entre as mais altas do mundo.

Embora o governo tenha anunciado recentemente uma leve queda na seroprevalência para 14 por cento, a taxa em algumas áreas urbanas, tais como Lusaka, ainda chega a 21 por cento.

“O uso dos serviços de aconselhamento e testagem voluntária [ATV] ainda é inaceitavelmente baixo na Zâmbia (…) apesar dos esforços de organizações do governo e da sociedade civil para fazer com que eles sejam o mais acessíveis possível”, afirmou Brian Chituwo, ministro da Saúde zambiano.

Medicamentos mais acessíveis

Cerca de 170 mil pessoas têm acesso a drogas antiretrovirais (ARV) em várias clínicas e hospitais públicos, de acordo com o Ministério da Saúde, mas o número de seropositivos que precisam de medicamentos está estimado em torno de 300 mil.

“Serviços abrangentes de terapia ARV estão agora disponíveis em todos os nossos [73] distritos. Isso é o oposto da situação que tínhamos há cinco anos, quando tínhamos esses serviços em apenas dois locais”, observou Chituwo.

''Eu preferiria morrer a ir fazer o teste. Até onde eu sei, é melhor continuar sem saber da minha condição. Nós vemos muitas pessoas morrendo logo depois que descobrem ser seropositivas.''

Frederick Mulenga, um educador de pares trabalhando num CATV em Lusaka, disse que a maioria das pessoas fugia dos serviços por causa dos mitos associados ao HIV. Na cabeça de muitas pessoas, o HIV está relacionado à promiscuidade, e essa percepção errónea se reflecte nos seropositivos, que são frequentemente menosprezadas e sofrem discriminação, especialmente nas áreas rurais.

“O problema é: há uma interpretação muito errónea de que pegar HIV é uma forma de punição de Deus pelos pecados ou pela vida promíscua de uma pessoa. Há alguns dias eu atendi o caso de uma moça – acredito que de quase 30 anos – que chorava incontrolavelmente após seus testes terem voltado positivos. Ela disse: ‘Deus me traiu; eu vivi uma vida livre de pecado e ainda sou virgem, por que sou seropositiva?’”

Mesmo que nós os encorajemos a saber [sua seropositividade] para que eles possam logo ser medicados, muitas pessoas ainda vêem HIV/SIDA como uma doença fatal e incurável – isso está realmente minando nossos esforços” afirmou Mulenga.

A consultora de HIV/Sida e ex-ministra da Saúde Nkandu Luo acredita que os CATVs ainda não são acessíveis o suficiente. “O aconselhamento e testagem voluntária ainda não atraiu muitas pessoas porque não estamos considerando o acesso aos centros (…) as pessoas têm que viajar [dos subúrbios] (…) para a cidade [para serem testados], o que custa dinheiro”, observou.

“E obviamente, quando se trata da concorrência para encontrar comida, ninguém dá preferência para ir ao CATV. Os serviços devem ser levados às pessoas. Da maneira como está, nós não temos estrutura suficiente para sustentar o nível de operações de intervenção que gostaríamos de ver”.

Luo sugeriu que outra razão para a relutância ao teste é o facto de que por um longo período não havia nada para elas; não havia incentivo. Mesmo que os ARVs fossem mais amplamente disponíveis e as pessoas soubessem desse serviço, não havia apoio nutricional.

“O programa deveria ter sido abrangente; deve haver medicamento, deve haver comida e deve haver postos por todos os lugares”, disse.

O Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) apoiou o governo da Zâmbia nos programas de prevenção e educação pelos últimos cinco anos, fornecendo preservativos, corte vertical e focando nos direitos humanos dos seropositivos.

“O acoselhamento e testagem voluntária promovem conhecimento precoce da seropositividade, o que é agora reconhecido como um componente crítico no controle da disseminação de novas infecções por HIV”, disse Deji Popoola, director nacional do FNUAP na Zâmbia, que também observou que as pessoas não mudam seu comportamento se não souberem sua condição.

“Espera-se que se os indivíduos souberem de sua condição, adotarão um comportamento que irá tanto reduzir seu risco de infecção caso sejam negativos, ou reduzir o risco de transmitirem o vírus para outros ou serem reinfectados caso sejam positivos.”

(PlusNews – 21.07.2008 )





Instituições de luta contra o VIH/Sida devem ser mais activas

21 07 2008

As instituições e os activistas que se dedicam ao combate do VIH/Sida devem intensificar e aperfeiçoar os cuidados prestado às pessoas seropositivas, afirmou quinta-feira, em Luanda, o coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com VIH/Sida (RNP+Angola), António Leitão.

No final do primeiro Encontro Nacional da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com VIH/Sida (RNP+Angola), António Leitão referiu à Angop, que se deve realizar um trabalho com maior qualidade e profundidade, não só por parte do Governo, mas por toda a sociedade civil, no apoio aos seropositivos.

Este encontro, disse, serviu acima de tudo para reforçar e solidificar a rede central e nacional RNP+Angola, a nível da estrutura, da governação e da gestão financeira.

Para António Leitão, este primeiro encontro da RNP+Angola serviu para unir mais o governo e os seus parceiros no combate à pandemia, visando promover, expandir e fortalecer a rede.

“Aproveito a ocasião para alertar as pessoas que não descriminem os seropositivos porque esta prática é tida como criminosa”, alertou.

O encontro, que contou com a participação de membros das redes nacionais de pessoas vivendo com VIH do Brasil, Moçambique e dos 18 pontos focais da RNP+Angola serviu para avaliar mecanismos para a criação de um ambiente de apoio aos seropositivos.

(AngolaPress – 17.07.2008 )





VIVENDO HÁ QUATRO ANOS COM UM SEROPOSITIVO: NICHE EXEMPLO DE QUE NO AMOR NÃO HÁ BARREIRAS

21 07 2008

Eunice Helena Almeida, uma jovem santa-cruzense 23 anos de idade,
vive maritalmente com um seropositivo, há quatro anos. Lutando contra todos os preconceitos, Niche, como ela é conhecida, tem sido a companheira de luta de Daniel Delgado, que convive com a doença há, 17 anos, cuja, a história de vida foi também retratada por este semanário (edição nº 344).

Independentemente da condição de Dany, Niche ultrapassou o medo, o preconceito e até mesmo a imposição da sua família para viver ao lado do homem que ama. Niche diz o que mais admira no Dany é o facto de ele em nenhum momento esconder o seu estado de saúde.

Por ter feito esta escolha, a jovem tem sofrido muito. Como ela conta, tem sido alvo de constantes ataques, vindas de várias pessoas, inclusive da sua família, que hoje a virou as costas, mas “tenho sobrevivido”, assegura. “Este é o caminho que escolhi. Sou feliz e, até hoje, não me arrependi”.

Perante a situação de discriminação, Niche diz que, por vezes fica triste e deprimida mas o namorado a encoraja.

Quando começou a namorar com Dany, presidente da “Associação Esperança” dos Seropositivos de Santiago, não foi fácil: “no início tive medo, mas nunca fui preconceituosa em relação a HIV, estava bem esclarecida sobre este problema. Penso que perante o amor não há barreira. Principalmente porque os meus familiares criticaram, tentaram impedir o nosso relacionamento, mas nós seguimos em frente”. Os familiares de Niche chegaram ao ponto de lhe dizer preferiam que ela namorasse com um drogado ou com um bandido do que com um seropositivo.

Depois de quatro anos, Niche diz que a maior parte dos seus familiares encaram de forma diferente o seu relacionamento com Dany. “Alguns até já aceitaram, os restantes, por não poderem fazer nada, fingem aceitar”, acrescenta.

Do outro lado desta história, existe a filha de Niche, uma menina de cinco anos de idade, fruto de um outro relacionamento. Uma das grandes preocupações da jovem é que, futuramente, “quando a minha filha começar a entender as coisas, ela não venha a ser agredida pelas pessoas por causa do preconceito que existe nas suas cabeças”. Pois, Niche teme que a pequena venha a sofrer os mesmos preconceitos por que ela tem passado.

Na intimidade do casal

A história deste casal é a prova viva de que o preconceito ainda existe e de que muitas pessoas ainda sofrem por causa disso. Um preconceito que Niche tem vivido na pele. Desde que namora com Dany, ela foi “catalogada” como seropositivo, tendo em conta a condição do seu parceiro. Foram vários os testes de Sida que teve de fazer para provar às pessoas de que não era portadora de vírus e que, “uma pessoa seropositiva é igual a todos nós. Lá porque eu escolhi Dany, para ser o meu companheiro, não quer dizer que, automaticamente, eu serei seropositivo”.

Na intimidade do casal, Niche conta que tomam as dividas precauções para evitar que ela seja contaminada. “Usamos camisinha na nossa relação e, basta que o preservativo seja utilizado correctamente não há nenhum problema”. Dany é presidente da Associação Esperança de Seropositivos de Santiago. Uma posição que tem sido de muita valia para o casal. “O Dany é um homem esclarecido sobre a sua doença, ele sabe muito bem o que podemos ou não fazer e ele tem todo o cuidado para não me contaminar”, diz a jovem.

Mesmo depois de quatro anos de relacionamento, ainda ela é vítima de discriminação. “Desentendi com uma vizinha, ela disse-me que emagreci por ser portadora de vírus, outros dão indirecta”.

O grande sonho do casal:
ter um filho

O grande sonho do casal era “poder ter um filho”. Um sonho que “caiu por terra”, porque seria um processo dispendioso. Para terem um filho teriam de ter dinheiro para fazer, talvez, uma fertilização in vitro, um ganho da medicina que ainda não chegou a Cabo Verde.

Mas lá no fundo, o casal guarda esperanças de realizar este sonho: “se no Senegal fazem este tratamento para podermos ter filhos, vamos tentar”, diz Dany.

Niche diz ter medo de uma eventual separação com o seu namorado, porque a nossa sociedade é muito preconceituosa, alguém poderá não querer namorar com ela porque vivia com Dani “mas espero que o nosso relacionamento seja para sempre”.

Para a sociedade, especialmente os jovens, Niche deixa certas recomendações: “eu acredito que existe amor a primeira vista, mas tenham cuidado porque muitas vezes as pessoas parecem estar saudáveis poderá não estar. Também se amas uma pessoa não é por ele ser seropositivo que não podes levar esse amor em frente”.

(Expresso das Ilhas – 18.07.2008 )





Sistema judicial “ajuda” violência doméstica

21 07 2008

Portugal pode estar nos primeiros 15 países que mais faz contra a violência sobre as mulheres, mas a lentidão da Justiça e certas decisões judiciais deitam por terra muitos esforços, diz autor de documento sobre o tema.

Para Mendes Bota, redactor do relatório que será discutido a 3 de Outubro, na sessão plenária do Conselho da Europa (CE), Portugal ainda não cumpre as sete medidas legislativas que a resolução 1582, do CE, considera serem parâmetros mínimos no combate à violência contra as mulheres.

A violação marital ou violência sexual no casamento não é tida como crime nem a agressão perpetrada pelo parceiro constitui “circunstância agravada”. Apesar de, em 2007, 38% portuguesas terem sido vítimas de maus tratos, tendo 55% dos casos sido praticados pelo parceiro.

Também não é canalizado para este combate, por ano, 2% do PIB. E os 500 lugares nas casas de abrigo ficam aquém das 900 camas, que correspondem à recomendação de um lugar em acolhimento por cada 7.500 habitantes.

Mesmo assim, Mendes Bota, primeiro vice-presidente da Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Género do CE, diz que Portugal pode estar entre os 15 primeiros Estados (que têm uma estrutura de resposta eficaz) entre mais de 50 países (47 do CE mais as nações associadas).

O deputado refere mesmo ter havido “um grande salto em frente” na formação das forças policiais, mas não esconde que “ainda é insuficiente a situação a nível judicial”.

Esta crítica surge porque, afirma, é incompreensível que um juiz ilibe um agressor porque só deu um estalo na mulher, que um outro determine que o agressor não se pode aproximar da vítima e depois, na regulação do poder paternal, outro magistrado decida que o agressor pode visitar os filhos em casa.

O deputado é igualmente crítico quanto ao novo Código de Processo Penal. Porque “desprotege a vítima”: “Se o agressor não for apanhado em flagrante ou se se apresentar voluntariamente ao juiz é automaticamente libertado”, exemplifica. “Houve aqui um erro que tem de ser reparado”.

No debate parlamentar de hoje, que encerra a campanha portuguesa, Mendes Bota vai exortar a que as verbas do Orçamento de Estado sejam descriminadas para que se saibam os montantes afectos às iniciativas e feitos estudos para apurar os custos desta violência.

Porque quando uma mulher é maltratada “tem de ir ao hospital, à farmácia , ao tribunal e à Segurança Social. Além de que toma cinco vezes mais soporíferos, tende mais a suicidar-se, falta mais ao trabalho e produz menos”, aponta.

Vai também voltar a desafiar os colegas deputados a criarem um grupo de trabalho composto só por homens, como existe na Suécia, desde 2002. Há um ano, apenas lhe responderam dois socialistas. “Os homens não se querem envolver. Ainda há muito machismo em Portugal”, desabafa.

Foi em 2006 que foi como suplente (lugar de Portugal) para a Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Género, onde tinha assento um único homem. “Era encarada como uma comissão menor”, refere. Vera Jardim (PS) e Mota Amaral (PSD), respectivamente presidente e vice-presidente da delegação portuguesa, pediram-lhe que aceitasse e hoje é uma Comissão paritária.

E tudo começou numa reunião onde se discutiu o tráfico de mulheres para os bordéis abertos de propósito para o Mundial de Futebol, na Alemanha.

Dizer nos jornais que se tratava de “uma santíssima aliança entre o futebol, a cerveja e o sexo”, foi o bastante para ser, posteriormente, eleito terceiro vice, sendo agora primeiro vice-presidente.

(Jornal de Noticias – 18.07.2008 )





MOÇAMBIQUE: Dar valor à vida

21 07 2008

Deslumbrado pelos desenhos animados, Jacinto Cruz, de quatro anos, não parece estar na ala pediátrica do Hospital Central da Beira para o tratamento da SIDA, doença com a qual nasceu.

Com os olhos pregados ao televisor de 32 polegadas, ele espera a sua vez de ser atendido, juntamente com a sua mãe.

A razão para a consulta é uma diarréia persistente, doença oportunista mais comum entre as crianças seropositivas. A espera para ver o médico chega a duas horas.

“É sempre assim quando viemos aqui, muita gente precisa deste serviço. Mas devemos dar valor à vida, por isso esperamos o tempo necessário”, diz a mãe, Isa de Abreu.

Jacinto pertence a um minúsculo grupo de crianças que recebe antiretrovirais (ARVs) pediátricos na província de Sofala, região central de Moçambique.

Sofala apresenta uma seroprevalência de 25 por cento entre adultos, a mais alta da região. A seroprevalência nacional é de 16 por cento.

Dados oficiais indicam que apenas 146 crianças seropositivas receberam antiretrovirais nos três primeiros meses de 2008 naquela província. Em 2007, 105 crianças tiveram acesso ao medicamento no mesmo período.

Em 2003, quando os ARVs foram introduzidos em Sofala, das 8.337 crianças seropositivas que precisavam urgentemente do tratamento, apenas 453 foram contempladas.

“O número de crianças que recebe os antiretrovirais na província de Sofala ainda é ínfimo nas estatísticas da saúde”, reconhece Juvenaldo Amos, coordenador provincial das grandes endemias, na direcção provincial de saúde (DPS).

Mães relutantes, filhos sem tratamento

Segundo dados da DPS, mais de 15 mil crianças vivem com HIV em Sofala, mas apenas duas mil – 13 por cento – estão em tratamento ARV. Trata-se de uma percentagem baixíssima se comparada à população adulta: 58 por cento das mulheres e 42 por cento dos homens elegíveis estão em tratamento.

Cerca de metade das crianças que iniciam o tratamento em Sofala vive na capital, Beira. Os obstáculos no resto da província dificultam o acesso aos ARVs. Nalguns distritos nenhuma criança está a recebê-los.

Apesar dos esforços para expandir a terapia a todos os distritos da província, a maioria das crianças que podem receber a medicação não se apresenta para tratamento.

“As mães, receando a discriminação associada ao HIV, ainda são relutantes em submeter seus filhos ao teste do HIV ou tratamento da SIDA”, diz Amos.

''Para nós, adultos, é simples: sabemos que temos que tomar um comprimido de manhã e um à noite. Mas como é possível que as crianças sigam um tratamento tão complicado?''

Talvez o mais frustrante ainda para os médicos seja o número de gestantes seropositivas que se registam nas consultas pré-natais nas unidades sanitárias, mas que nunca voltam com os seus filhos para consultas de acompanhamento.

“Conheço mulheres que nunca mais voltaram ao hospital depois do parto. Talvez ficaram impedidas pelo estigma ou esperam a criança adoecer bastante”, diz a mãe de Jacinto.

Poucos médicos, medicamentos intragáveis

A escassez de pessoal médico também é um obstáculo para o tratamento de crianças.

Poucos profissionais têm formação para tratar crianças seropositivas, pois os cuidados pediátricos envolvem conhecimento médico e medicamentos especializados, como xaropes de AZT e materiais de testagem de sangue seco.

“Apenas alguns distritos têm médicos e o tratamento pediátrico exige uma observação médica regular da criança, o que se torna um desafio”, explica Amos.

Dos doze distritos da província, apenas sete têm médicos. Os cinco restantes recebem a visita quinzenal de um médico da capital provincial, que assiste inclusive as crianças seropositivas.

Os ARVs pediátricos existentes são difíceis de determinar, administrar e armazenar. Alguns comprimidos devem ser partidos segundo o peso da criança. Outros são grandes, difíceis de tragar, e os xaropes são desagradáveis.

A dose deve ser ajustada segundo o peso da criança, que pode mudar de mês a mês ou mesmo semanalmente. Xaropes e comprimidos pediátricos não são adequados para crianças mais crescidas, que precisam de doses maiores, mas não há comprimidos para adultos com baixa dosagem.

As fórmulas pediátricas existentes, assim como os ARVs de primeira e segunda linha para crianças, são entre cinco e oito vezes mais caras que a medicação para adultos.

Soluções comunitárias

Diante desse problema, algumas associações comunitárias começaram a se mobilizar para auxiliar os pequenos.

Rebeca Massada, 29 anos, é uma das activistas da organização não-governamental Kubatana (unidos, na língua Ndau), uma rede de seropositivos, que proporciona assistência domiciliária.

Seropositiva, Massada começou o tratamento ARV em 2006, no centro de saúde de Munhava, um bairro pobre na periferia da Beira.


Photo: Albino Mahumana/PlusNews
Tratamento complicado para crianças tão pequenas

“Para nós, adultos, é simples: sabemos que temos que tomar um comprimido de manhã e um à noite”, diz. “Mas como é possível que as crianças sigam um tratamento tão complicado? Como as famílias vão ministrar regularmente o tratamento e sempre na hora certa?”

Para verificar se as crianças tomaram a dose correcta no momento certo, activistas como Massada visitam a família duas vezes por dia.

Eles também ensinam os parentes a controlarem a dosagem de xaropes usando uma seringa. A medida do xarope é sinalizada por um marcador. Quando a criança aumenta de peso, o familiar recebe do médico uma nova seringa marcada com a nova dose.

As activistas também ajudam na educação nutricional da criança, ensinando, por exemplo, como preparar verduras e peixe para bebés de um ano.

“Quando tomo os meus comprimidos penso em cada criança e na minha responsabilidade para cada uma. Não posso falhar, porque elas precisam de mim”, diz Massada.

(PlusNews – 21.07.2008 )





ÁFRICA DO SUL: “Há um vírus em casa?”

21 07 2008

Escondido por de trás dos altos muros que cercam a maioria das casas suburbanas da classe média na África do Sul está uma das maiores e mais marginalizadas forças de trabalho de mulheres negras no país.

Trabalhadoras domésticas continuam a ser um padrão em muitas casas. O seu trabalho é barato e existe em grande oferta, e muitas famílias contam com ele para cozinhar, limpar e cuidar dos seus filhos.

Embora estejam agora cobertas por leis trabalhistas que lhes dão direito a certas condições de trabalho e a um salário mínimo, muitos empregadores continuam a considerar trabalhadoras domésticas como membros subordinados da casa, segundo Chloe Hardy, que trabalhou como advogada para-legal no Projecto de Lei da SIDA (AIDS Law Project, em inglês) até o ano passado e está agora com a Sociedade dos Clínicos de HIV da África do Sul (South African HIV Clinicians Society, em inglês).

“Historicamente, empregadas domésticas na África do Sul não estavam incluídos na lei trabalhista e eram extremamente exploradas”, disse ela. “Essa atitude persiste; [empregadores] muitas vezes não enxergam as domésticas como empregados regulares – há uma relação paternalista em que eles pensam que devem ter maior controlo sobre essa pessoa, principalmente se ela vive na mesma casa.”

Na era do HIV e SIDA, alguns empregadores acreditam que este controlo deve se estender a ponto de saber o estado de HIV da empregada. Enquanto esteve com o Projecto de Lei da SIDA, Hardy ajudou alguns trabalhadores domésticos a levar casos contra antigos empregadores que os tinham pressionado a fazer o teste de HIV ou que os despediram depois de descobrirem que eram seropositivos.

“Em alguns casos, as próprias [domésticas] revelaram [sua condição], mas houve muita desonestidade,” disse Hardy. “Houve um caso em que um empregador mandou a empregada ao seu médico pessoal para ser testado, e depois o médico revelou ao empregador o estado de HIV do seu empregado.”

Hardy disse que tais casos tornaram-se menos comuns nos anos recentes. Kate Shuttleworth, fundadora da Domésticas Maravilhosas (Marvellous Maids, em inglês), uma agência de recrutamento de trabalhadoras domésticas, disse que sua empresa também tem registado cada vez menos chamadas de empregadores a perguntar se podiam mandar testar as suas trabalhadoras domésticas.

Mesmo assim, o website da empresa ainda dedica uma página inteira a este assunto. “Todos os dias há perguntas sobre submeter as domésticas ao teste de HIV”, escreve. “A breve resposta é NÃO”.

Eunice Dhladla, da filial de Johannesburg do Sindicato Sul-Africano dos Trabalhadores dos Serviços Domésticos e Associados (South African Domestic Service and Allied Workers Union – SADSAWU, em inglês) disse que muitos tais casos foram reportados à sua organização no ano passado.

“Nós dizemos aos trabalhadores: ‘não aceitem ir ao médico do patrão, vão ao seu próprio médico’”, disse.

SADSAWU tentou levar alguns dos casos ao tribunal de trabalho mas, segundo Dhladhla, “nunca ganhamos um caso, porque uma vez que a trabalhadora é mandada embora, não a vês mais; elas não voltam a nós.”

A maioria das domésticas não pertencem ao sindicato, e muitas não conhecem as leis que protegem os seus direitos. “Muitas vêm de zonas rurais para trabalhar nas cidades; têm medo de fazer perguntas sobre o seu patrão e de lutar pelos seus direitos”, disse Dhladhla.

Mais risco?

O próprio facto de muitas domésticas terem migrado das zonas rurais ou de outros países constitui um factor de risco de HIV, disse Hardy. Muitas vivem com os seus patrões e estão separadas dos seus maridos ou parceiros por longos períodos de tempo.

''Houve um caso em que um empregador mandou sua doméstica ao seu médico pessoal para ser testado, e depois o médico revelou ao empregador o estado de HIV da doméstica.''

Um estudo de 2005 pelo Projecto de Migração da África Austral (Southern African Migration Project, em inglês) que fornece aconselhamento em políticas e pesquisa sobre assuntos de migração e desenvolvimento, concluiu que embora a maioria das 1.100 domésticas entrevistadas não tivessem problemas para acessar os serviços de saúde, seu conhecimento sobre HIV e SIDA era muito fraco.

Mais de 60 por cento das mulheres nunca tinham usado um preservativo na vida e apenas 16 por cento sabiam que existe tratamento sob a forma de terapia antiretroviral (ARV).

Paula*, de 45 anos, uma empregada doméstica em Edenvale, um subúrbio no leste de Johannesburg, disse que não sabia muito sobre HIV antes de ser testada e diagnosticada positiva. “Eu só via as pessoas a ficarem doentes,” disse ela.

Ela disse que o seu patrão começou a maltratá-la e a dar-lhe trabalho extra quando ela ficou apanhou uma gripe em finais do ano passado. Eventualmente ela decidiu ir à clínica e fazer o teste, e imediatamente revelou sua condição ao patrão. “Eles sabiam que eu estava doente e aí eu lhes disse que era seropositiva”, disse. “Agora eles me tratam bem.”

Receios dos patrões

Nem todas as domésticas revelam sua condição aos patrões, por uma boa razão: Shuttleworth disse que poucos clientes da sua agência aceitam trabalhadoras que são declaradamente seropositivas. “Torna-se difícil para nós lhes arranjarmos emprego”, disse.

Alguns empregadores, que não sabem como se transmite o HIV, receiam contrair o vírus ou infecções oportunistas como tuberculose de alguém trabalhando em sua casa.

Bev White, dona de um negócio e mãe de um filho, que também vive em Edenvale, fundou um grupo de apoio para empregadores de trabalhadoras domésticas seropositivas depois de a babá do seu filho ter sido diagnosticada seropositiva há três anos.

O grupo, que parou de funcionar devido aos compromissos de trabalho de White, tinha cerca de 90 membros, e White recebia telefonemas e e-mails todos os dias de pessoas pedindo conselhos.

“Já tive pessoas que me telefonavam a dizer que estavam preocupadas sobre as suas empregadas lhes prepararem refeições. Ainda há um certo nível de desconhecimento entre as mães brancas de classe média dos subúrbios”, disse.

White reconheceu que ficou um pouco nervosa a princípio, quando descobriu que a babá do seu filho era seropositiva. “O meu médico me disse que se a babá ou a empregada tem TB ou gripe, isso pode ser transmitido à criança e, sim, esse é um comentário válido. Mas na altura eu tinha uma gripe”, disse.

Outros empregadores estão menos preocupados quanto a serem infectados do que quanto ao número de vezes que suas empregadas seropositivas faltarão ao trabalho.

As domésticas na África do Sul têm direito a seis semanas de licença por doença remuneradas num período de três anos, mas poucos empregadores registam quantos dias de licença as suas empregadas tiraram e, segundo Hardy, “tendem a tornar-se muito draconianos” se acharem que a empregada teve dias demais.

Tirar dias de folga mensais para visitas à clínica pode constituir problema, principalmente para empregadas que preferem não declarar o facto. Apesar de conhecer sua condição, o patrão de Paula ainda insiste em que ela apresente um atestado todas as vezes que ela vai até a clínica para receber os seus ARVs.

Isoladas das suas famílias e amigos, as domésticas seropositivas precisam mais do que o acesso a clínicas e tratamento, mas o único tipo de apoio que muitos empregadores estão preparados para dar é financeiro.

“Muita gente simplesmente oferece dinheiro perante este problema”, disse Shuttleworth. “Eles dão dinheiro [à doméstica] e querem que ela resolva a questão.”

White acredita que as obrigações dos empregadores em relação aos empregados devem ir mais longe. “Se a pessoa não sente bem, nós podemos cuidar dela”, disse. “Essas pessoas têm cuidado de nós e é nosso dever cuidar delas.”

*Nome fictício