QUÉNIA: Indústria do sexo comercial cresce após actos de violência

17 07 2008

Assim como milhares de outros quenianos, Susan Wairimu, 17 anos, foi desalojada de sua casa no distrito de Molo, na província de Rift Valley, durante os actos de violência que seguiram a disputada eleição presidencial em Dezembro de 2007. Ela procurou abrigo na cidade próxima de Nakuru.

Uma prima que vive na cidade costeira de Mombasa se dispôs a acomodá-la até que a violência terminasse, oferecendo uma escapatória da barraca que ela dividia com os pais no abrigo de pessoas desalojadas em Nakuru.

“No início, eu não tinha idéia do tipo de trabalho que minha prima costumava fazer; vim a descobrir alguns dias após minha chegada, quando ela me disse que trabalha como prostituta nas praias”, disse.

A costa do Quénia é um dos destinos turísticos mais populares do país: cerca de dois milhões de turistas visitaram o Quénia em 2007, muitos a caminho das cidades litorâneas de Mombasa e Lamu, no Oceano Índico, onde o sexo comercial é uma das principais formas de muitas mulheres ganharem dinheiro.

Não demorou muito para que Wairimu fosse apresentada ao negócio da venda de sexo.

“Nós agora temos as habilidades e aprendemos que a quantidade de dinheiro que um homem paga determinará o tipo de prazer que iremos lhe oferecer. Por exemplo, fazer amor sem preservativo custará mais dinheiro do que com preservativo”, disse ela.

“A matança na minha vila ensinou-me uma lição e preparou-me para uma vida árdua, e agora não temo mais a morte”, completou. “Não temo o HIV e acredito que nós morremos quando o dia chegar, e não será a doença que determinará, mas apenas Deus.”

Wairimu aceita a ínfima quantia de 300 shillings quenianos (US$ 4,50) por uma noite inteira, por vezes com dois homens.

Os habitantes locais da costa dizem que as profissionais do sexo na região tradicionalmente costumavam abordar turistas estrangeiros, geralmente europeus. Hoje, uma queda no número de turistas após a violência pós-eleições e um número crescente de profissionais do sexo significam que qualquer homem, velho ou jovem, negro ou branco, é visto como um cliente em potencial.

Wairimu é uma entre cerca de duzentas meninas de idade entre 15 e 18 anos que agora estão inseridas no comércio sexual em tempo integral na costa queniana, segundo a organização não-governamental local Solidariedade com Mulheres em Dificuldade (SOLWODI), que sensibiliza profissionais do sexo em relação aos perigos do HIV/SIDA.

Aumento no comércio sexual infantil

O trabalho sexual infantil não é raro ao longo da costa. Um estudo de 2006 realizado pelo governo e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) revelou que até 30 por cento dos adolescentes em algumas áreas costeiras estavam envolvidos em sexo casual por dinheiro.

Agnetta Mirikau, especialista em proteção à criança junto a UNICEF Quénia, contou que a organização recebeu registos de aumento no comércio sexual infantil desde as eleições.

''As meninas optaram por vender seus corpos para ganhar dinheiro para sobreviver. Nós tentamos ao máximo convencê-las a abandonar a prostituição.''

Segundo Grace Odembo, coordenadora de campo do SOLWODI em Mombasa, a maior parte das meninas que se renderam à prostituição abandonaram os estudos, o que dificulta encontrar um emprego formal.

“As meninas optaram por vender seus corpos para ganhar dinheiro para sobreviver”, disse Odembo. “Nós tentamos ao máximo convencê-las a abandonar isso [a prostituição].”

O estudo de 2006 também revelou que 35,5 por cento de todos os actos sexuais envolvendo crianças e turistas aconteceram sem preservativo, colocando as meninas sob o risco de contrair HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. A seroprevalência na Província Costeira do Quénia é de 5,9 por cento, mais alta do que a média nacional de 5,1 por cento.

SOLWODI é responsável por aconselhamentos, programas de volta à escola e treinamento de habilidades vocacionais para raparigas que querem sair da prostituição. Desde sua formação em 1997, a organização conseguiu fazer com que cinco mil raparigas abandonassem a indústria do sexo.

Hoteleiros geralmente fazem “vista grossa” para hóspedes que levam meninas menores de idade para seus quartos, mas alguns têm uma política mais restrita quando ao sexo comercial nos suas dependências.

“Nós nunca acomodamos visitantes que tentam se registar nos nossos hotéis com raparigas que pareçam ser novas até que nos forneçam algumas informações necessárias sobre a moça”, disse Mohammed Hersi, gerente geral do Sarova White Sands Beach Hotel em Mombasa. “[Nós normalmente] descobrimos quem são as raparigas, quais são suas intenções e, o mais importante, suas idades.”

SOLWODI também treina hotéis para implementar um código de conduta existente para prevenir exploração sexual no sector de viagens e turismo, mas no final de 2007, apenas 20 hotéis haviam assinado o código de conduta.

O vice-prefeito de Mombasa, John Mcharo, afirmou que manter as raparigas fora das ruas é difícil. “Sim, nós podemos prendê-las, mas apenas acusá-las de baderna, como já fizemos antes, e isso não as impede de voltar às ruas e praias assim que saem da nossa custódia.”

Raparigas na praia geralmente usam roupa de banho, portanto, é difícil distinguir entre profissionais do sexo andando pelas praias à procura de clientes, de moças que estão simplesmente passando o dia na praia.

Policiais e líderes religiosos locais pediram ao governo que fizesse mais para impedir que raparigas menores de idade se prostituam na área.

“O governo precisa criar um programa especial que tire as meninas não só das praias, mas das ruas”, disse Sheikh Mohammed Khalifa, secretário-geral do conselho de Imams e pregadores do Quénia.

Ele acrescentou que sua organização frequentemente realizou palestras para persuadir raparigas menores de idade a abandonar a prostituição e dar a elas direcção espiritual.

O governo tem um departamento para a infância em cada distrito, responsável pela proteção de crianças contra a exploração e o abuso. Segundo Patrick Wafula, do departamento de polícia de Mombasa, grande parte do trabalho da unidade especial de turismo do departamento consiste em prender os responsáveis pelo abuso e pela exploração sexual infantil.

“Nós normalmente realizamos batidas nas áreas que suspeitamos serem pontos de encontro das raparigas e dos clientes em potencial”, afirmou.

O governo recentemente expandiu as unidades de proteção à criança em postos policiais, acrescentando-lhes oficiais da infância e melhorando serviços judiciais para que eles estejam melhor preparados para lidar com assuntos relacionados à criança.
(PlusNews – 17.07.2008 )


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