ÁFRICA DO SUL: Praga de três letras

10 07 2008

Todos sabem como o tratamento para HIV/SIDA tornou-se enfim disponível aos sul-africanos comuns. É uma história que opõe a ciência e a razão à negação e à superstição, de um longo combate onde os activistas da SIDA acabaram por vencer os políticos.

Hoje o efeito do tratamento antiretroviral (ARV) tornou-se um antídoto familiar e confortante para os anos em que se assistiu, de forma impotente, as pessoas sucumbirem ao vírus. Com o direito dos africanos pobres ao ARV estabelecido e sua capacidade de aderir a um tratamento que dura a vida toda demostrado, o novo desafio é garantir que cada africano seropositivo que necessite deste tratamento o receba.

Se tivéssemos mais médicos e enfermeiros, é o que nos dizem; se tivéssemos melhores sistemas de saúde e a vontade política necessária, poderíamos atingir a meta do acesso universal ao tratamento.

No livro Praga de Três Letras (Three-Letter Plague, em inglês), o escritor e jornalista sul-africano Jonny Steinberg examina a premissa implícita nesta meta: se o tratamento é disponível, as pessoas irão buscá-lo.

Steinberg, recusando-se a ser levado pelo zelo quase missionário ao tratamento de grupos de pressão tais como a Campanha de Acção pelo Tratamento da África do Sul e a organização médica internacional Médicos sem Fronteiras (MSF), tenta responder à questão espinhosa de saber por que tantos sul-africanos se recusam a fazer o teste HIV ou a tomar os ARVs, apesar da disponibilidade de bom tratamento.

Ele procura respostas no distrito rural de Lusikisiki, no Cabo Oriental, onde a MSF foi pioneira no uso de clínicas de saúde subutilizadas e com poucos recursos para fornecer tratamento ARV a milhares de pessoas da região. Num lugar onde os ARVs são disponíveis em clínicas locais ao invés de hospitais distantes, onde uma equipa bem treinada de conselheiros leigos apóia enfermeiras na distribuição dos medicamentos, ainda existem pessoas com doenças relacionadas à SIDA que preferem ficar em casa e morrer.

Hermann Reuter, personagem central da narrativa de Steinberg, que dirigiu o programa da MSF em Lusikisiki até o mesmo ser transferido às autoridades locais em 2006, fornece uma explicação: se uma pessoa viaja uma longa distância para chegar até um centro de saúde e ainda tem que esperar horas para ser mal-atendida ou mandada embora por uma enfermeira, ela não volta mais.

Sem investimento e adesão do governo, o alcance do programa da MSF era limitado. Reuter insiste no fato de que se as clínicas tivessem energia eléctrica e água corrente, estoques de medicamentos e equipamentos, e contassem com uma equipa de profissionais da saúde bem pagos, os pacientes afluiriam.

Com a suspeita de que a explicação de Reuter explica só parte de uma história muito mais complexa, Steinberg engaja Sizwe Magadla, 29 anos, morador da região, para ajudá-lo a investigar mais fundo.

''Não é uma doença que procuras ter. Esperas que ela venha a ti, então lidas com ela.''

Bem-sucedido proprietário de uma pequena loja, Magdla recebeu uma boa educação e é rico para os padrões deste vilarejo remoto e pobre. Ele conhece os perigos do HIV; como a maioria dos sul-africanos, ele viu pessoas próximas adoecerem e morrerem por causa do vírus. Ele também sabe que há uma grande possibilidade de que ele mesmo seja seropositivo. E apesar de tudo isto, ele recusa-se a fazer o teste.

“Não é uma doença que procuras ter”, disse ele a Steinberg. “Esperas que ela venha a ti, então lidas com ela.”

Durante os 18 meses que Steinberg passou a visitar regularmente Magadla e a usá-lo como intérprete, os motivos que o jovem rapaz lhe dá para não fazer o teste são tão contraditórios e complexos quanto o mundo onde vive.

Aos olhos de Magadla, as pessoas da região que recebem o tratamento ARV, que são a prova de que os “comprimidos mágicos” funcionam, estão em conflito com sua profunda desconfiança dos homens brancos e de sua medicina.

Ele sabe que o HIV é transmitido através de relações sexuais não protegidas, mas também acredita no poder de espíritos malignos. Ele compra uma “cura” à base de ervas para sua prima seropositiva, mas leva-a junto com seu namorado à clínica.

No mundo de Magadla, a vergonha e o medo do HIV são uma ameaça tão grande quanto o próprio vírus.

“Se eu souber que sou seropositivo, eu vou morrer mais rápido… Saber que meu sangue é sujo, sentir isto cada vez que acordo de manhã, não demoraria muito para eu morrer”, disse.

Em Praga de Três Letras, Steinberg levanta mais questões do que pode responder sobre a crise da SIDA na África do Sul e o que ela significa para o país, mas sugere que se trata de um enigma que a ciência ocidental não pode resolver sozinha. As pessoas, em toda sua complexidade, estão no centro da pandemia, e são suas esperanças e seus temores, crenças e motivações que devem ser compreendidos para que metas como o acesso universal possam ser atingidas.

(PlusNews – 09.07.2008 )


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