Em Nairobi, capital do Quénia, há uma fábrica que dá prioridade ao emprego de mulheres, ensina regras de higiene, promove acções de combate ao estigma da sida e quer plantar um milhão de árvores. A Frigoken é muito mais do que uma empresa que embala e exporta feijão-verde para a Europa
Foi o espanto de Peter Muthee com a Frigoken, e as perguntas que a si mesmo fazia, que o levaram a mudar de vida. “Eu estava fascinado com o trabalho da Frigoken, não percebia como é que eles conseguiam contratos com 45 mil agricultores.” Peter percebeu-o quando passou a trabalhar com a empresa de produção e transformação de feijão-verde, que integra o universo das indústrias da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento: “Decidi ficar porque vi todo o impacto que a empresa tinha. As pessoas eram pobres mas podem mudar a vida”.
Estamos a 40 quilómetros de Nairobi, a capital do Quénia. O vale estende-se por alguns quilómetros, entre a picada, em cima, e o rio que corre ao fundo. Verde, bordeado por bananeiras, palmeiras e outro arvoredo. O boné de Peter Muthee, de 35 anos, responsável pela relação entre a fábrica e os agricultores, parece desenhado para a ocasião: Green world, mundo verde.
Casado, um filho de sete anos, formado em Agronomia, Peter conduz-nos junto de algumas plantações. Ao todo, tem a cargo 200 centros de 300 agricultores.
Nancy afasta as folhas e corta o feijão já maduro. Cultiva feijão-verde três vezes por ano e está satisfeita com o sistema, mesmo se em 2008 o preço pago pela Frigoken não tenha subido. Mas os custos com os fornecedores também se mantiveram inalterados. A vida dela, do marido e dos filhos (dez, sete e cinco anos) depende, em grande parte, deste contrato com a Frigoken.
Haja o que houver, a Frigoken paga toda a produção – mesmo que não haja feijão, no caso de alguma catástrofe natural, por exemplo. E o pagamento é rápido: dez dias depois de entregue o feijão, diz Karim Dostmohamed, responsável da empresa. “O conceito básico é que o agricultor deve ter o retorno justo. Justo nem sempre quer dizer o melhor, mas quer dizer que fábrica e agricultor ganham ambos com a situação.”
“Elas mais responsáveis”
A Frigoken, criada em 1989 para exportar vegetais frescos para a Europa, é mais do que uma fábrica onde se embala e exporta feijão-verde. A produção é toda para países como França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica ou Holanda. Produtos da Frigoken são vendidos em Portugal pela F. Leclerc.
A empresa começou por contratar a compra de feijão a 50 agricultores. Hoje, eles são 45 mil, em todo o país. A perspectiva é chegar aos 100 mil, diversificando as variedades de vegetais.
Na fábrica, trabalham pelo menos três mil pessoas – quase todas mulheres -, além de mais 800 funcionários distribuídos pelos centros de recolha. Por vezes, quando as necessidades são maiores, recrutam-se mais pessoas.
A prioridade às mulheres tem razão de ser, mesmo se alguns homens não gostam de vê-las trabalhar. “A mulher empregada significa um suplemento no rendimento familiar. Com esse dinheiro, cresce a qualidade de vida das famílias”, diz Karim.
“Elas são mais responsáveis que os maridos a utilizar o dinheiro”, acrescenta Jim Garnett, responsável operacional e um dos dois únicos estrangeiros da empresa.
Enquanto vigia o processo de embalagem, Anne Malika, de 36 anos, mãe solteira de um filho, confirma que os doze anos na empresa lhe deram “estabilidade de vida”. Tabitha Khamala, de 35 anos e três filhos, é analista de qualidade. Quando começou na Frigoken, há dez anos, era ainda solteira. “Agora sou casada e capaz de tomar conta da família. Consigo pagar a escola dos meus filhos. Fui privilegiada por poder usar a creche da fábrica para o mais novo. Quando ele de lá saiu, a professora disse que ele estava avançado e pô-lo logo na classe seguinte.”
Através das mulheres, passam outras mensagens: há regras de higiene e de segurança alimentar repetidas. Apreendidas e reproduzidas mais facilmente através das mulheres, essas regras são levadas para casa. A empresa promove também um programa contra o HIV/sida. “Fazemos visitas ao campo para falar aos agricultores, com especialistas, médicos e enfermeiros, pessoas de organizações especializadas e mesmo alguns portadores de HIV. O objectivo é remover o estigma”, esclarece Garnett. Para completar esse processo, com a colaboração de uma organização católica, a empresa promove, cada seis meses, testes gratuitos de despistagem da doença, a quem queira fazer. “Só conhecemos os números.”
Padrões europeus
O impacto da Frigoken na economia do Quénia chega aos oito milhões de dólares (cinco milhões de euros). Multiplicando 45 mil agricultores por seis a oito pessoas em cada agregado, há mais de 300 mil pessoas que dependem da empresa – um por cento da população.
Tratado e embalado de diversas formas – fresco, enlatado, em pickles -, o cuidado com o feijão-verde começa pela qualidade das sementes. “Temos que fornecer boas sementes para ter boas colheitas”, diz Peter Muthee. Nos últimos anos, graças à Frigoken, a entidade reguladora do país passou a certificar as sementes segundo padrões europeus.
Cada agricultor trabalha o seu quinhão de terra. A Frigoken dá meios e formação – sobre sementes, qualidade e aplicação de pesticidas orgânicos. E também, de novo, sobre regras de higiene: Nancy, como qualquer outro agricultor, teve que lavar as mãos antes de fazer a colheita, por exemplo.
No meio do talhão, entre as folhas e a flor branca do feijão, há uma placa que identifica a semente e o pesticida, a data de cultivo, a variedade da planta. Se aparecer alguma reclamação do consumidor final, toda a história daquele feijão pode ser reconstituída, averiguando-se o que falhou.
Ao fundo, a água do rio permite a irrigação. Mas a utilização também é sujeita a regras: “Temos que garantir que cada pessoa usa racionalmente a água”, diz Karim Dostmohamed. Os agricultores são incentivados a partilhar o recurso e a rega. Três vezes por semana, é feita com métodos tradicionais, garantindo que ninguém usa mais do que necessita. Há regras muito estritas no Quénia sobre a utilização da água, nem sempre respeitadas pelos agricultores, mas a Frigoken faz questão de cumprir.
A casa, o rádio, a bicicleta…
Depois de colhido, o feijão-verde é levado a um dos centros em que a Frigoken recebe o produto. Sujeito a uma primeira medição e separação – o que excede as medidas ideais, é devolvido ao agricultor, para venda ou alimentação própria -, o feijão é depois pesado. Tudo fica registado numa folha que o agricultor traz consigo. Cada agricultor sabe o que entregou e o que tem a receber.
“Trata-se de fazer uma educação contínua, enquanto se insiste nos procedimentos de segurança alimentar”, explica Peter Muthee. O agricultor que acaba de chegar deixa 3,5 quilos e verifica o registo na folha, que inclui o talhão e o centro de proveniência.
No contrato, cujas cópias são guardadas no escritório do centro de recolha, tudo está explicado: preço, qualidade requerida, regras de segurança e higiene, aplicação de pesticidas. “Os agricultores podem consultar os documentos em cada momento, tudo é claro para eles e o escritório está sempre aberto”, afirma Peter.
Nos últimos dez anos, aumentou o custo dos pesticidas e fertilizantes. Mas a Frigoken optou por não fazer recair esses aumentos sobre os agricultores, diz Karim. “Cortámos as percentagens dos intermediários. Negociamos directamente com os fornecedores e não temos lucro com os agricultores.”
A terra de Nancy, tal como a de outros produtores, é uma estreita faixa que desce da estrada até ao rio. Por vezes, uma casa domina cada parcela de terreno. “Há dez anos, as casas eram de palha. Agora, são cobertas com telha”, explica Karim. Essa é a primeira melhoria que muitos escolhem para a sua vida, mal começam a sentir os efeitos monetários de trabalhar com a Frigoken. Depois, virá o rádio, a bicicleta e alguns extras: escola para os filhos, cuidados médicos…
Na fábrica, outras três mulheres contam as mudanças que o feijão-verde trouxe à sua vida: Christine Wanjiru, Beatrice Omari, Millicetn Aor. Os filhos puderam estudar, a estabilidade familiar foi garantida.
Viúva, com 55 anos e cinco filhos, Millicetn é uma das que inspeccionam o feijão que chega, entre caixas amarelas e alguidares vermelhos e azuis. “Não preciso de mendigar desde que recebo ordenado”, afirma a funcionária da Frigoken há 18 anos. As mãos seleccionam com destreza o feijão que já lhe permitiu construir uma casa, comprar uma vaca e “educar os filhos”.
Christine Wanjiru, de 42 anos e três crianças, repete a educação dos filhos como um ganho maior. Beatrice Omari, de 38 anos e igualmente com três filhos, conseguiu enfrentar outras situações com o trabalho na Frigoken: teve que ajudar o pai com os estudos das duas irmãs mais novas, que hoje têm emprego no ensino primário e na universidade. E garantiu as necessidades da própria família, já que o marido não tem emprego estável.
Autonomia nos gastos
Na Frigoken, o trabalho é meticuloso. Numa primeira divisão, o feijão é colocado em bancadas. “Estão treinadas para ver o feijão e seleccionar o que não interessa”, diz Garnett. “Podíamos fazer isto mecanicamente, mas assim garante-se mais qualidade”, acrescenta Mathias Mutisya, responsável de produção. “É um processo mais barato e mais rápido, representa 50 por cento da mão-de-obra.”
Neste movimento mecanizado das mãos, cada pessoa pode separar até cinco ou seis quilos por hora. “Elas ficam satisfeitas: são pagas ao quilo, recebem o dinheiro e levam-no para casa, o que dá autonomia para gastos”, afirma o responsável. Além disso, parte do salário é para almoçar nas imediações e comprar comida ou roupa no mercado perto da empresa, o que dinamiza também a pequena economia local.
Com o trabalho, cada pessoa pode receber duas ou mesmo três vezes o salário mínimo nacional: são sete xelins (sete cêntimos de euro) por quilo, o que pode garantir pelo menos cinco dólares por dia – o salário mínimo está em 3,5 dólares diários. Nos dias em que há menos trabalho, o pessoal roda, “para todos terem sustento”.
O vegetal é ainda colocado em pequenos tanques de lavagem. “Usa-se muita água aqui – 60 metros cúbicos por dia -, mas uma grande parte é reciclada nas casas de banho”, diz Jim Garnett. Passa-se para uma nova bancada e uma segunda selecção, já mais apurada. A partir daí, cada vagem segue o seu destino para a embalagem e o comprador a que está destinada. O processo termina na secção de empacotamento, onde já não se ouve o apito constante da fervura a que o feijão é sujeito.
Um milhão de árvores
A fábrica da Rede Aga Khan abrange outras dimensões. Na creche, a uns 50 metros da entrada principal e ao lado de um pequeno consultório, os miúdos acabaram há pouco de almoçar. Dois dormem a sesta, outros seis aprendem a utilidade de um bacio. Há pinturas dos heróis da Disney nas paredes, brinquedos e alguns colchões pelo chão.
“O que oferecemos é um ambiente saudável. Não somos uma instituição educacional, mas oferecemos alguma educação básica. Depois, as crianças vão para a escola primária, que felizmente é gratuita”, diz Jim Garnett.
As crianças podem estar aqui desde os seis meses. As mães pagam três dólares (1,90 euros) por mês, fraldas e objectos pessoais são elas que trazem. O actual edifício, duas pequenas salas para 30 miúdos, será demolido para dar lugar a uma creche para 100 crianças.
“Como noutros projectos lucrativos, ganhar dinheiro é tão importante quanto promover o desenvolvimento social e uma coisa não se concebe sem a outra na Rede Aga Khan”, comenta Faranaz Keshavjee, colunista do PÚBLICO, que acompanha o jornalista nesta viagem. “Nenhuma medida é tomada sem contemplar o ganho de todas as partes envolvidas.”
Antes, no vale, Peter falara com entusiasmo de uma outra ideia: o projecto “Um milhão de árvores”. Começou há três anos, com a plantação de cinco mil árvores; neste momento, há meio milhão. No final de 2009, talvez se chegue já a dois milhões – o dobro do inicialmente pretendido.
O programa tem objectivos precisos, explica Peter Muthee: satisfazer a procura de energia por parte dos agricultores, conter a erosão dos solos, possibilitar que cada escola utilize as suas árvores como combustível nas cozinhas e dar emprego a jovens entre os 18 e os 25 anos que irão tratar das árvores. E ainda a comercialização, já que a ideia é incluir também frutíferas.
“O mais importante é ver como tudo isto se pode tornar um modelo alargado a outros produtos – milho, cocos, algodão – que não se destinem apenas à exportação”, diz Peter, sempre com o seu boné programático na cabeça. “Um modelo que garanta a segurança alimentar no país e o emprego, e tenha preocupações ambientais e de desenvolvimento social.”
O “mundo verde” que Peter deseja não é apenas um mundo mais verde. A Frigoken é mais que uma fábrica.
O P2 viajou a convite da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento – Portugal
Moçambique. Uma fábrica para 700 mulheres
Em Moçambique, a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN) está a preparar a criação de uma empresa com um conceito semelhante ao da Frigoken: prioridade ao emprego de mulheres, aprendizagem paralela de noções de higiene e alimentação, prevenção de doenças, uma creche.
“O Governo de Moçambique pediu-nos que se pegasse numa fábrica abandonada”, explica Nazim Ahmad, representante da AKDN em Portugal. A Moztex, assim se chama o projecto, será uma unidade têxtil concebida de raiz, que arranca nos próximos meses, empregando 700 mulheres no início, depois de seis meses de formação.
A Moztex não pretende apenas o lucro, acrescenta Ahmad, mas quer competir ao mais alto nível. “O produto terá que ser de excelência. Uma pessoa que se habitua a trabalhar com excelência leva essas noções para os aspectos básicos da sua vida: sapatos e roupa limpa, cabelo arranjado, hábitos de higiene.”
No sector do turismo, os hóteis Seren, onde se integra o Polana do Maputo, desde que foi comprado em 2002, são um dos investimentos principais. Há coincidências nas preocupações: “Tentamos dar emprego, mas essencialmente criar competências técnicas, formando o indivíduo para o caso de ele ter que ir para o mercado”, diz Karim Merali, director do Polana desde Outubro de 2007.
Antes de dirigir o hotel, Merali, de 45 anos, trabalhou em empresas do sector privado. Depois, foi convidado pela Fundação Aga Khan em Cabo Delgado (Norte de Moçambique), a trabalhar no financiamento de projectos de microcrédito (ver reportagem no P2 de domingo). “Tive um choque: foi difícil adaptar-me à realidade do desenvolvimento humano, de um impacto não mensurável. Ao voltar ao privado, percebi que, mesmo com a melhor estrutura no hotel, o factor humano faz a diferença, pela competência técnica e pela capacidade de acolhimento.”
Merali entende que o objectivo principal não deve ser o emprego com baixos salários. Antes “dar emprego aumentando as competências, de modo a que os trabalhadores se tornem competitivos ou até empresários”, como aconteceu com alguns que saíram. E conta: “A primeira obra foi refazer toda a infra-estrutura do pessoal: cafetaria, balneários, lavandaria. As pessoas passaram a ter muito mais cuidado, por exemplo, com a sua roupa”.
A mensagem de excelência, diz, acaba por passar para todos os âmbitos da vida e é favorável à própria empresa: “Quanto mais investimos nas pessoas, maior é o nosso retorno. Eles são melhores profissionais, fazem melhor serviço, tornam-se capazes e competitivos, têm ideias e criatividade. E o investimento tem tido o correspondente retorno, para o investidor e para os clientes”. A.M.
(Público – 08.07.2008 )


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