GLOBAL: Quando o HIV/SIDA é um desastre?

6 07 2008

JOHANNESBURG, 3 Julho 2008 (PlusNews) – Fornecer serviços relativos a HIV/SIDA a pessoas foragidas de conflitos armados ou desastres naturais parece, à primeira vista, complicado demais quando se tenta atender às necessidades imediatas de uma emergência.

Ao falhar em tratar das pessoas afectadas pelo HIV em tais situações, no entanto, organizações de apoio poderiam estar a causar ainda mais problemas, advertiu o Relatório de Desastres Naturais de 2008, publicado em 26 de Junho pela Federação Internacional da Cruz Vermelha e Sociedades Crescentes Vermelhas (IFRC, em inglês).

O relatório deste ano focou-se em HIV/SIDA – a primeira vez em que o relatório tratou de apenas uma condição – e observou que omitir as necessidades específicas das pessoas vivendo com HIV/SIDA poderia aumentar o risco de novas infecções e “agravar condições existentes”.

De acordo com o IFRC, “a epidemia de SIDA é desastrosa em muitos níveis”, e embora seja errôneo falar em um desastre global, em cerca de 14 países ela poderia certamente ser chamada de desastre.

“Na Suazilândia, por exemplo, 26 por cento da população – um em cada quatro adultos – é seropositivo. Essa é a maior seroprevalência do mundo… Isso é um desastre.”

Mas o HIV também foi considerado um desastre para muitos grupos marginalizados em países com baixa prevalência – tais como usuários de drogas injetáveis, homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo –, onde esses grupos foram estigmatizados e frequentemente criminalizados, apresentando alto risco de infecção, segundo o IFRC.

Fugindo do conflito

À medida que o tratamento para o HIV torna-se mais difundido, organizações humanitárias deveriam preparar-se para situações de emergência nas quais milhares de pessoas em tratamento antiretroviral (ARV) são forçadas a fugir do local onde elas conseguem a medicação e os serviços, destacou o relatório.

“Independente da nossa vontade, pessoas com HIV estão a viajar com o vírus, eles são deslocados com o vírus, portanto, é preciso que a comunidade humanitária responda às suas necessidades”, afirmou Patrick Couteau, coordenador de HIV para o IFRC na África Austral.

Na África Austral, onde aproximadamente um milhão de pessoas morrem de doenças relacionadas à SIDA todo ano, deslocamento foi particularmente relevante.

Milhões de pessoas migraram na região por razões económicas ou por outras razões, enquanto milhares foram deslocadas da África do Sul devido aos recentes ataques xenófobos contra imigrantes. Muitos retornaram aos seus países de origem.

Foi esse o caso de Moçambique, que agora se vê às voltas para registar e dar assistência a milhares de cidadãos que voltaram assustados com a xenofobia do outro lado da fronteira.

O impacto de tal deslocamento foi ainda maior para moçambicanos seropositivos, que recebiam seu tratamento na África do Sul.

''Muitos chegaram debilitados, em condições críticas de saúde, alguns estavam há dias sem comer e sem os seus medicamentos.''

“Muitos chegaram debilitados, em condições críticas de saúde, alguns estavam há dias sem comer e sem os seus medicamentos”, contou Filipe Francisco Siueia, da comissão técnica do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), em Maputo.

Françoise Le Goff, director da zona da África Austral do IFRC, disse que tais transtornos são “absolutamente catastróficos” para seropositivos, que têm acesso limitado a água limpa e alimento, e não poderiam conseguir seus ARV durante o deslocamento ou vivendo em acampamentos organizados pelo governo.

“A conclusão é que nossa resposta ao HIV está falhando em acompanhar a complexidade do que ainda é um desastre em desenvolvimento, e nós ainda estamos lutando para responder eficientemente”, acrescentou Couteau.

Quando o desastre assola

2007 será lembrado como um ano particularmente ruim, com um número excepcionalmente alto de desastres naturais: na África, 23 países foram atingidos por inundações que há décadas não eram tão severas; na Ásia, dezenas de milhares foram afectados por inundações em Bangladesh, Índia, Nepal e China.

Cientistas previram que desastres naturais serão mais frequentes e intensos como resultado de mudanças climáticas.

Onde o HIV se encaixa? O relatório reconheceu que embora fosse “impossível” fazer uma relação directa entre mortalidade por HIV e desastres naturais ocorridos em 2007, “não há dúvida de que tais eventos tiveram impacto negativo nos milhões de pessoas infectadas ou afectadas pelo HIV”.

Pessoas seropositivas sofrem os mesmos impactos que todas as outras pessoas, mas certos problemas afectam-lhes ainda mais.

“Todos sofrem quando um desastre interrompe o fornecimento de medicamentos, mas para alguém que está a tomar antiretrovirais, qualquer interrupção do tratamento médico pode causar resistência ao tratamento”, enfatizou o relatório.

“A escassez de alimentos é árdua para todos, mas para uma pessoa vivendo com HIV, a má nutrição pode acelerar a progressão da infecção.

O relatório alertou que as dimensões da epidemia global poderiam ser afectadas se a mudança climática causasse significativa movimentação populacional entre áreas com níveis de prevalência de HIV muito variáveis.


Photo: Tebogo Letsie/IRIN
Assistência a seropositivos: no topo da lista?

Mas fazer com que o HIV não seja excluído da agenda de emergências é sempre um desafio quando há tantas outras prioridades urgentes.

Segundo Siueia, do INGC, em situações de desastre, as prioridades são suprir as necessidades básicas das vítimas, como água e alojamento. Outros itens, como medicamentos para seropositivos, vêm mais abaixo na lista.

Mas Amós Sibambo, coordenador da Rede Nacional de Associações de Pessoas Vivendo com HIV/SIDA (Rensida), defende que é preciso convencer as organizações de apoio de que assistir os seropositivos nessas situações também é uma emergência.

“Diante de tantas outras necessidades, o HIV se torna secundário. Mas temos que lembrar que essas pessoas escaparam do desastre, mas podem morrer por falta de ARVs”, destacou.

“Não existe consciência das organizações”, continuou. “Mesmo em situações de calma, o HIV ainda não é prioridade. Em situações de calamidade fica ainda pior.”

O IFRC incita às organizações de apoio que estão a planejar uma resposta à emergência a levar em consideração a seroprevalência na área do desastre, fortalecer a habilidade das instituições existentes de resistir ao evento catastrófico e restituir os serviços de saúde altamente necessários o mais rápido possível.

“Ao mesmo tempo, os aspectos relacionados ao desenvolvimento de respostas ao HIV devem ser levados em consideração, particularmente em áreas de risco crónico” acrescentou. “O HIV/SIDA é uma crise de longo prazo. O apoio humanitário tem um papel a desempenhar, mas as agências deveriam reconhecer que é apenas parte de uma resposta mais abrangente, e deveria ser claro quanto ao que pode e o que não pode ser alcançado”.

(PlusNews – 03.07.2008 )


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