CHIMOIO, 1 Julho 2008 (PlusNews) – O sexo entre prisioneiros é uma realidade na Cadeia Provincial de Manica, conhecida como “Cabeça de Velho”, por estar localizada nas proximidades de um monte histórico exactamente com esse formato.
“Por falta de opção, alguns homens procuram noutros homens o que deveriam receber de suas esposas ou de outras mulheres”, diz Carlos Alid, garimpeiro de 38 anos.
Preso desde 2005 por crime de falsificação de moeda, Alid ainda tem quatro anos pela frente. Ele descobriu ser seropositivo num teste voluntário na cadeia e desconfia ter sido infectado durante a reclusão.
Segundo Alid, alguns presos mais novos mantêm relações sexuais com os mais velhos em troca de comida e protecção, já que muitos são jovens pilha-galinhas e não têm apoio das famílias.
Essas relações sexuais nem sempre incluem preservativos, o que aumenta exponencialmente o risco de infecção pelo HIV.
Devido ao tabu que cerca as relações entre indivíduos do mesmo sexo, muitos presos seropositivos preferem dizer que foram infectados antes de serem detidos, uma vez que não são permitidas visitas conjugais na cadeia.
Mas a realidade é outra, diz Elsa Thaibo, directora de saúde da cidade de Chimoio, responsável por proporcionar assistência médica àquela prisão.
“Das análises que fizemos, constatamos que alguns presos foram infectados antes de serem detidos, mas a maioria foi infectada dentro da cadeia”, aponta.
HIV atrás das grades
Segundo dados oficiais da Cadeia Provincial de Manica, a maior da província, a seroprevalência na prisão é de 4,5 por cento entre os cerca de mil reclusos, entre homens e mulheres. Não há dados discriminados por sexo.
“Tem sido muito difícil manter este [visitante] do lado de fora. Não se pode vê-lo chegar e é impossível vê-lo ser transmitido”, afirma Francisco Mate, director da cadeia.
Entre Janeiro e Maio deste ano, dos 246 prisioneiros – entre homens e mulheres – examinados, 43 foram diagnosticados seropositivos. Desses, oito estão em tratamento antiretroviral (ARV).
Por falta de opção, alguns homens procuram noutros homens o que deveriam receber de suas esposas ou de outras mulheres.
Para enfrentar essa situação, o Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV e SIDA recomenda que as autoridades admitam que o sexo entre homens existe e que sejam adoptadas medidas de prevenção.
Há três anos, várias cadeias em Moçambique rejeitaram a proposta de distribuir camisinhas entre os presos, argumentando que nelas não havia homossexualismo.
“O governo já entendeu que a distribuição de preservativos na cadeia não promove o homossexualismo, mas contribui para a prevenção do HIV. Por isso, começou a distribuir camisinhas”, conta Thaibo.
Além das relações sexuais não protegidas, especialistas apontam a partilha de agulhas para a injecção de drogas e instrumentos para a tatuagem não esterilizados como factores de propagação de HIV dentro das cadeias.
“As autoridades prisionais não conseguem controlar as práticas de risco”, diz David Demo, 33 anos, na cadeia há dois, por homicídio.
Sinais de mudança
Mas nem só de camisinhas vive a prevenção.
Por causa disso, muitas organizações não-governamentais têm trabalhado com os reclusos na Cadeia Provincial de Manica.
Além de distribuir preservativos, o grupo Shinguirirai (amparo, na língua Shona) faz palestras, educação de pares, dá assistência psicológica e ajuda os presos a aderirem ao tratamento.
Rui João, 27 anos, é um dos activistas da Shinguirirai na cadeia.
Detido em 2006 na ala de alta segurança, pela morte de um vizinho, João descobriu ser seropositivo em Setembro de 2007 e começou a tomar antiretrovirais na prisão. Hoje ele divulga informações sobre a epidemia e ajuda os que estão em tratamento a seguirem as recomendações médicas.
Photo: André Catueira/PlusNews
Reclusos tomam banho de sol
“Abordamos a questão do homossexualismo e o seu impacto no agravamento dos índices de contaminação por HIV. Há muita aderência nas palestras”, conta João.
Os funcionários da cadeia também são alvo das campanhas de consciencialização.
Com o apoio do Núcleo Provincial de Combate à SIDA, a Shinguirirai organizou no ano passado formações em que funcionários e presos aprenderam como sensibilizar os seus companheiros sobre a SIDA.
Segundo João, a cadeia não oferece condições para que os seropositivos vivam de maneira saudável, com uma dieta nutritiva e ambiente adequado, o que é fundamental para o sucesso do TARV.
Algumas ONGs e instituições religiosas têm procurado suprir essas deficiências com refeições balançadas e assistência médica aos reclusos seropositivos dois sábados por mês, mas a necessidade continua.
Mesmo assim, o director Mate acredita que há sinais de mudança.
“Houve uma altura que morria-se bastante na cadeia por falta de cuidados, mas agora baixou, porque não é fácil um preso ver um colega a morrer. Aos poucos estamos a conseguir alguma coisa”, diz.
(PlusNews – 01.07.2008 )

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