DOUALA, 1 Julho 2008 (PlusNews) – Quando Clémentine Banzoat, 41 anos e mãe de dois filhos, soube que era seropositiva há nove anos, ela perdeu não somente seu companheiro, pai de seu segundo filho, mas também seu emprego.
Após vários relacionamentos que não deram certo com homens seronegativos, ela decidiu procurar um parceiro seropositivo para formar uma família.
“Eu estou à procura de um homem seropositivo, em tratamento ou não, mas em boa forma e ambicioso como eu”, disse ela. “Não está fácil de achar.”
Ela admitiu que tem medo de passar o resto de sua vida sozinha. “É muito mais fácil enfrentar a doença e compartilhar as preocupações a dois.”
Como Banzoat, muitas pessoas que vivem com o HIV têm dificuldade em encontrar o parceiro ideal, o que há três meses levou a filial da Sociedade para Mulheres e SIDA em África (SWAA) da província de Littoral a lançar um serviço de encontros.
Frédéric Alone, que dirige o programa, disse que tinham recebido “pedidos constantes e crescentes de pessoas doentes que monitorizamos” para lançar o serviço.
Uma das coordenadoras do programa, Nadège Yawé, orientadora psicossocial, já tinha começado a organizar encontros. “A coisa de que mais me orgulho é de ter conseguido formar dois casais há seis meses”, disse ela.
Embora um dos casais não tenha durado muito tempo devido a problemas financeiros, o segundo casal está cada vez mais unido. “Os dois estão realmente a realizar-se e planejam oficializar sua relação”, disse Yawé.
Ainda no estágio inicial, o serviço de encontros já registrou mais de 20 pessoas seropositivas, na maioria mulheres. “Isto não é surpresa, primeiro porque há mais mulheres do que homens seropositivos nos Camarões, e segundo porque os pacientes homens em geral não desejam ser reconhecidos”, continuou ela.
Achar um par
Os anúncios são inscritos em um livro de encontros, e quando dois perfis são compatíveis a agência convida as duas pessoas para um primeiro encontro. Se dá certo, a agência monitoriza o progresso da relação.
“O nosso envolvimento limita-se ao aconselhamento, principalmente em relação ao uso do preservativo durante as relações sexuais, e às precauções a serem tomadas se o casal deseja ter filhos”, disse Yawé.
Recomenda-se aos casais que desejam ter filhos que “pensem nos métodos modernos de procriação [como lavagem de esperma], ou que comecem o tratamento e tenham relações sexuais não protegidas somente durante o período fértil”, explicou Madelaine Mbanguè, coordenadora da unidade HIV/SIDA do hospital Laquintinie em Douala, grande porto comercial dos Camarões.
SWAA Littoral não é a única organização a encorajar o encontro de seropositivos. A maior vantagem é que as pessoas que vivem com o vírus evitam o risco de rejeição, estigma e discriminação que podem sofrer caso eles encontrem um parceiro negativo”, disse o psicólogo Guy Bertrand Tengpé.
“Ser rejeitado por seu parceiro, e sofrer a estigma e discriminação por parte das pessoas próximas cria problemas psicológicos… [que podem] levar à depressão”, disse ele. A pessoa corre o risco de “perder toda a vontade de continuar o tratamento e desenvolve mecanismos de compensação como o alcoolismo, cigarro ou drogas, que prejudicam sua saúde.”
Nem sempre melhor
Entretanto, encontrar um parceiro com o mesmo estado serológico não é garantia de um bom relacionamento. Banzaot passou recentemente por esta experiência quando separou-se de seu parceiro oito meses após o começo do namoro.
“Eu tive que terminar o relacionamento porque meu parceiro era muito infiel e não queria fazer sexo protegido”, disse ela.
Photo: Reinnier Kaze/IRIN ![]() |
| Clementine Banzoat, 41 anos e dois filhos, está em busca do amor |
Tengpé também chama atenção para o fato de que “Existe… um risco de auto-marginalização; pessoas que têm medo de ter sua seropositividade revelada… [e/ou] esperam ser discriminados, e [evitam]… relacionamentos com [pessoas seronegativas] ou outros que não foram testados.”
Mesmo reconhecendo “a intenção nobre deste tipo de iniciativa” para evitar a progapação do vírus, ele disse estar preocupado com o fato de que isto poderia “contribuir para criar ou provocar uma baixa auto-estima, uma falta de auto-confiança e de confiança na capacidade de desenvolver relacões emocionais com os outros, seja qual for o estado serológico.”
Lucie Zambou, presidente do RECAP+, rede de associações para pessoas que vivem com o HIV nos Camarões, concordou: “Eu não me oponho fundamentalmente a este tipo de relacionamento, mas [eles não deveriam], a longo prazo, criar dois mundos separados, como pessoas seropositivas de um lado, e os seronegativos do outro.”
(PlusNews – 01.07.2008 )

RSS - Posts

Comentários Recentes