PARA EDSON DA SILVA, REDE RNJVHA CONQUISTOU ESPAÇO DENTRO DO MOVIMENTO DE AIDS

1 07 2008

O VII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids, que aconteceu em Florianópolis,foi palco de mais um encontro da Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV e Aids (RNJVHA), que está sendo estruturada desde maio/2008 no curso de ativismo e cidadania, realizado em São Paulo. “O evento foi um marco na história do protagonismo juvenil em relação ao HIV e Aids porque a rede dos jovens, efetivamente, contribui com propostas e reivindicações em diversos espaços, com atores nacionais e internacionais”, avalia a psicóloga Ana Teresa de Castro Bonilha, criadora do Centro de Documentação sobre Adolescer Vivendo com o Vírus HIV (CEDOC).

Nos dias anteriores ao Congresso, boa parte desses jovens participou da III Mostra Nacional Saúde e Prevenção nas Escolas, que aconteceu na mesma cidade em 24 e 25 de junho. O ativismo dos jovens ficou explícito no final da Mostra, quando eles organizaram um protesto silencioso reivindicando maior participação dos soropositivos nas ações e estratégias do programa Saúde e Prevenção nas Escolas(saiba mais).

Os jovens militantes, de várias partes do país assinaram o manifesto de encerramento do evento, também fizeram, a pedido da Agência de Notícias da Aids, um balanço do VII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids. A seguir, a opinião de alguns deles:

Micaela Cyrino, do Centro de Documentação sobre Adolescer Vivendo com o Vírus HIV (CEDOC)

“As atividades do evento foram boas, um exemplo é o conteúdo cultural”, disse. Ela só criticou a logística do evento. Micaela considerou o transporte fornecido pela organização ruim. A jovem também reclamou da falta de uma pessoa a quem pudesse recorrer para resolver essa demanda.

Kleber Fábio, integrante da RNJ+ de Curitiba (PR)

“Muito boa [a programação do Congresso], mas frágil na questão de prevenção voltada às pessoas soropositivas, porém, os jovens vivendo com Aids ocuparam seus espaços de maneira responsável, ou seja, são grandes parceiros na luta pela prevenção. Está na hora de fazer mudanças nos paradigmas da política de prevenção que foi criada há 20 anos. Quanto ao evento foi excelente.”

Edson da Silva, do grupo Vhiver de Belo Horizonte (MG) e da RNJ+

“Esse espaço foi muito importante para o fortalecimento da Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV e Aids, ou seja, conquistamos um espaço dentro do movimento. Com isso temos conseguido levantar novas demandas dos jovens, um exemplo é a educação e a articulação de casas de apoio para jovens. A rede está articulando novas políticas públicas para as necessidades específicas dos jovens. Em relação à programação do evento, os temas abordados foi muito bom.”

Karina Ferreira da Cruz, integrante da RNJ+ e do Plantão Jovem

A jovem, assim como Micaela Cyrino, também reclamou da logística do VII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids. “O evento tem sido muito bom, apenas no primeiro dia [quarta-feira, 25 de junho] não pudemos assistir à programação pela falta de organização da transferência dos hotéis.” “E o transporte também não cumpriu horário”, acrescenta.

Léo Nogueira e Talita Martins*

*A Agência de Notícias da Aids cobriu o evento com o apoio do Programa Nacional de DST/Aids – 30.06.2008





UGANDA: Mudança traz novo risco para Karimojong

1 07 2008

Karamoja, no nordeste de Uganda, é uma sociedade remota e extremamente tradicional onde a ordem de governos sucessivos exerceram somente um impacto limitado.

Os Karimojong, criadores de gado selvagens e nômades, tinham conseguido manter um modo de vida que parecia simplesmente ignorar o resto da sociedade. Mas os tempos estão a mudar, já que cada vez mais Karimojong estão a mudar-se para as cidades para fazer comércio com estranhos.

Cerca de dois mil negociantes de todo o país – e até de distritos do vizinho Quénia – reúnem-se em Kotido, uma das maiores cidades de Karamoja, toda quarta-feira para comprar e vender gado.

“Aqui encontram-se congoleses e pessoas que vêm de Lira [cidade ao norte de Uganda] ou Mbale [cidade ao leste de Uganda], e também a UPDF [exército nacional, as Forças de Defesa do Povo de Uganda, que está a fazer um exercício de desarmamento na região]”, disse Patience Ajok, diretora do Centro Médico Igreja de Uganda, na cidade de Kotido.

Karamoja, antes tão isolada, tinha a seroprevalência mais baixa de Uganda – cerca de 0,5 por cento nos anos 90 – quando a taxa no resto do país era de dois dígitos. Hoje a prevalência é de 4,5 por cento – mais baixa do que a média nacional de 6,4 por cento – mas os centros de aconselhamento e testagem voluntária nas áreas urbanas têm registado taxas de mais de 20 por cento.

“Nas manyattas [grupos de cabanas onde famílias inteiras vivem nas áreas rurais], a taxa de infecção pelo HIV é baixa, mas nas zonas urbanas ela é alta, muito alta”, disse Ajok.

Os Karimojong são uma das poucas comunidades em Uganda a ainda manter o estilo de vida tradicional, que gira em torno das manyattas, do gado e do deslocamento dos rebanhos em função das chuvas e dos pastos verdes.

Mas uma recente inundação, seguida pela seca, provocou duas colheitas ruins e fome generalizada. A escassez de comida está a levar a população a deixar as zonas rurais e ir para as cidades, onde eles têm acesso mais fácil à distribuição gratuita de alimentos.

Com o aumento do número de pessoas a migrar para as áreas urbanas em Karamoja, há um risco maior de infecção pelo HIV.

''Nas manyattas [grupos de cabanas onde famílias inteiras vivem nas áreas rurais], a taxa de infecção pelo HIV é baixa, mas nas zonas urbanas é muito alta.''

“Nossos guerreiros mudam-se para a cidade e abandonam o vilarejo”, disse Margaret Alepar Achila, deputada do Parlamento por Kotido. “E eles estão a ficar nas zonas urbanas e não voltam mais para a manyatta.”

Na cidade, onde o Centro Médico Igreja de Uganda faz seis campanhas por mês de aconselhamento e testagem voluntária, entre 70 e 90 pessoas frequentam cada sessão. Segundo Ajok, geralmente de 10 a 15 descobrem ser seropositivos.

“O número de pessoas [infectadas pelo HIV] aumenta a cada dia”, disse ela.

Oportunidades perdidas

Apesar disto, Karamoja não se beneficiou dos programas de HIV disponíveis no resto do país.

Região instável durante anos por causa dos ataques aos rebanhos que tornaram-se cada vez mais violentos com a introdução de armas modernas, Karamoja foi excluídas das iniciativas governamentais de saúde e desenvolvimento, e pouco tem sido feito para informar sua população sobre o vírus. Os poucos centros de saúde existentes são mal equipados para lidar com a testagem, tratamento e cuidados do HIV.

Muitas pessoas em Karamoja ainda associam o HIV a bruxaria, enquanto outros o aceitam como parte da ordem natural – todo mundo deve morrer um dia, dizem eles. O estigma é grande, e mulheres que perdem seus maridos e crianças por causa do HIV são frequentemente expulsas dos vilarejos.

Nas cidades, o governo e algumas organizações não-governamentais estão a começar, com um certo atraso, a conscientizar a população sobre a epidemia. Uma recente visita do Ministro da saúde criou a esperança de que esta região seja finalmente incluída na agenda de HIV/SIDA do país.

Segundo Ajok, aos poucos as coisas estão a mudar.

“Em 2005 havia estigma”, disse ela. “Em 2006 houve uma melhora, e em 2007 as pessoas estavam a ver seus vizinhos receber cuidados e tornar-se mais fortes, e eles agora também querem estes serviços.”

(PlusNews – 30.06.2008 )