MOÇAMBIQUE: Pela rádio, os perigos da vida real

30 06 2008

A nossa conversa pelo telefone é interrompida por uma manchete no jornal do dia.

Gabriel Fossati-Bellani, coordenador da organização não-governamental sul-africana Mídia Comunitária para Desenvolvimento (CMFD, em inglês) em Moçambique, lê em voz alta: “Jovens instrumentalizadas aguardam regresso à casa”.

A notícia é sobre três jovens moçambicanas traficadas de Maputo a Pretória, capital sul-africana, onde foram vítimas de exploração sexual.

Segundo o artigo, as raparigas “estão completamente recuperadas do trauma psicológico e físico causado durante os dois meses em que estiveram no cativeiro.”

Bellani não consegue esconder a indignação.

“Como elas podem estar ´completamente recuperadas`? Isso desvaloriza o tipo de trauma que pode acontecer para uma traficada e minimiza o mal desse tipo de acontecimento”, protesta.

Bellani sabe do que fala. Ele é o coordenador do programa Troco, uma rádionovela lançada, em Moçambique, este mês e que trata exactamente do tráfico de pessoas.

Na trama, uma rapariga é aliciada pelo tio, com a promessa de um emprego numa loja de roupas na África do Sul. Ela acaba por ser traficada e explorada sexualmente, até que a sua mãe e a tia descobrem o que acontece e vão buscá-la.

Com a ajuda de uma assistente social da Organização Internacional para as Migrações (OIM), ela é resgatada. Uma amiga da protagonista, também traficada e a trabalhar num bordel clandestino, descobre estar grávida e ser seropositiva.

HIV na trama

Apesar de não ser o tema principal, a inclusão do HIV na história explicita os riscos trazidos pela migração, especialmente a ilegal.

“A pessoa fica dependente de quem ajuda e fica exposta a abusos, inclusive sexual, o que traz o risco de infecção pelo HIV”, explica Nely Chimedza, coordenadora do Programa de Assistência Contra o Tráfico na África Austral da OIM.

Segundo Chimedza, a maioria das vítimas dos traficantes são raparigas entre 16 e 25 anos, que acreditam que terão emprego ou oportunidade de estudo noutro país.

''A pessoa fica dependente de quem ajuda e fica exposta a abusos, inclusive sexual, o que traz o risco de infecção pelo HIV.''

O relatório Sedução, Venda e Escravatura: Tráfico de Mulheres e Crianças para a Exploração Sexual na África Austral, publicado pela OIM em 2003, identificou Moçambique como um dos principais países de onde mulheres e crianças são traficadas para a África do Sul.

“A trama é representativa do que acontece na realidade”, diz Chimedza.

Idealizada para ser transmitida na Zâmbia e em Moçambique e originalmente escrita em inglês, a rádionovela teve que ser adaptada à realidade moçambicana, tanto em termos de linguagem quanto em aspectos culturais.

O novo roteiro passou pelo crivo de grupos focais, formados por representantes da mídia e do público, para avaliar se a linguagem e a forma de difusão eram adequadas.

O tema delicado não assustou os 18 actores envolvidos no programa, que já estavam acostumados a trabalhar com questões difíceis, mas era a primeira vez que representavam uma trama sobre o tráfico humano.

“Ouvíamos falar coisas através da Internet e sabíamos que esse problema existia”, explica Carlos Chirindza, director artístico do programa e representante da Companhia Cultural Hopangalatana. “Mas não sabíamos que era nesse nível.”

“Incluir o HIV nessa trama é importante, mesmo que não com destaque. Só o facto de se falar do assunto já leva as pessoas a pensarem”, diz.

Meio mais eficaz

Chirindza, que também trabalha com outras formas de expressão, como teatro, acredita que a rádio é extremamente eficaz.

“A rádionovela tem muito impacto, porque ainda se ouve muito rádio aqui. Existem muitas zonas com rádios comunitárias”, destaca Chirindza.

Segundo Chimedza, da OIM, a rádio é o meio mais apropriado para atingir o público-alvo de Troco: pessoas vulneráveis e de poucas posses, que possam ser vítimas do tráfico de humanos.


Photo: Gabriel Fossati-Bellani/CMFD
Ator faz papel de chefe da máfia, um dos vilões da história

O programa será transmitido inicialmente por rádios de Maputo. Serão dois episódios por semana, num total de 13 semanas. Cada capítulo dura cerca de seis minutos.

Resgatada, a protagonista de Troco volta a Moçambique e retoma a sua vida, com o apoio da família e da comunidade. Mas a vida real é mais dura do que na rádio.

“Depois que a vítima volta, a reintegração é difícil e exige aconselhamento. Várias delas têm vergonha, porque muitos pensam que as vítimas do tráfico são pessoas de vida fácil”, diz Chimedza.

O HIV é uma das dificuldades, já que muitas raparigas são abusadas sexualmente e são obrigadas a trabalhar em bordéis.

“Nós sempre aconselhamos que elas façam o teste de HIV”, conta.

Já existe interesse em ampliar a transmissão de Troco para outros países lusófonos em África a partir da RDP-África, em Lisboa.

(PlusNews – 27.06.2008 )


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