O HIV afectou as nossas vidas, nossas famílias, nossas economias; ele também molda a nossa maneira de falar.
O IRIN/PlusNews observou como o vírus e o seu impacto se traduzem nas conversas do dia-a-dia, das ruas de Lagos até os subúrbios de Johannesburg, e concluiu que apesar de biliões de dólares gastos em estratégias de comunicação positiva, o discurso nas ruas continua decididamente negativo.
Em língua Shona, no Zimbábue, falada por cerca de 80 por cento da população, o calão é chamado de chibhende. Segundo Robert Muponde, professor sénior de estudos de Inglês na Universidade de Witswatersrand, na África do Sul, a expressão diz muita coisa sobre como o HIV é entendido e assimilado.
“Chibhende significa falar de alguma coisa indirectamente, para não revelar o seu disfarce, ou para falar dela mais confortavelmente”, disse.
No Zimbábue, o HIV é muitas vezes chamado de ladrão (matsotsi). Se és seropositivo, as pessoas podem dizer que foste assaltado, ou Akarohwa nematsotsi em Shona, segundo Muponde. A frase dá uma ideia de como o vírus é entendido – como um ataque furtivo – mas também cria espaço para discussão que de outro modo poderia não existir.
“É difícil falar de sexo numa língua tímida como Shona,”, disse Muponde. “O calão torna mais fácil dizer o indizível ao fazê-lo parecer acessível e banal.”
Felicity Horne, pesquisadora de SIDA e linguagem na Universidade da África do Sul, concordou, dizendo que enquanto muitas comunidades lutaram para formalmente quebrar o silêncio sobre HIV e SIDA, termos informais ou calão para a pandemia proliferavam e começavam a construir uma resposta à pandemia.
“A linguagem não pode nem ser separada dos nossos pensamentos e sentimentos, nem do contexto social em que ela é usada,” disse ela. “Palavras e imagens criam realidades conceptuais diferentes do fenómeno.”
Organizações como a SAfAIDS, um serviço de disseminação de informação sobre HIV/SIDA na África Austral sediado no Zimbábue, diz que o calão usado para designar o vírus – que é quase sempre negativo – reforça o estigma e fatalismo que provou ser difícil de erradicar durante os 25 anos de advocacia.
O IRIN/PlusNews compilou uma curta lista das maneiras como as pessoas se referem ao HIV/SIDA no continente.
Angola (Português)
Pisar na mina - Contrair HIV é como “pisar numa mina”
Bichinho - “Um pequeno bicho” (o vírus)
Quénia (Kikuyu, falado principalmente no centro do país)
kagunyo - “O verme” (eufemismo para HIV)
Nigéria (Hausa, falada principalmente no norte)
Kabari Salama aalaiku - Literalmente traduzido por “Com licença, sepultura” (referência à SIDA)
Tewo Zamani - Traduzido como a “doença desta geração” (outra referência à SIDA)
Nigéria (Igbo, falada principalmenteno Leste)
Ato nai ise - “Cinco e três” (5 + 3 = 8, e “oito”, em inglês, soa como AIDS)
Oria Obiri na aja ocha - “Doença que termina em morte” (eufemismo para SIDA)
Nigéria (Yoruba, falada principalmente no ocidente)
Eedi - “Maldição”
Arun ti ogbogun - “Doença sem cura”
Nigéria (Pidgin, a lingua franca não-oficial)
He don carry - “Ele carrega o vírus”
Nigéria (Inglês)
HIV – Ele Pretende Vitória (He Intends Victory, em inglês. As iniciais formam a sigla de HIV. Trata-se também de uma frase popular entre cristãos renascidos)
África do Sul (IsiXhosa and IsiZulu)
Udlala ilotto - “Jogar na loteria” /ubambe ilotto – “ganhaste a loteria” (diz-se de alguém suspeito de ser seropositivo)
Unyathele icable - Contrair HIV é como “pisar no cabo electrificado”
África do Sul (Inglês)
House in Vereeniging - Sigla de HIV, a tradução é casa em Vereeniging. “Compraste uma casa em Vereeniging”, cidade a cerca de 50km a sul de Joanesburgo, refere-se a alguém suspeito de ser seropositivo)
Driving a “Z3″/ “having three kids”/ the “three letters” - Dirigir uma “Z3”, ter “três filhos”, as “três letras”. Todas se referem às letras da sigla HIV
Tracker - Rastreador. Se és suspeito de ser seropositivo as pessoas dizem que Deus está a te rastrear, como o popular serviço na África Austral de rastreamento e recuperação de veículos roubados.
Tanzânia (KiSwahili)
amesimamia msumari - “Ficar em pé em cima de um prego”; eufemismo para estar magro, ou de estar suficientemente pequeno para caber na cabeça de um prego, referindo-se à perda de peso relacionada à SIDA.
kukanyaga miwaya - Contrair HIV á como “pisar um cabo electrificado”
mdudu - “O bicho” (refere-se ao HIV)
Uganda (Inglês)
Slim - Magro. Eufemismo para HIV/SIDA como resultado da perda de peso associada à doença; menos popular desde o advento dos antiretroviriais (ARVs)
Uganda (Luganda, falada principalmente na região central)
Okugwa mubatemu - Foste emboscado por ladrões (contraiu HIV)
Zâmbia (Nyanja, falada principalmente no Leste e na capital, Lusaka)
Kanayaka - “Acendeu” (refere-se à reacção positiva do teste de HIV)
Ka-onde-onde - “Coisa que te faz cada vez mais magro” (HIV)
Zâmbia (Bemba, falada principalmente no norte e em Lusaka)
Bamalwele ya akashishi - “Os que sofrem do germe” (seropositivos)
Kaleza - “Lâmina” (refere-se à pessoa estar magro devido à perda de peso associada a SIDA)
Zimbábue (Shona)
Ari pachirongwa - “Ele está em programa de tratamento”
Akarohwa nematsoti - “Ele foi atingido por ladrões”
Mukondas - Abreviatura de “mukondombera” (epidemia)
Ari kumwa mangai - “Ele está a beber mangai” (mangai são sementes fervidas de milhos, que representam ARVs)
Akabatwa - “Ele foi pego” (recebeu um diagnóstico positivo)
Zvirwere zvemazuvano - “As doenças actuais” (a epidemia do HIV)
Akatsika banana - “Ele(a) pisou numa banana e escorregou” (alguém que testou seropositivo e por isso vai “cair” ou morrer em resultado disso)
Shuramatongo - “má premonição para os familiares”
Zimbábue (Inglês)
Red card - Cartão vermelho. Como um jogador de futebol que é expulso do campo, a vida acabou
Go slow - Significa que ele está a caminhar progressivamente para a morte
TB2 - Refere-se à alta taxa de co-infecçao por HIV e tuberculose (usada para significar SIDA)
RVR - Calão para ARVs, adaptada do veículo desportivo da Mitsubishi RVR
John the Baptist - João Batista. Quando alguém tem TB, diz-se que ele foi baptizado por “João Baptista”, que veio anunciar a vinda do HIV.
FTT - A tradução é “Incapacidade de prosperar” (adaptado da frase médica, agora usada para falar de crianças seropositivas)
Boarding pass - Cartão de embarque. Significa que o HIV é passaporte para a morte
Departure lounge - Sala de embarque. Uma pessoa infectada pelo HIV está na sala de embarque à espera da morte.
O PlusNews está interessado em ouvir se podes melhorar este glossário. Por favor envia os teus exemplos, com uma breve descrição do significado e onde o calão é usado, para o email@plusnews.org
(PlusNews – 27.06.2008 )


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