Foi atravessando uma cadeia de montanhas para Moçambique que Khuda Mutchato, 27 anos, recobrou sua esperança de viver.
A jovem zimbabueana ficou viúva em 2006. Passou a viver com parentes de seu falecido marido na província de Manicaland, na fronteira do Zimbábue com Moçambique, mas eles passaram a rejeitá-la quando ela descobriu ser seropositiva.
“Eu vivia um drama de discriminação incrível, até que fui girada para a rua. Eles tinham medo de mim, porque estava doente. Já não me tocavam nem cozinhavam mais para mim”, conta.
Fora de casa a situação era ainda pior: inflação descontrolada e uma profunda recessão económica no Zimbábue tornavam ainda mais difícil conseguir os já escassos alimentos e antiretrovirais.
Mutchato só viu uma solução para seu problema.
“Optei por passar todos os perigos de atravessar as montanhas à noite e fugir dos guardas da fronteira para chegar a Moçambique e conseguir antiretrovirais”, diz a jovem viúva, que deixou para trás o trabalho de secretária numa fábrica de argilas.
Apesar de não haver dados oficiais, estima-se que mais de 100 zimbabueanos estejam em tratamento ARV na província de Manica, região central de Moçambique.
Mutchato é uma dessas pessoas. Ela cruza a fronteira para receber seus medicamentos e depois volta ao Zimbábue, onde ela dificilmente conseguiria tratamento gratuito.
“Há um êxodo de zimbabueanos que vem à procura de tratamento da SIDA em Moçambique, porque o nosso governo disponibiliza as drogas gratuitamente”, afirma Aarão Uaquiço, coordenador do núcleo provincial de combate à SIDA.
“Apesar de serem estrangeiros, nós acomodamos todos os pacientes, sem discriminação de proveniência”, disse Inga Nicole, médica chefe distrital.
Expansão do tratamento
Com uma seroprevalência de 23 por cento, o distrito de Manica é um dos mais afectados pela SIDA na província de mesmo nome.
Isso é resultado, em parte, de sua localização: Manica fica no corredor que liga Zimbábue, Malaui e Botsuana, países cujos índices de infecção estão entre os mais altos do mundo.
Por causa disso, as autoridades de saúde no distrito têm procurado expandir os serviços de tratamento.
Até Maio quatro novos postos de saúde-satélites haviam sido implantados nos postos administrativos de Machipanda, Méssica, Vanduzi, além do que já funciona junto do hospital distrital de Manica.
O objectivo é facilitar o acesso das comunidades rurais aos serviços de testagem e tratamento, já que as distâncias – e, portanto, os custos de deslocação – diminuem.
“É muito mau que doentes crónicos tenham que se deslocar dezenas de quilómetros para chegar aos serviços de tratamento e ou para buscar um medicamento”, disse Nicole. “Assim vamos poder atender mais pessoas que precisam do tratamento.”
Moçambique tem uma seroprevalência nacional de 16,2 por cento. Calcula-se actualmente que 100 mil seropositivos recebem tratamento ARV gratuito no país contra sete mil em 2005.
O tratamento custa ao governo moçambicano US$ 50 por pessoa por ano, indicam as autoridades sanitárias do país.
“Agora me sinto bem melhor, diferente como me sentia antes de consumir os medicamentos”, comemora Mutchato, hospedada na casa de uma amiga de infância no bairro de Darlington, em Mutare, província de Manicaland.
Cruzando a fronteira
A expansão dos serviços para o posto fronteiriço de Machipanda está a atrair cada vez mais os zimbabueanos que vivem nos arredores de Mutare, já que são menos de 10 km para adquirir as drogas do lado moçambicano.
Segundo as estatísticas de migração em Manica, desde a supressão de vistos de entrada entre os dois países em Outubro de 2007 o número de zimbabueanos a cruzar a fronteira para Moçambique está a crescer.
Calcula-se que 400 zimbabueanos entrem diariamente para Moçambique, dos quais apenas 85 por cento regressam. Os vistos de entrada permitem uma permanência de 30 dias no outro país.
Segundo Alberto Limeme, chefe do posto fronteiriço de Machipanda, até Maio mais de 60 mil zimbabueanos haviam atravessado legalmente as três fronteiras de Manica, principalmente em Machipanda, contra menos de mil entradas no mesmo período em 2007.
Manica e Mutare partilham 500 km de fronteira, uma das mais extensas da região. A linha fronteiriça é controlada por cerca de 60 guardas, que muitas vezes patrulham a pé.
Falta pessoal médico
Apesar de ter a segunda seroprevalência mais alta da província, falta pessoal qualificado para lidar com a epidemia no distrito de Manica.
Actualmente o distrito tem 10 pessoas especializadas em tratamento antiretroviral, sendo dois médicos, quatro técnicos de medicina e quatro enfermeiros do serviço materno-infantil.
“Temos respondido à altura possível”, desabafa a médica Nicole.
Só no hospital distrital de Manica, mais de 80 pessoas procuram o tratamento antiretroviral diariamente, incluindo uma média de 10 crianças.
Mas mesmo com o peso sobre os serviços de saúde, as autoridades governamentais garantem que haverá ARVs para todos nesse ponto de Manica.
“Sabemos que a vinda de zimbabueanos é uma pressão para os serviços de saúde e para a economia, mas garantimos que nunca haverá falta de medicamentos para ninguém”, conclui Uaquiço.
(PlusNews – 24.06.2008 )
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