MOÇAMBIQUE: Conduzindo à prevenção do HIV

19 06 2008

São cinco horas da manhã e do estacionamento do bairro da Liberdade, cidade da Matola, saem em fila os transportes semi-colectivos de passageiros, conhecidos como chapas, rumo à estação de partida para o centro da cidade de Maputo.

A regra é a de sempre. Os assentos da frente, ao lado do condutor, são geralmente reservados a passageiros do sexo feminino, de preferência raparigas jovens. Os homens sentam-se nos bancos de trás.

Lucas Macucule, 28 anos, é casado e conduz um chapa que sai de Liberdade para Anjo Voador, baixa da cidade de Maputo. Diz que conhece muitas mulheres diariamente.

“Conheço mais ou menos dez mulheres por dia. Dessas, pelo menos duas aceitam sair comigo depois de despegar. Dependendo de mim, por vezes não uso preservativo”, diz.

Macucule é condutor de chapas desde 2003 e a maioria das mulheres com quem já se relacionou eram suas passageiras.

“Agora que estou casado diminui o número de namoradas de rua. Só tenho três amiguinhas fixas. Com as outras não quero compromisso”, conta.

Carona

Chandinho, 32 anos, é outro transportador da praça. Entre seus passageiros existe a categoria dos que viajam de carona, normalmente mulheres – algumas por serem suas namoradas, outras que ele pretende que sejam.

“No meu carro há moças de quem não cobro. Geralmente são minhas damas. Eu dou boléia e em troca elas saem comigo”, revelou Chandinho.

Algumas raparigas que falaram ao PlusNews confessaram que por vezes se envolvem com condutores para não pagar as viagens.

Ivete Basílio, 22 anos, é estudante da 10a classe do ensino geral. Mora no bairro da Liberdade e estuda no centro da cidade de Maputo. Toma o mesmo chapa todos os dias para ir e voltar da escola, mas não paga nada por ser namorada do condutor.

“O chapa está caro e não posso pagar 15 meticais por dia. Os meus pais também não podem. O meu amigo leva-me sem pagar nada”, disse.

Grupo vulnerável

Apesar de ser um fenómeno comum, não há dados oficiais sobre a vulnerabilidade dos condutores de chapas em Moçambique.

''Conheço dez mulheres por dia. Dessas pelo menos duas aceitam sair comigo depois de despegar. Dependendo de mim, não uso preservativo.''

“Não sabemos de estudos específicos em relação aos condutores de chapas, mas sabemos que camionistas de longo curso e mukheristas [mulheres que transportam produtos para comercialização] constituem, sim, um grande risco”, disse Ivo Cuambana, gestor de programas do Conselho Nacional de Combate ao SIDA (CNCS).

Mesmo assim, Cuambana não descarta a hipótese de que condutores e cobradores de chapas também sejam um grupo vulnerável. Segundo o Conselho Municipal de Maputo, existem cerca de 2.300 chapas licenciados a circular, sem contar os ilegais.

Por isso, o CNCS financiou um projecto para sensibilizar condutores, cobradores e proprietários dos carros e disseminar a informação sobre a epidemia dentro dos carros.

“A idéia é usar o chapa como um veículo de informação sobre SIDA”, disse Cuambana.

Elaborado em parceria pela Associação dos Transportadores Rodoviários de Maputo (ATROMAP) e pela organização não-governamental ECOSIDA, o projecto recém-lançado hoje atinge mais de trezentas pessoas, entre proprietários dos carros, motoristas e cobradores.

Eles assistem a palestras e peças teatrais sobre prevenção do HIV, que acontecem nos principais terminais dos transportes da cidade de Maputo e arredores. Nessas ocasiões, são também distribuídos panfletos informativos e camisinhas.


Photo: Boaventura Monjane/PlusNews
Fila de chapas: de olho no trânsito e na prevenção

“Recusar que nossos sócios, assim como os motoristas, não correm risco na estrada seria fechar os olhos a uma realidade evidente”, disse Raquel Viera, vice-presidente da ATROMAP.

Moçambique, com uma população de quase 20 milhões, tem uma seroprevalência nacional de 16 por cento.

Boa aceitação

Segundo Viera, a iniciativa tem sido bem aceita.

“Alguns condutores e cobradores ainda encaram as actividades com cepticismo, mas a maioria está a responder à expectativa. As palestras, por exemplo, são muito concorridas”, disse.

O motorista Carlos Mudjoi, 35 anos, diz que tira muitas lições do projecto.

“É muito positivo. Aproveito para ouvir sobre SIDA e aprendo muito. Em casa não tenho tempo para sentar e assistir programas sobre HIV. Mas aqui aproveito”, contou.
(PlusNews – 19. 06.2008 )


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