No ano passado, o futuro de Camille Liu* parecia promissor. Ele conhecera uma mulher – “o par perfeito” – enquanto trabalhava em Moçambique como eletricista. Eles apaixonaram-se, decidiram mudar-se para seu país natal, Maurícia, casar e ter filhos.
Mas quando Anna Magurra* chegou à tropical ilha do oceano Índico, pronta para aceitar o pedido de casamento de seu noivo, alguns empecilhos burocráticos atrapalharam os planos deles de casamento – entre eles, um teste de HIV.
O resultado de sua noiva voltou positivo. “Eu fiquei em choque, arrasado, profundamente triste e apavorado”, relatou Liu.
Alguns dias depois, oficiais do governo informaram-lhes de que não seriam autorizados a casar-se e que Magurra deveria deixar o país dentro de dias.
De acordo com a lei das ilhas Maurícias, todos os estrangeiros que queiram se casar com cidadãos maurícios devem fazer o teste de HIV e, caso sejam seropositivos, são deportados para seus países de origem.
No começo deste ano, no entanto, o governo emendou a legislação, e o casal agora se pode casar legalmente.
Luta para se casar
Sentado num café na capital Port Louis, Liu, um sino-maurício nos seus 30 e poucos anos parece feliz e tranquilo para um homem que vai se casar essa semana.
“Após o enorme choque, eu consegui me recuperar”, disse. “Prometi que lutaria e faria tudo para casar-me com ela e ajudá-la a ficar comigo na Maurícia.”
Liu procurou Dhiren Moher, um activista da SIDA, e uma das poucas pessoas no país que assumiram publicamente sua seropositividade. Moher lançou, então, uma campanha para que o governo mudasse suas políticas discriminatórias.
Mas a luta ainda não acabou. A Maurícia ainda possui leis que proíbem aos estrangeiros seropositivos obter visto de trabalho. Moher está a interceder para que o Estado mude a lei.
O casamento de Liu e Magurra será uma cerimônia pequena, apenas com familiares mais próximos, que têm apoiado a batalha do casal.
Os vizinhos não sabem da situação, e o casal sabe que o estigma é outra batalha ainda por vencer num país onde pouquíssimas pessoas falam abertamente de sua condição.
“Queremos manter esse segredo para que a vida seja um pouco mais tranquila”, disse Liu.
A ilha do oceano Índico tem uma seroprevalência estimada de 1,8 por cento, mas o problema crescente das drogas no país coloca muitas pessoas em risco.
O uso de drogas constitui 92 por cento dos novos casos de infecção pelo HIV na Maurícia. Em 2002, esse índice era de 14 por cento.
“Essas leis, como a que proíbe pessoas de casar com estrangeiros seropositivos, não ajudam de maneira alguma a resolver o problema da SIDA”, disse Nicolas Ritter, um activista junto ao grupo local anti-SIDA Prevenção, Intervenção, Luta contra a SIDA (Prevention, Intervention, Lutte contre le SIDA, em francês).
“Essa lei discrimina as pessoas e priva-as dos seus direitos mais básicos”, disse Ritter, uma das primeiras pessoas na Maurícia a assumir sua seropositividade publicamente.
*nomes fictícios
(PlusNews – 18.06.2008 )

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