Após um terceiro dia que não havia sido programado, a reunião de alto nível das Nações Unidas sobre a SIDA terminou em 12 de Junho com reclamações da sociedade civil sobre a falta de uma verdadeira parceria com os governos na resposta à pandemia.
A reunião, à qual estiveram presentes centenas de representantes governamentais, incluindo vários presidentes africanos, e activistas da SIDA de todo o mundo, foi uma oportunidade de cobrar dos governos mais esforços para cumprir as metas de prevenção, tratamento, cuidados e apoio em relação ao HIV, estabelecidas na Sessão Especial da Assembléia Geral das Nações Unidas (UNGASS) em 2001.
“Um maior envolvimento da sociedade civil tem sido identificado pelas Nações Unidas como uma estratégia crítica na resposta à SIDA… A participação da sociedade civil em delegações nacionais oficiais deve ser efectiva, não somente simbólica”, afirmou a Declaração da Sociedade Civil que foi assinada por cerca de 100 grupos.
“A verdadeira parceria entre doadores, governos, sociedade civil, agências da ONU e as populações afetadas requer um equilíbrio de poder no processo de decisão. Apenas através de uma parceria genuína poderemos superar os desafios e alcançar o acesso universal à prevenção, tratamento, cuidados e apoio a todos até 2010”, continua a declaração.
Os assinantes incluíram a Aliança de SIDA e Direitos para a África Austral, a Associação de Mulheres Vivendo com HIV/SIDA da Nigéria, a Rede de Pessoas Vivendo com HIV/SIDA no Lesoto, a Coalizão pelo Serviço e Cura das Mulheres da África do Sul, a Rede Ugandense de Jovens Vivendo com HIV/SIDA, a Campanha de Acção pelo Tratamento da África do Sul, e Simão Cacumba Faria, uma associação em Angola.
A declaração exprimiu a decepção quanto ao fato de poucos chefes de estado terem participado da reunião e de muitos governos não terem revelado a realidade da epidemia do HIV/SIDA em seus relatórios nacionais de progresso apresentados ao UNGASS este ano.
Olayide Akanni, da Coalizão da Sociedade Civil Africana em HIV/Sida e Jornalistas contra a SIDA, uma organização não-governamental (ONG) nigeriana, ressaltou que alguns governos simplesmente não apresentaram o relatório nacional de progresso.
“Isto é inadmissível. Foi combinado que cada governo deveria manter a ONU atualizada com informações sobre o progresso realizado e alguns governos não o fizeram”, disse ela.
Espaço pouco dividido
Embora alguns participantes tenham tido a impressão de que a sociedade civil teve mais espaço para divulgar suas opiniões que na última reunião da UNGASS em 2006, eles também se preocuparam com o fato de os governos terem se esforçado pouco para dividir esse espaço.
Inês Gaspar, activista da ONG angolana Luta pela Vihda, diz que Angola precisa de uma representação de mais alto nível nos fóruns internacionais.
“Países como Moçambique, Togo, Burkina-Faso foram representados pelos seus próprios presidentes, mas nós não”, ressaltou. “Se o alto governo não está envolvido na discussão, não sabemos quais são suas prioridades, suas ações e a sociedade civil não pode cobrar.”
Segundo ela, não adianta apenas parabenizar as organizações não-governamentais por seus esforços – cena que se repetiu inúmeras vezes durante a reunião. “Os governos sabem que a sociedade civil é uma parceira indispensável, mas precisam dar mais autonomia para que ela possa agir”, destacou.
“Nos eventos paralelos era como se estivéssemos falando sozinhos”, disse Gcebile Ndlovu, coordenadora da Comunidade Internacional de Mulheres vivendo com HIV/SIDA na Suazilândia.
Ndlovu também ressaltou que alguns países, inclusive a Suazilândia, que tem a maior seroprevalência do mundo, não incluíram nenhum representante da sociedade civil em suas delegações governamentais. “Era para ser um evento de parceria, mas não pode existir parceira a nível global se a parceria não existir a nível nacional”, disse.
Força da resposta global
A declaração final, resultado da reunião de 2006, foi considerada pela maioria dos grupos da sociedade civil como muito enfraquecida pela tentativa de alcançar um consenso entre países com atitudes e prioridades conflitantes.
Na reunião deste um discurso de encerramento feito pelo presidente da Assembléia Geral da ONU, Srgjan Kerim, resumiu alguns dos temas mais importantes abordados nas discussões sobre como construir sobre os atuais esforços para alcançar o acesso universal em 2010.
Ele enfatizou a importância da liderança e prestação de contas dos governos – tanto a nível nacional quanto local – e reiterou que uma resposta efectiva à pandemia deve ter como base o respeito dos direitos humanos e da igualdade de géneros.
“Não podemos perder a força da resposta global”, disse Kerim.
No fim do ano passado, segundo o último relatório da ONU, três milhões de pessoas tinham acesso ao tratamento antiretroviral em países de média e baixa renda – um aumento de quase um milhão em relação a 2006, mas que representa somente 31 por cento dos que precisam do tratamento.
(PlusNews – 19.06.2008 )


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