Americanas juntas há 55 anos foram escolhidas pelo prefeito de San Francisco para inaugurar matrimônio homossexual de plenos direitos
A história de amor entre Phillys Lyon, de 87 anos, e Del Martin, de 83, vem de 55 anos atrás, um tempo em que mulheres homossexuais se candidatavam a serem presas, perderem o emprego ou mesmo a serem “tratadas” com choques elétricos, como se fazia com pacientes psiquiátricos. Na noite de ontem, estavam prontas a se tornarem o primeiro casal de mesmo sexo a receber das mãos do prefeito Gavin Newsom o certificado oficial de união civil. A cerimônia privada estava prevista para as 18h (22h em Brasília), na sede da prefeitura da “capital GAY” dos Estados Unidos. Uma hora antes, no primeiro minuto de vigência da lei que oficializa o casamento homossexual na Califórnia, Robin Tyler, de 66 anos, trocaria alianças em Los Angeles com Diane Olson, de 55 – depois de uma espera de 30 anos.
Os dois casais de mulheres foram os únicos agendados para o primeiro dia da lei revolucionária, que só tem precedentes em Massachusetts, antigo reduto liberal, mas onde a medida só entra em vigor dentro de três meses. Phillys e Del já tinham ensaiado o “sim” quatro anos atrás, quando o prefeito Newsom decidiu emitir certificados legais de união para casais homossexuais. As pioneiras e outros 4 mil pares chegaram a receber o documento, mas a Suprema Corte da Califórnia decidiu não reconhecer a decisão unilateral de San Francisco. Passados quatro anos, no mês passado a mesma instância judicial acolheu recurso delas e de outros casais, dando sinal verde para o casamento GAY inclusive para quem venha de outros estados, embora sem o reconhecimento da Justiça federal.
“Isso era uma coisa que nós queríamos saber: chegará mesmo a acontecer?”, emocionou-se Phyllis quando a cerimônia foi remarcada. “Agora, está acontecendo.” Ela e a companheira foram escolhidas por Newsom para o simbólico primeiro matrimônio não apenas como reconhecimento pela idade avançada e pelo amor duradouro, mas principalmente pelo compromisso das duas veteranas com a causa dos direitos dos homossexuais. Em 1955, Phyllis, Del e mais seis mulheres fundaram em San Francisco o clube Filhas de Bilitis, que veio a se transformar na primeira organização nacional de lésbicas. À parte suas memórias, as duas guardam documentos do FBI (polícia federal dos EUA) que atestam não apenas a militância, mas as perseguições que tiveram de superar.
Nome aos bois
A roteirista e produtora artística Robin Tyler, que milita pelos direitos dos homossexuais desde os anos 1970, sente-se especialmente realizada pelo fato de a nova lei da Califórnia reconhecer aos casais de mesmo sexo status idêntico ao dos pares heterossexuais. “Igualdade não é dar outro nome para nossa relação, como a ’sociedade doméstica’ que já existe, igualdade é dar a nós também o nome de ‘matrimônio’”, disse. “Se o direito pleno de se casar é negado aos gays e lésbicas, isso constitui discriminação.”
A Califórnia, estado mais populoso dos EUA, com 37 milhões de habitantes, tem mais de 100 mil casais de mesmo sexo vivendo em união estável, segundo um recente estudo universitário. Ativistas dos direitos homossexuais acreditam que até metade desses pares deve oficializar o casamento nos próximos três anos. Nova Jersey e Vermont já têm leis estaduais estendendo aos gays e lésbicas os direitos reconhecidos no casamento civil, mas sem o nome oficial de “matrimônio”. Mas, apesar da tradição liberal e alternativa dos californianos, o cardeal-arcebispo (católico) de Los Angeles, Roger Mahony, voltou ontem à carga contra a decisão da Justiça. “O significado do casamento está profundamente enraizado na história e na cultura, e foi consideravelmente moldado pelas tradições cristãs”, diz uma nota da arquidiocese. “É um sentido que foi dado a nós, e não construído por nós.”
Cérebros parecidos
A ciência acaba de dar um passo rumo a uma explicação para o homossexualismo, ainda que muitos especialistas creiam que essa condição é determinada pela genética. Estudiosos do Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia), descobriram importantes semelhanças entre os cérebros de homens gays e mulheres heterossexuais, e entre lésbicas e homens hetero. Por meio de ressonância magnética e da tomografia de emissão de posítrons, eles constataram que os cérebros de lésbicas e de homens heterossexuais são levemente assimétricos e apresentam o hemisfério direito maior que o esquerdo. Conclusões parecidas surgiram quando os cientistas mapearam a conectividade na amígdala, a região cerebral envolvida na linguagem emocional e na ativação da resposta “corra ou fuja”. Por sua vez, os hemisférios cerebrais de homens gays e de mulheres heterossexuais são praticamente idênticos.
As características compartilhadas pelo cérebro de homens gays e mulheres heterossexuais envolvem as regiões responsáveis pela emoção, pelo humor e pela ansiedade. “As observações não podem ser facilmente atribuídas à percepção ou ao comportamento”, escreveram os cientistas suecos. “Se elas estão ou não relacionadas a processos obscuros durante o desenvolvimento fetal ou pós-natal é uma questão em aberto”, acrescentaram. Ao todo, os pesquisadores mapearam o cérebro de 90 voluntários – 25 homens heterossexuais, 25 mulheres heterossexuais, 20 homens gays e 20 lésbicas.
(Correio Brasiliense – 17.06.2008)
RSS - Posts

Comentários Recentes