O recente suicídio de um aluno da escola secundária na Província Noroeste do Quénia, após ter sido diagnosticado seropositivo, colocou em evidência a falta de conselheiros qualificados na região, e a urgência de tratar-se das informações incorretas e do estigma relacionados ao vírus.
“Nas escolas daqui não existe um trabalho sério de conscientização e aconselhamento dos alunos; a pouca informação que eles têm vem de campanhas públicas, dos filmes ou da media”, disse um dos professores que preferiu o anonimato.
Segundo algumas fontes, em Abril o aluno visitou um centro de aconselhamento e testagem voluntária (CATV), dirigido somente por um técnico de laboratório júnior. Ele recebeu seu resultado sem aconselhamento algum. Pouco depois, ele ingeriu uma dose letal de pesticida e morreu.
“O resultado veio como uma sentença de morte para ele; ele não foi aconselhado nem recebeu palavras confortantes, por isso pensou que o resutado positivo era o fim da sua vida”, disse o professor. “É possível também que ele tenha tido medo de ser isolado pela comunidade.”
As declarações de seus colegas revelam atitudes em relação ao HIV que podem ter contribuído à decisão deste aluno de suicidar-se.
“Eu sinto muito pela família, mas não por ele”, disse um deles. “Ele morreu porque cometeu um pecado muito sério [sexo fora do casamento] e cometeu um segundo pecado ainda mais grave ao suicidar-se. Ele foi diretamente para o inferno.”
Hassan Adan, coordenador do programa HIV da província, disse que o estigma e a falta de conselheiros adequados estão a prejudicar os esforços no contrôle do HIV na província, que foi a única do país a registar um aumento na prevalência do HIV em 2007.
Embora a seroprevalência ainda esteja entre as mais baixas do país – 1,4 por cento, comparado à média nacional, que é de 5,1 por cento, segundo o Conselho Nacional de Controlo da SIDA no Quénia – a região tem também a taxa mais baixa de uso do preservativo por sua população de mais de um milhão de habitantes.
“Temos 16 CATVs na Província noroeste, mas somente nove estão a funcionar funcionam; pedimos ao governo que nos ajude a contratar conselheiros e aumentar o número de centros”, disse Adam.
O governo, em parceria com organizações não governamentais locais, começou a fornecer veículos especiais equipados para levar serviços de testagem e aconselhamento às comunidades rurais. No momento, tais serviços só são disponíveis em hospitais de distrito e sub-distrito.
Profissionais de saúde locais afirmam que expandir o serviço de testagem não vai necessariamente persuadir mais pessoas a fazer o teste. A conjunção de uma cultura extrememente conservadora e do grau de alfabetização mais baixo do país – somente oito por cento – tornam a educação sobre o HIV na Província Noroeste muito difícil.
“A maioria dos moradores da região acredita que o HIV só afeta as pessoas que são amaldiçoadas; [é] uma forma de punição e significa o fim da vida para qualquer um que receba um resultado positivo”, disse um enfermeiro e conselheiro do CATV Bulla Iftin na capital da província, Garissa.
O enfermeiro, que preferiu o anonimato, disse que a maioria dos habitantes de Garissa ainda rejeita os CATVs por medo de serem considerados imorais se forem vistos frequentando um deles.
“Temos muito poucos CATVs na Província Noroeste, mas eles nunca estão lotados”, disse. “A maior parte do tempo não conseguimos convencer uma só pessoa para testar ou aconselhar durante uma semana inteira.”
(PlusNews – 11.06.2008 )
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