É domingo e termina mais uma celebração eucarística na paróquia de São Joaquim, no bairro da Munhuana, na periferia da cidade de Maputo.
Enquanto o padre despede-se dos fiéis, um grupo de mulheres reúne-se numa das salas da pequena paróquia para seu encontro semanal, onde tratarão de temas que a princípio não têm nada de religiosos: sexualidade e SIDA.
Trata-se de uma cena cada vez mais comum nas igrejas de Moçambique.
Embora os púlpitos ainda sejam território quase que exclusivamente masculino e a Bíblia traga passagens sobre a submissão feminina, a seroprevalência de 16 por cento está a fazer com que a figura da mulher na igreja seja reavaliada no âmbito da epidemia.
“A Bíblia diz que Deus fez o homem e a mulher a sua imagem e semelhança. A Bíblia não discrimina a mulher”, diz Felicidade Chirinda, pastora da Igreja Presbiteriana de Moçambique.
Formar mulheres
Por causa disso, Chirinda fundou no ano passado a associação religiosa Wa nsati Pfuka (Mulher, desperte!, na língua shangana), que hoje congrega 40 membros, metade deles seropositivos.
Financiada pela organização cristã francesa CEVAA, a Wa nsati Pfuka investe na formação de mulheres. Entre suas áreas de actuação estão actividades de alfabetização, auxílio a crianças e projectos de geração de renda.
O HIV é uma das frentes de trabalho mais fortes da associação.
As mulheres – algumas seropositivas, outras não – se encontram uma vez por semana para discutir como e onde serão feitas as próximas campanhas de sensibilização de HIV/SIDA na comunidade.
Segundo Chirinda, foi na associação que muitas mulheres que hoje são activistas receberam a informação sobre o HIV/SIDA.
“No começo, nós visitávamos as casas do bairro. Encontrávamos doentes e tentávamos convencê-los de ir ao hospital. Por vezes até dávamos o dinheiro do transporte”, conta. “Foi assim que muitas mulheres descobriram ser seropositivas. Vieram para cá e hoje elas são activistas.”
Carmina Macandzi, 47 anos, é prova de que a educação sobre tais tópicos pode render bons resultados. Seropositiva e membro da Wa nsati Pfuka, ela só entendeu a importância de quebrar o silêncio depois de uma capacitação recebida na associação.
“Compreendi que ao falar do meu estado ajudava a sociedade a perceber a doença”, disse Macandzi, que faz questão de enfatizar o apoio do grupo. “Se continuasse fechada continuaria a discriminar-me. Agora ajudo-me a mim própria e aos outros.”
Hoje, Macandzi participa de esforços de prevenção que extrapolam os limites paroquiais: hospitais, escolas, famílias e comunidades são alvos de campanhas para testagem voluntária, aconselhamento e cuidados domiciliários.
Para Stella Pinto, oficial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em Maputo, formar a mulher em matérias ligadas a sexualidade e SIDA dentro da igreja é cada vez mais necessário.
“A mulher e a rapariga devem ter o mesmo tratamento que os homens. É importante apostar na sua educação e capacitação”, defende.
Mais vulneráveis
Elvira Honwana, 43 anos, também é activista da Wa nsati Pfuka e membro da Igreja Presbiteriana.
Seropositiva desde 2004, ela faz campanhas de prevenção dentro e fora da igreja, mas precisa adaptar seu discurso. Fora da igreja, por exemplo, ela bate na tecla do uso do preservativo, mas dentro do templo a situação é outra.
“Na igreja não é aconselhável falar de camisinhas, porque a Bíblia prega a fidelidade”, explica. “Eu às vezes falo de camisinhas dentro da igreja, sabendo que não devo falar. Mas temos que fugir de algumas leis da igreja para nos prevenirmos contra o HIV.”
Honwana explica que educar as mulheres é essencial para diminuir sua vulnerabilidade.
Photo: Lilian Liang/PlusNews ![]() |
| Desperte, mulher! é o lema da associação fundada pela pastora Felicidade Chirinda |
“Como existem muito mais mulheres do que homens em Moçambique, às vezes um homem tem duas, três, até quatro parceiras”, diz. “Por isso temos que fugir um bocado das leis [e falar de camisinhas], porque senão é a mulher quem sofre.”
Segundo ela, as mulheres deveriam ter mais espaço para falar do HIV dentro da igreja por terem mais facilidade para lidar com o assunto.
“A mulher tem mais facilidade de falar e aceitar que o homem. Quando ela fica sabendo que é seropositiva, ela se trata e consegue viver. Os homens não aceitam, não querem nem saber”, diz.
Para a pastora Chirinda, a actuação das mulheres dentro da igreja em relação à epidemia já começa a se fazer notar. Muitas igrejas já convidaram o grupo para falar sobre o HIV, durante o culto e em palestras.
Em uma ocasião, um pastor até perguntou se Chirinda não poderia trazer uma equipa de testagem para testar sua congregação.
Mesmo assim, ainda existe um longo caminho pela frente.
“É difícil falar de HIV dentro da igreja, mas não podemos calar. Nossos crentes estão morrendo. Se não falarmos, vamos perder terreno para a doença”, diz.
(PlusNews – 06.06.2008 )
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