O médico especialista em VIH/sida Eugénio Teófilo defende que o uso do preservativo também é obrigatório no casamento, para inverter o aumento de casos de mulheres infectadas pelos maridos. Uma sugestão que os sexólogos consideram irrealista.
“Temos actualmente um grupo dramático: as mulheres casadas. Defendo que todas as mulheres casadas devem usar sempre o preservativo com os maridos”, declarou, em entrevista à agência Lusa, o médico do Hospital dos Capuchos.
Na prática clínica de Eugénio Teófilo surgem cada vez mais mulheres infectadas pelos maridos, sem que elas tenham tido qualquer comportamento de risco. É-lhes transmitido o vírus porque os maridos tiveram relações sexuais desprotegidas com outras pessoas.
Consciente de que o uso do preservativo nestes casos “mexe muito com a instituição pesada que é o casamento”, o especialista sublinha contudo que a relação de confiança habitual entre cônjuges não é suficiente para prevenir a transmissão da doença.
“Há muitas mulheres em que o veículo de transmissão é o marido, nalguns casos em casamentos de muitos anos. Temos de perceber como conseguimos atingir este grupo em termos de prevenção, mas isso mexe muito com a nossa estrutura social”, comenta.
Para o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz não é realista esperar que o uso do preservativo no casamento venha a acontecer e a generalizar-se.
“A resistência ao preservativo é infelizmente a regra, mesmo em situações reconhecidas como de risco, imagine no casamento, em teoria monogâmico, com os respectivos passados a serem decretados seguros”, comentou à Lusa.
Apesar de compreender o desejo e apelo do médico Eugénio Teófilo, o sexólogo lembra ainda que “muitas mulheres vivem em relações assimétricas de poder”, o que as impede de “impor essa prática”.
“Do parceiro que teve um comportamento de risco não se pode esperar muito, pois a sugestão de uso do preservativo equivaleria a uma confissão da `escorregadela` [traição]“, acrescenta.
No entanto, para Júlio Machado Vaz o uso do preservativo no casamento pode não interferir em nada na qualidade das relações sexuais: “As consequências do uso do preservativo dependem da atitude de ambos perante o método – da completa normalidade à “certeza” de perda de prazer”.
Também a sexólogo Marta Crawford considera que passar de uma situação em que não se usa preservativo nem nos momentos de maior risco para o uso generalizado no casamento é “um passo muito grande e quase impossível de concretizar”.
A especialista lembrou os dados de um estudo divulgado há um mês pelo Instituto de Ciências Sociais, que mostrou que mais de metade dos portugueses não usa preservativo na primeira relação sexual com o parceiro recente.
“Tendo em conta este estudo parece-me que é muito difícil dar este passo”, disse à Lusa.
A questão mais complicada de ultrapassar para introduzir o preservativo no casamento é, na sua opinião, a questão da confiança: “passar a usar o preservativo numa relação estável já constituída vai fazer surgir o tema da desconfiança”.
Mas Marta Crawford lamenta que em Portugal haja a imagem de que o “preservativo é só para usar com alguém que não se conhece” e diz que para alterar esta situação é necessário fazer passar a mensagem de que o “amor e a paixão não são suficientemente fortes para prevenir infecções”.
(RTP – 04.06.2008 )
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