Ser enfermeira no Sizwe Hospital, especializado em tratamento de pacientes infectados com tipos de tuberculose (TB) resistentes a medicamentos, requer frieza e uma natureza disposta a perdoar.
Cecelia Mngomezulu, a enfermeira-chefe do hospital, já sofreu abuso verbal, já tomou cusparadas, já foi atacada e já foi feita refém durante os dois anos em que trabalhou lá.
“Às vezes fico aborrecida com eles, mas algo me alerta que no final das contas essa pessoa está projectando, então, coloco-me no lugar deles e vejo-me voltando para ajudar”, diz ela.
O hospital, situado num complexo da era colonial em crescimento, num bairro tranquilo de Johannesburg, é o único centro de referência na província de Gauteng para tratamento de TB resistente a multidroga (MDR), ou seja, que apresenta resistência aos medicamentos de primeira linha e pode levar até dois anos de tratamento.
Os pacientes com TB extensivamente resistente a drogas (XDR), que é resistente à maior parte dos medicamentos de segunda linha e pode levar mais tempo de tratamento, também são trazidos a esse hospital.
A TB resistente a medicamentos, representa uma ameaça especialmente séria à saúde pública num país como a África do Sul, onde quase uma em cada cinco pessoas é infectada por HIV. Os seropositivos são 50 vezes mais susceptíveis a contrair TB.
Política de isolamento
A política do departamento de saúde da África do Sul é tratar todos os pacientes de MDR-TB em unidades especiais isoladas, tais como Sizwe, até que não apresentem mais risco de contaminação.
O período mínimo que os pacientes devem passar longe de suas famílias, trabalhos e lares é de seis meses, mas alguns estão no Sizwe já há dois anos. Familiares são autorizados a visitar, e há jogos, salas de televisão e outras actividades para evitar o tédio e a depressão, mas as frustrações ainda são frequentemente descontadas nos funcionários.
“Eles tentam fazer-nos sentir culpados, como se os estivéssemos encarcerando contra a vontade deles”, afirmou Mngomezulu. “Eles dirão, ‘Você pode ir para casa e ver seus filhos, e eu? Você não tem sentimentos?` No entanto, estamos pensando justamente em suas famílias, que podem ser infectadas se eles forem liberados”.
O grau de rigidez com que instituições como Sizwe mantêm seus pacientes contra sua vontade é incerto. Segundo a directora executiva Rianna Louw, os pacientes são atendidos nas clínicas locais e assinam um formulário de consentimento antes de serem admitidos.
“Há problemas relacionados a isso, porque alguns pacientes dirão que não foram devidamente informados e que não sabiam que iriam permanecer internados por tanto tempo”, informou. “É uma internação voluntária no sentido de que não estamos trazendo os pacientes à força com ajuda da polícia, mas nos termos da política, todos os pacientes de MDR devem ser internados – é uma doença infecciosa.”
Na semana passada, vários pacientes do Sizwe tiveram que ser temporariamente transferidos para um hospital em Pretória após tornarem-se agressivos. Um jornal local, The Star, registou que os pacientes descontentes estão dizendo que o hospital “quebrou promessas demais”.
Louw atribui tais incidentes às expectativas pouco realistas dos pacientes sobre a extensão de sua estadia no hospital.
“Eu acredito que haja a expectativa de que eles só vão permanecer aqui por seis meses, mas isso é o mínimo, na realidade. A política é que nós os liberemos quando eles obtiverem resultado negativo”, o que significa que não transmitem mais a doença.
Xavier Padanilam, director médico do hospital, explicou que um paciente deve obter resultado negativo em dois exames de cultura antes de ser considerado não-infeccioso. Só então ele pode ser autorizado a completar o tratamento como paciente externo.
Um exame de cultura leva até oito semanas para produzir resultados, portanto, o paciente deve ser não-infeccioso por até quatro meses antes de ser autorizado a voltar para casa.
Desafio para contratar novos funcionários
A experiência de Mngomezulu como refém aconteceu no começo deste ano.
“Eles tinham cacetetes, barras de ferro e tijolos que eles pegaram em algum lugar, e diziam ‘Você não vai para casa.’ Seguraram-me das quatro [da tarde] até a polícia chegar às sete”, recordou. “Por incrível que pareça eu não estava assustada. Eles procuram intimidar bastante.”
A maioria dos funcionários já sofreu abuso verbal ou até mesmo físico dos pacientes, disse Louw.
“Os pacientes quase sempre respeitam os profissionais, mas às vezes acontece que esse respeito desaparece em função da raiva e frustração”, disse ela, acrescentando que tais sentimentos frequentemente surgem por eles não poderem estar com suas famílias em casa.
O hospital tem um quadro geral de sete médicos, mas cerca de 20 por cento das vagas de enfermagem profissional estão em aberto, apesar da mesada especial que o departamento de saúde da província ofereceu recentemente como incentivo para trabalhar lá.
“É um desafio grande recrutar novos funcionários”, disse Mngomezulu. “Saber que se trata de um hospital de MDR causa medo do desconhecido. Para nós que já estamos aqui não há problema, porque sabemos com o que estamos lidando.”
Photo: Siegfried/IRIN ![]() |
| Relação médico-paciente nem sempre fácil em hospital de TB |
Todos os funcionários usam máscaras protectoras e têm acesso a uma clínica de bem-estar aberta diariamente para os empregados.
“Em termos de educação dos funcionários, eles sabem que se forem seropositivos têm maior chance de contrair TB”, afirmou Louw. “Em função da confidencialidade, não podemos excluir pessoas portadoras de HIV de trabalhar aqui, mas nós as encorajamos a fazer o exame e a nos informar”.
As enfermeiras ocasionalmente contraem TB apesar da precaução, mas nenhuma delas tem MDR-TB.
Mngomezulu teve TB antes de vir para Sizwe, mas não foi desencorajada pelo risco de contrair a doença novamente.
“Vir para cá foi um jeito de ser um exemplo, de mostrar que você pode se curar se cumprir com o tratamento”, disse ela. “Por ter sofrido, eu sei como é ter os suores noturnos e a dor no peito e ter que lembrar de tomar os comprimidos”.
(PlusNews – 05.06.2008 )


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