SÃO TOMÉ, 2 Junho 2008 (PlusNews) – Os desenhos ocupam mais da metade de cada página. Nada de muitas palavras. Os textos são simples e directos, e todas as explicações vêm com ilustrações didácticas.
O que a princípio pode soar como um livro infantil destina-se na verdade ao público adulto. A publicação O que é VIH?, produzida pela organização não-governamental são-tomense ADRA, traz informações básicas sobre o HIV, como definição, formas de infecção e prevenção.
O livro faz parte do Projecto Aware, em funcionamento desde 2006 e cujo foco principal é a saúde. Nesse contexto, o HIV e a SIDA não poderiam ser deixados de fora.
Na costa do Gabão, esse pequeno arquipélago junto à linha do Equador tem uma seroprevalência de 1,5 por cento. Os baixos índices, no entanto, não desencorajam os esforços de prevenção.
Segundo Jordão das Neves, responsável pela distribuição dos livros na ilha do Príncipe, a ideia é “passar a informação correcta e estimular a mudança de comportamento”.
Dividir o conhecimento
A tiragem inicial foi de cerca de mil exemplares. Os livros foram distribuídos no distrito de Caué, na zona sul da ilha de São Tomé, e em Pagué, na ilha do Príncipe, regiões identificadas como as que mais precisavam de informações sobre o tema.
Cada família da comunidade recebeu um livro. Escolas secundárias, associações de jovens, bibliotecas, centros culturais e postos de saúde também receberam exemplares.
“Dar um livro a cada família foi uma opção, porque eram poucos para tanta gente”, disse Vlademir Almeida, responsável da ADRA pelos trabalhos em Caué.
João Nascimento Laudino, 54 anos e pai de seis filhos, é líder comunitário de Praia Pesqueira, em Caué. Ele passou por uma formação para utilizar melhor o livro e fazer a sensibilização das pessoas de sua comunidade.
“Eu aprendi algumas coisas com esse livro, como usar o preservativo. O desenho mostra bem. Aprendi que não é só por conviver com alguém com SIDA que se pega, e que nem é só através das relações sexuais que se transmite. E eu passei esse conhecimento para a comunidade”, disse.
Preservativo: sim ou não?
Antes da distribuição da publicação nas comunidades de Caué foi feito um inquérito para identificar os assuntos mais polémicos ou sobre as quais a população tinha menos informação.
Uma das conclusões foi de que existe uma grande relutância quanto ao uso dos preservativos.
“Por isso pedimos aos agentes que, quando formassem os líderes comunitários, enfatizassem o uso do preservativo”, disse Américo Pinto, delegado de saúde de Caué.
Laudino aconselha os moradores de sua comunidade, sobretudo os mais jovens, a usarem o preservativo, mas ele prefere fazer parte do grupo adepto do “corpo a corpo”.
“Nunca usei preservativo com minha mulher. Ela diz que se colocar ela vai morrer porque pode ficar lá dentro”, contou. “Quando arranjo mulher fora, às vezes uso, mas com minha mulher, não.”
Nem ele nem sua mulher já se submeteram ao teste de HIV.
Já Acácio Martins, 39 anos e morador da mesma comunidade, diz usar sempre o preservativo, pois além de lhes proteger também evita que tenham mais filhos.
“Usar o preservativo é uma forma também de não engravidar, porque hoje em dia ter muitos filhos é muito caro”, disse Martins, que já é pai de seis crianças.
Na prática
O livro foi bem recebido pelas comunidades.
Para Martins, O que é VIH? é muito bom pois ensina sobre algo de que ele só tinha ouvido falar.
“Nós ouvimos muita coisa [sobre o HIV] e o livro diz-nos como proteger dele. Eu já sentei com minha mulher para lermos e ela também achou que é importante ter esse livro connosco”, acrescentou.
Para quem não sabia ler, as próprias ilustrações já eram fontes de informações. Houve também quem pedisse aos filhos que lhes lessem o que estava escrito.
A discussão promovida pelo livro mostrou também o grau de desinformação da população.
“Já andei em todas as casas da comunidade e a reacção das pessoas ao livro foi boa, mas elas disseram que doença vem da cidade e, como eles não estão lá, não apanham”, disse Laudino.
Para a enfermeira Ana Ferreira, do centro médico da capital do distrito de Caué, essas atitudes mostram que, apesar de haver mais informação, ainda existe “um pensamento atrasado ou mesmo um certo desleixo quanto à gravidade do assunto”.
Photo: Edlena Barros/PlusNews ![]() |
| Pouco texto, muitas ilustrações: livro traz bê-a-bá do HIV |
Em Caué, apenas sete pessoas foram diagnosticadas com o HIV desde a década de 80. Todas já morreram. Actualmente não há nenhum paciente em tratamento.
Agora está a ser elaborado um novo inquérito, nos dois distritos, para saber se houve uma mudança de comportamento e de mentalidade depois da distribuição da publicação.
Para garantir que o livro tenha uma vida útil prolongada, seus autores inseriram no final um calendário que vai até 2011. Medida simples, mas que pode ajudar muitos nos próximos três anos.
“Foi uma estratégia elaborar o livro com o calendário até esse ano, pois assim a pessoa tem a tendência de estimá-lo mais até 2011”, disse Jordão, da ADRA.
(PlusNews – 02.06.2008 )

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