MANZINI, 28 Maio 2008 (PlusNews) – Por que preservativos são tão impopulares? Essa questão frustrou e desencorajou especialistas da área da saúde por uma década, mas na Suazilândia o mistério pelo qual homens e mulheres se recusam a usar preservativos está lentamente sendo desvendado por um projecto que está a fazer com que homens suazi falem sobre o uso – ou a falta de uso – do preservativo.
Muito já foi dito e escrito sobre os mitos e equívocos que inibem o uso de preservativos, mas pouco foi feito para reflectir essas realidades em campanhas já existentes de educação e prevenção do HIV/SIDA.
Actualmente, uma iniciativa liderada pelo activista e profissional de saúde Hanni Dlamini e o Conselho Nacional de Emergência em HIV/SIDA (NERCHA, em inglês), órgão governamental que financia organizações voltadas à epidemia, espera mudar essa realidade tentando entender a origem das atitudes dos homens em relação à saúde sexual.
A primeira Pesquisa Demográfica da Saúde da Suazilândia, em 2007, observou que 26 por cento dos suazis sexualmente activos estavam infectados pelo HIV. Embora quase 99 por cento dos participantes tenham dito saber sobre a doença, quase a metade admitiu ter múltiplos parceiros sexuais e manter relações sem preservativo.
“Os homens na Suazilândia não usam preservativos. Preservativos são distribuídos por toda parte, mas não são usados”, disse Dlamini.
Nos últimos três anos, o projecto NERCHA cobriu duas das quatro regiões da Suazilândia: a central e populosa Manzini, núcleo comercial do país, e a região Hhohho no Norte, onde a capital, Mbabane, está localizada. Os próximos no itinerário são Shiselweni no Sul e Lubombo no Leste.
O programa adoptou uma abordagem tradicional para comunicação, em vez do método padrão com uso de questionários para colectar informações. Para fazer com que os homens falassem, Dlamini e o dramaturgo Modison Magagula observaram os costumes tradicionais suazi que ainda são muito praticados pelos homens suazi em áreas rurais e entendidos por todos os homens suazi.
“Nós recriamos o sihonco, que consiste num cerco, como o que se faz para o gado, aonde os homens vão para assar a carne, fumar ervas tradicionais e conversar. As mulheres não entram no sihonco, assim como por costume os homens não entram nas cabanas especiais das mulheres. Nós chamamos o programa de educação sobre a SIDA de ‘kudliwe inhloko’ que é uma expressão siswati que significa o momento em que os homens sentam juntos e conversam entre si”, explicou Dlamini.
O grupo teatral de Magagula apresenta uma peça sobre determinados assuntos, tal como homens envolvidos com raparigas menores de idade, para estimular a discussão.
Cerca de oito mil homens já participaram até agora, mas os organizadores pretendem fazer com que esse projecto continue e eventualmente atinja todos os homens suazi, para informá-los dos factos sobre a SIDA e combater a pressão da sociedade e os mitos prevalentes sobre a doença.
Hannie Dlamini comentou que as informações erradas transmitidas boca a boca frequentemente preenchem a ausência de conhecimentos correctos, porque não há educadores de saúde que reúnam-se regularmente com as comunidades, especialmente em áreas rurais remotas.
O que os homens realmente pensam?
“O resultado desse projecto não foram estatísticas, mas entendimento: por que os homens se comportam de determinada maneira, quais são suas crenças”, disse Wiseman Dlamini, oficial do projecto NERCHA na região de Manzini.
Os homens na Suazilândia não usam preservativos. Preservativos são distribuídos por toda a parte, mas não são usados. |
Hannie Dlamini diz que as anedotas mostram um impressionante padrão de similaridade. “Os homens dão muitas razões para não usar preservativo, mas são apenas desculpas. O problema é que os preservativos nunca foram devidamente apresentados aos homens”, afirmou.
Como resultado, os homens suazi são sugestionados a adotar mitos contra o preservativo como razão para rejeitar o que eles consideram uma intrusão externa e anti-natural à sua vida sexual.
“Um mito que nós ouvimos muito é de que os preservativos foram criados para destruir a virilidade africana; além disso, eles dizem que o gel nos preservativos diminuem o tamanho e a duração da ereção”, informou Dlamini.
Reações alérgicas ao preservativo foram outra desculpa comum.
“Alguns homens estão desenvolvendo erupções cutâneas e outros problemas. Isso realmente está a acontecer com eles. Mas os outros homens vêem isso e decidem que preservativos são perigosos. Se um homem fica com alergia significa que a comunidade inteira não os usará”, afirmou Dlamini.
“Nós avisamos aos homens que se eles tiverem problemas com os preservativos de borracha látex, a mulher deve usar um preservativo feminino, feito de plástico. Mas até as mulheres suazi têm medo de usar o preservativo. Os homens envergonham-se com a sugestão. Se as mulheres não os usam, os homens também não vão querer usar”, observou.
Entediado e casado
Relacionamentos fora do casamento também são discutidos nas reuniões dos homens. De acordo com os homens que participaram, dormir sempre com a mesma mulher fez com que eles perdessem o interesse em sexo.
“Eles não tem mais ereções porque dormem com a mesma mulher todos os dias, então os homens procuram diversão com outras mulheres”, esclarece Dlamini.
Renovar o entusiasmo no casamento é um desafio para casais no mundo inteiro, e embora aconselhamento de casais não seja o objectivo do projecto de Dlamini, as medidas de prevenção da SIDA terão que levar em conta tais descobertas.
“No passado, poligamia era a maneira dos homens suazi evitarem o tédio na vida sexual. Por razões financeiras, essa opção não é mais a opção que era antigamente, portanto, há a necessidade de manter a chama acesa entre o homem e a mulher casados para evitar que ele traia”, disse a conselheira sobre a SIDA Patricia Dube.
Será que esse projecto fará diferença? Dlamini é franco e realista em sua avaliação.
“É verdade que as pessoas ouvem, mas depois de dois dias já pensam de outra forma. Eles esquecem. São influenciados por seus amigos. Os homens ouvem quando falamos com eles, mas amanhã eles farão exatamente o que faziam antes”, concluiu.
Ele disse que para o progresso ser alcançado, é necessário que as campanhas educativas sejam regulares nas comunidades.
NERCHA, o Ministério da Saúde e Bem-Estar Social e as organizações não-governamentais voltadas à SIDA analisarão os resultados para encontrar possíveis meios de promover uma mudança de comportamento.
Para Dlamini, se o ponto de vista e as preocupações das pessoas comuns tivessem sido considerados desde o início da epidemia, soluções mais eficientes teriam sido encontradas, talvez até mesmo se atingindo o difícil objectivo da mudança de comportamento.
(PlusNews – 28.05.2008 )
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