ANGOLA: Invisíveis e vulneráveis

27 05 2008

LUANDA, 27 Maio 2008 (PlusNews) – Foi uma “boda de arromba”, com direito a festa no Clube Marítimo, na Ilha de Luanda, e noite de núpcias cinco estrelas no Hotel Presidente Meridien.

A cerimônia foi destaque nos jornais angolanos. “Pouca vergonha” estampava a capa de um dos semanários. “Abominável” era a manchete de outro.

O casal angolano Bruno e Chano pagou um alto preço por tornar público o seu relacionamento homossexual.

Os dois se conheceram quando eram vizinhos nas Bês, bairro de Luanda. Após três anos e meio de relacionamento, os dois rapazes decidiram realizar uma cerimônia para oficializar a relação, ainda que não de forma legal.

Em 6 de Maio de 2005, Aleksander Gregório, o Chano, 21 anos, e Bruno, conhecido como Bruna, 23 anos, assinaram uma espécie de termo de responsabilidade, na presença de um conservador já aposentado.

Todos os detalhes da cerimônia foram discutidos nos mínimos detalhes nos jornais e nas rodas de conversa: o fato de Bruna ter usado um vestido de noiva, a lista de convidados da festa e, principalmente, a vida sexual do casal.

Os jornais utilizaram termos como “asco e repulsa” e sobretudo “falta de vergonha” para descrever a relação dos dois rapazes.

Apesar dos ataques, Chano e Bruna resistiram e continuam juntos, após cinco anos de relacionamento.

O amor que não ousa dizer seu nome

Dados do estudo epidemiológico de 2007 do Instituto Nacional de Luta contra a SIDA (INLS) mostram que cinco por cento das infecções por HIV em Angola acontecem por vias homossexuais.

Porém, os números não tornam o assunto menos tabu.

Para o antropólogo Américo Kwanonoka, a homossexualidade é vista como um atentado às leis da natureza devido à origem bantu da maioria da população angolana, que defende a perpetuação e o alargamento da família.

Segundo Kwanonoka, por não formar família, o homossexual é visto como “anormal”.

“Tanto a cultura bantu quanto a cultura cristã rejeita a homossexualidade. A sociedade angolana ainda não está preparada para assumir os homossexuais”, diz.

Jane Dias, nascido João Dias, 35 anos, já sentiu na pele essa intolerância.

“Já me atiraram pedras na rua. Antes eu pensava que era a única travesti de Viana (bairro de Luanda)”, conta.

Edna, nascido Edson*, 21 anos, desistiu da escola na oitava classe porque sofria muito com a perseguição dos colegas de classe.

Por conta desta intolerância, são raros os homossexuais assumidos em Angola.

O psicólogo social Carlinhos Zassala explica que, devido à dificuldade social e cultural, muitos homossexuais angolanos tentam se tornar bissexuais e encontram no casamento uma forma de fugir do estigma.

Uma vez casados, o sexo ocasional com outros homens se torna uma alternativa para extravasar o desejo reprimido.

“Muitos dos que nos xingam e nos atiram pedras na rua são os mesmos que vêm bater à nossa porta à noite”, entrega Jane.

Só que, em muitos casos, o sexo casual é desprotegido, sem o uso do preservativo.

“É por isso que o tabu ajuda na transmissão das infecções sexualmente transmissíveis e do HIV”, explica Zassala, que é também presidente da Associação Angolana de Psicólogos.

''Muitos dos que nos xingam e nos atiram pedras na rua são os mesmos que vêm bater à nossa porta à noite.''

Para ele, a notícia do casamento gay em Luanda foi positiva porque provocou a discussão do assunto na sociedade.

Em Angola, costuma haver uma associação direta do homossexualismo a homens que têm trejeitos femininos, o que nem sempre é o caso.

“Muitos homens que fazem sexo com homens não se consideram homossexuais. E se a pessoa não se reconhece, a mensagem de sexo seguro não a atinge”, diz Roberto Campos, oficial do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV e SIDA (ONUSIDA).“O facto é que o sexo anal desprotegido é uma relação de alto risco para a transmissão do vírus.”

Os homossexuais ouvidos pelo PlusNews confirmaram que já viveram situações de risco.

Edna diz que não gosta de usar camisinha porque o óleo lhe provoca alergias. Ela admite manter relações sexuais sem preservativo com o namorado, que é casado e pai de dois filhos.

Segundo Edna, o namorado já fez um teste de HIV no Hospital Militar, que deu negativo. Ela só fez o teste porque achou que já tivesse contraído o vírus.

“Há quatro meses, estava a me sentir fraca, com enjôo e resolvi fazer o teste. O resultado foi negativo, mas pediram para eu repetir daqui a três meses”, conta.

População invisível

Por ser uma população invisível, os homossexuais são ignorados em decisões governamentais, como o Plano Estratégico Nacional para o Controlo das Infecções de Transmissão Sexual, VIH e Sida, 2007 a 2010.

A exclusão dos homossexuais nos programas de HIV/SIDA em África foi comprovada por um estudo da Comissão Internacional para os Direitos Humanos de Gays e Lésbicas chamado Fora do Mapa (Off the Map, em inglês).

O relatório destaca que no continente africano, onde estão cerca de 60 por cento dos casos de HIV do mundo, “há um silêncio no que se refere à infecção do HIV entre os homossexuais”.

O resultado é que as mensagens sobre sexo seguro assumem uma orientação exclusivamente heterossexual e os gays não se sentem informados nem protegidos.

A desinformação vale também para o serviço de saúde.

Esmeralda, nascido Pedro*, 29 anos, conta que ao ir fazer o teste de HIV no Hospital Militar, em Luanda, ouviu do enfermeiro que nem precisava se testar porque, com certeza, já estava infectada.

Jane afirma que já fez o teste diversas vezes no Hospital Esperança e assiste a palestras sobre HIV e SIDA, mas reconhece que ela é uma exceção.

“Aconselho minhas amigas a fazer o teste também, mas a maioria tem medo. O maior medo delas é pensar como vão encarar as pessoas se forem seropositivas. Mas acho que se elas não souberem que estão infectadas, podem contaminar muitas pessoas”, diz.


Photo: Ministério da Educação de Angola
Homossexuais na pauta da saúde pública e da epidemia do HIV

Todos os homossexuais ouvidos pelo Plusnews manifestaram o desejo de serem atendidos num local específico.

“Eu gostaria que tivéssemos atenção especial. Muitas organizações já prometeram, mas até hoje nada saiu do papel”, reclama Edna.

Mudança política

Em 2006, a organização não-governamental Acção Humana tentou desenvolver um projecto de prevenção específico para homossexuais.

A proposta era divulgar o uso do preservativo, combater a discriminação e advogar pelos direitos humanos.

“Queríamos um projecto implementado pelos próprios homossexuais, que entrariam em contacto com outros gays nas discotecas, bares e praias, como educadores pares”, explica o coordenador da Acção Humana, Pombal Maria.

A organização chegou a reunir um grupo de 14 homossexuais, com os quais foi feita uma formação inicial, mas a idéia não vingou por falta de recursos.

Em 2007, a ONG apresentou uma nova proposta aos doadores, que foi recusada, pois “não existem homossexuais suficientes em Angola para justificar o projecto”.

Mas ainda que lentamente, a situação dos homossexuais em Angola já passa por pequenas mudanças. 

O INLS, em parceria com os Centros de Controlo de Doenças, em Atlanta, nos Estados Unidos, dará início em Junho ao primeiro estudo sobre homossexuais em Angola.

A idéia é identificar hábitos e comportamentos desse grupo, incluindo riscos e vulnerabilidade em relação ao HIV.

“Isso demonstra uma mudança política importante. Antes os homossexuais não eram um assunto prioritário. Agora eles deixam de ser invisíveis para ser incluídos na discussão da saúde pública e da epidemia do HIV”, diz Campos, do ONUSIDA.

(PlusNews – 27.05.2008 )





Site cria jogo online para educar sobre a aids

27 05 2008

O Hot or Not, um site ao qual as pessoas enviam fotografias delas mesmas para que desconhecidos votem em escala de um a 10 para dizer se são atraentes, criou muitas imitações (e atraiu críticas de muita gente que vê esse tipo de site como o fim da civilização.) Um novo site derivado, Pos or Not, tem propósito sério (ainda que de gosto discutível): é um esforço de educação sobre a aids disfarçado de jogo.

O site www.posornot.com mostra fotos e pequenas biografias de homens e mulheres com idades entre 21 e 30 anos e pede que os visitantes digam se eles são ou não portadores de HIV. A mensagem é que não se pode julgar a situação de uma pessoa quanto ao vírus apenas pela sua aparência, ocupação ou gosto musical.

 

“Sentimos que essa é mais uma ferramenta de ativismo para difundir a necessidade de proteção contra o HIV”, gerente geral da mtvU, divisão universitária da rede de TV a cabo MTV, parte do grupo Viacom, patrocinadora do projeto.

 

O primeiro teste pela mtvU do que Friedman define como “jogos pela mudança” foi o “Darfur is Dying”, uma simulação online de um campo de refugiados que atraiu mais de 1,5 milhão de usuários desde sua criação, em 2006. Outras empresas patrocinaram jogos sobre conflito entre israelenses e palestinos, o debate sobre a imigração e os recursos hídricos mundiais.

 

A rede quer que sua mensagem sobre o site de prevenção ao HIV seja difundida como um vídeo popular no YouTube, e conta com a ajuda de celebridades como o músico Wyclef Jean e a atriz Rosario Dawson.

 

A mtvU informa que o site foi visitado por 400 mil pessoas, e que o jogo foi usado 5,1 milhões de vezes, nas três primeiras semanas. “Mesmo que o jogo cause desconforto a algumas pessoas, isso não é necessariamente ruim”, defende Friedman.

 

Tradução: Paulo Migliacci ME (Brian Stelter)

The New York Times – 25.05.2008 )





OIT: Novas regras de trabalho podem ajudar na luta contra AIDS

27 05 2008

Relatório recente da Organização Internacional do Trabalho revela que muitos países tomam passos significativos para abordar a questão de VIH/AIDS no local de trabalho – e seus novos regulamentos podem ajudar na luta contra a doença.

A Organização Internacional do Trabalho, OIT (em inglês, International Labour Organization, ILO) declarou no seu relatório divulgado ontem que promover direitos humanos no local de trabalho para as pessoas que vivem com VIH/AIDS ajudaria em conseguir acesso universal a medidas de prevenção de VIH, assim como tratamento e cuidados de saúde.

O novo relatório da organização, intitulado “VIH/AIDS e o Mundo de Trabalho,” revela que mais de 70 Estados Membros da OIT adotaram, ou estão em processo de adotar, uma lei geral sobre VIH/AIDS, enquanto 30 países aplicam, ou planejam aplicar, regras específicas no local de trabalho para pessoas seropositivas ou com AIDS.

Ao mesmo tempo, a OIT diz que VIH tem um efeito devastador no mundo de trabalho. Uma maioria do mais que 33 milhões de pessoas no mundo vivendo com VIH estão ainda a trabalhar. Estão nos seus anos mais produtivos, com habilidades e experiência que as suas famílias e países não podem perder. No entanto, apesar de avanços importantes em atitudes e conhecimentos sobre AIDS, muitos trabalhadores ainda enfrentam discriminação, estigma e o temor de perder seu posto de trabalho.

Fonte: ONU

(Timofei BYELO/PRAVDA.Ru – 24.05.2008 )





O caminho é longo (Entrevista: David Baltimore)

27 05 2008

Dono de um Nobel há 33 anos, o biólogo diz que a cura da AIDS ainda está longe e conclama o Brasil a pesquisar células-tronco

“Acredito que devemos investir tempo, dinheiro e energia nas pesquisas com células-tronco embrionárias”

O biólogo David Baltimore, 70 anos, é um daqueles pioneiros da pesquisa que a academia americana produz com certa freqüência. Por isso, quando vem a público, como faz nesta entrevista, para dizer que a cura da AIDS está longe, tão longe que nem é possível afirmar que será descoberta, os cientistas o escutam com atenção. O vírus HIV, causador da AIDS, foi descoberto há 25 anos, data marcada por um encontro científico realizado em Paris na semana passada. Apesar do insucesso das pesquisas, Baltimore não é um pessimista. Ao contrário. É um entusiasta da ciência que, mesmo tendo recebido o Nobel de Medicina com apenas 37 anos, ainda se mantém ativo no laboratório e fascinado com a profissão. “Eu me entusiasmo quando estou diante de um bom texto científico, de um bom trabalho, mesmo de uma boa conversa.” Além de ser um defensor convicto das pesquisas com células-tronco, ele está seguro de que esse trabalho terá resultado mais profícuo que as pesquisas sobre a cura da AIDS e, mais cedo ou mais tarde, trará bons resultados para a humanidade. Nesta entrevista a VEJA, Baltimore fala do desafio que o HIV representa para a ciência e convida o Brasil a integrar o mutirão científico autorizando a pesquisa com células-tronco embrionárias, tema que o Supremo Tribunal Federal julgará nesta quinta-feira, em Brasília.

Veja – Por que os experimentos para encontrar uma vacina contra a AIDS até hoje não chegaram a lugar algum?

Baltimore – O caminho é dificílimo. É tão difícil que, neste momento, não sei afirmar quando teremos uma vacina, nem se a teremos um dia. Tenho esperança de que a comunidade científica terá sucesso nessa empreitada, mas até hoje não descobrimos um caminho que nos dê segurança de que chegaremos a uma vacina. É fundamental que os cientistas prossigam com as pesquisas, mas o vírus HIV, pela própria constituição, é praticamente insensível a anticorpos, e a maioria das vacinas trabalha com anticorpos. Talvez o caminho do combate à AIDS seja outro.

Veja – Qual é o outro caminho?

Baltimore – Estamos explorando uma linha de pesquisa com terapia genética. Nossos estudos pretendem descobrir se podemos modificar o sistema imunológico de uma pessoa. Se conseguirmos isso, podemos dotar o sistema imunológico da capacidade de fazer coisas que naturalmente ele não sabe fazer, como combater o HIV.

Veja – A terapia genética, se funcionar para combater o HIV, funcionaria também contra o câncer?

Baltimore – Sim, inclusive neste momento também estamos trabalhando com câncer nas nossas pesquisas.

Veja – Que linha de pesquisa está mais próxima do sucesso contra a AIDS: a terapia genética ou a vacina?

Baltimore – É difícil dizer. Há grandes desafios técnicos tanto numa linha quanto na outra. O fato é que o HIV está desafiando as habilidades da ciência atual.

Veja – O que o senhor sentiu quando viu um vírus HIV pela primeira vez?

Baltimore – Foi logo que descobriram a existência do vírus, no início dos anos 80. Quando me dei conta do que estava diante de mim, confesso que fiquei pasmo e assustado. Fiquei realmente assustado. Era a primeira vez que eu via um retrovírus. Ele era capaz de fazer coisas que nunca tínhamos visto antes. De causar imunodeficiência, ou seja, de tornar ineficiente nosso sistema imunológico. Foi impressionante e assustador.

Veja – A Justiça brasileira vai decidir em breve se autoriza ou não a pesquisa com células-tronco de embriões humanos descartados nas clínicas de fertilização. Quem é contra diz que destruir um embrião equivale a um assassinato. O que o senhor acha?

Baltimore – Não sei falar a respeito do aspecto jurídico do assunto, mas do ponto de vista científico é uma discussão sem sentido. Afinal, os embriões humanos foram descartados porque o casal já teve o número de filhos que queria ou por qualquer outra razão. O fato é que os embriões serão destruídos de qualquer modo. A questão é saber se serão destruídos fazendo o bem a outras pessoas ou não. A meu ver, a resposta é óbvia.

Veja – Sendo um país onde a pesquisa científica ainda engatinha, o Brasil pode fazer alguma diferença entrando para o clube das nações que realizam pesquisas com embriões?

Baltimore – Sem dúvida. Nunca estive no Brasil, mas conheço cientistas brasileiros e tenho colegas que já lecionaram no país. Por isso, posso dizer que, se o Brasil adotar uma linha de pesquisa de alto nível, sua contribuição poderá ser enorme.

Veja – Cientistas que defendem a preservação dos embriões nas clínicas de fertilização costumam dizer que as pesquisas com células-tronco adultas são tão ou mais promissoras que as com células-tronco embrionárias. É verdade?

Baltimore – Se eu fosse fazer uma aposta, diria que as células-tronco adultas serão as primeiras a nos apresentar resultados concretos, porque nós as conhecemos melhor, sabemos mais sobre seu funcionamento. Nesse sentido, quando se trata de buscar resultados mais imediatos, as células-tronco adultas são mais promissoras. Mas, a longo prazo, as células-tronco embrionárias são muito mais promissoras, porque têm potencial de transformação muito superior. Elas têm capacidade de evoluir para qualquer tecido humano, mas ainda não as conhecemos tão bem. Produzir resultados a partir das células-tronco de embriões, portanto, é algo que vai levar mais tempo. Mas a tendência é que os resultados, quando surgirem, sejam mais importantes do que os advindos das pesquisas com células-tronco adultas.

Veja – O senhor recomendaria que a pesquisa se concentrasse nas células-tronco adultas porque o resultado tende a ser mais rápido?

Baltimore – Não é prudente paralisar nenhum caminho promissor de pesquisa, mas acredito que devemos investir tempo, dinheiro e energia nas pesquisas com células-tronco embrionárias. Como elas têm potencial de evolução praticamente ilimitado, os experimentos aí vão produzir mais conhecimento científico.

Veja – Há risco de as pesquisas com células-tronco consumirem tempo, dinheiro e energia e resultarem em nada?

Baltimore – As células-tronco são um universo fascinante, certamente produzirão algum resultado, mas os problemas que temos pela frente são grandes. O caminho é longo.

Veja – Qual o grande desafio?

Baltimore – Controlar a evolução das células-tronco. Como elas têm imenso potencial de transformação, temos de descobrir como fazê-las evoluir num sentido específico, no sentido que desejamos. Por exemplo, se quisermos que se transformem em um nervo, em um tecido cardíaco ou ósseo, teremos de ter garantias de que a evolução resultará em um nervo, em um tecido cardíaco ou ósseo. Nosso desafio é saber como evitar que cresçam de modo desordenado, porque isso pode resultar num câncer. Além de descobrirmos como controlar essa evolução, temos de ser capazes de aplicar esse controle de modo rotineiro e sistemático. Ainda não temos respostas para essas questões.

Veja – Religião e ciência são incompatíveis?

Baltimore – Entendo que ciência e religião atuam em campos distintos. Uma não responde às perguntas da outra. Por isso, não vejo incompatibilidade.

Baltimore – O governo do presidente George W. Bush, cujo fundamentalismo religioso barrou todo um campo de pesquisas científicas, é um governo contra a ciência?

Veja – Não sei se é contra, mas certamente esse governo tem sido notável na falta de interesse pela ciência. Até o órgão de apoio à ciência, que costumava funcionar na Casa Branca, foi transferido para outro lugar em Washington. Tudo se soma para mostrar que o atual governo não se interessa pelo assunto.

Veja – O governo da Califórnia aprovou a criação de um fundo de 3 bilhões de dólares para financiar as pesquisas com células-tronco de embriões humanos, já que a Casa Branca decidiu fechar o cofre. Isso já produziu bons resultados?

Baltimore – Como o governo em Washington não apóia as pesquisas com embriões, os cientistas enfrentam constrangimentos legais porque não sabem se podem ou não apostar em certos caminhos de pesquisa. Isso acaba travando até mesmo a liberação de recursos financeiros. Quando deixei o comitê que escolhia os projetos científicos que o governo da Califórnia financiaria, havia pouco dinheiro liberado. Alguns laboratórios chegaram a fazer belos trabalhos apoiados pela política científica do estado, mas ainda é cedo para falar em bons resultados. Temos apenas uns dois anos de trabalho nisso. É pouco.

Veja – O desinteresse do governo americano ajudou a atrasar o progresso científico no mundo?

Baltimore – Acredito que sim. No caso das células-tronco, por exemplo, cujo financiamento com verba federal é limitado a apenas algumas linhas de pesquisa, a contribuição dos Estados Unidos poderia ter sido muito mais ampla. O mundo tem feito um trabalho fantástico nessa área, mas a ciência americana poderia ter ajudado. Por sorte, isso deve acabar com a eleição presidencial, sejam quais forem os candidatos e seja quem for o eleito. Tanto o republicano (o senador John McCain) quanto os democratas (os senadores Barack Obama e Hillary Clinton) têm mostrado isso. A atual política científica americana deve ser modificada imediatamente. Nos Estados Unidos, apesar dos investimentos privados, o governo é o grande incentivador da ciência. Como a Casa Branca historicamente cuida com carinho do assunto, o país conseguiu um desenvolvimento científico notável, mas nem sempre a ciência tem apoio da política.

Veja – A falta de apoio político retarda o avanço de certos experimentos ou chega a paralisá-los por completo?

Baltimore – Na década de 70, por exemplo, a fertilização in vitro era um assunto delicado, gerava polêmica, e os políticos preferiram tomar distância. No entanto, as pesquisas acabaram se desenvolvendo mesmo assim. Nesse caso, a falta de apoio governamental teve outra decorrência negativa nos Estados Unidos. A fertilização in vitro se desenvolveu como uma indústria sem regulamentação, porque o governo tinha receio de se envolver com o assunto. A fertilização in vitro é sensacional, deu vida a muitas crianças que de outro modo não teriam nascido, mas o fato é que não conhecemos a qualidade do trabalho que se faz em muitos lugares. Isso não é recomendável.

Veja – As crescentes denúncias de fraudes científicas não podem minar a credibilidade de que a ciência precisa justamente num momento em que lida com assuntos polêmicos, como a clonagem?

Baltimore – Precisamos entender que temos visto mais casos de fraude porque estamos fazendo mais ciência. Não acho que seja um assunto que já tenha chegado ao ponto de ameaçar a credibilidade dos cientistas e das suas pesquisas.

Veja – Já se passaram mais de vinte anos do escândalo em que a brasileira Thereza Imanishi-Kari foi acusada de falsificar dados num experimento em que ela trabalhava com o senhor. O seu envolvimento nesse caso, que acabou resultando na sua renúncia à presidência da Universidade Rockefeller, emperrou sua carreira de algum modo?

Baltimore – É claro que isso tornou minha vida mais difícil, mas às vezes é o preço que temos de pagar por adotar uma posição que julgamos correta. Thereza é brasileira e, por ser estrangeira, tinha mais dificuldade de se defender. Eu estava defendendo uma colega. Tenho orgulho de ter ficado ao lado dela. Thereza estava sendo acusada injustamente.

Veja – Os cientistas que se tornam celebridades mundiais com suas pesquisas podem acabar se sentindo pressionados a sempre produzir coisas espetaculares. Em alguns casos, isso pode estimular uma fraude?

Baltimore - Acredito que em sua maioria os colegas que chegaram ao ponto de ganhar fama mundial por seus trabalhos já provaram que são cientistas extraordinários. Talvez isso tenha sido um problema no caso do coreano que fraudou sua pesquisa (refere-se ao biólogo sul-coreano Woo-Suk Hwang, que fraudou um trabalho em que dizia ter clonado células-tronco embrionárias). O problema é que ele virou um superstar sem ter feito muita coisa antes. Mas é um problema raro.

Veja – O senhor recebeu o Prêmio Nobel de Medicina quando tinha 37 anos, em 1975. De lá para cá, não teve de lidar com um peso excessivo sobre os ombros, um compromisso de ser genial em cada passo do seu trabalho?

Baltimore – Na verdade, é o contrário. A maioria das pessoas acha que depois de receber um Nobel você não vai fazer mais nada de relevante. Muita gente até fica impressionada quando sabe que eu ainda estou fazendo pesquisa.

Veja – O Nobel ajudou a lhe abrir portas para ganhar financiamento para suas pesquisas?

Baltimore – Nos Estados Unidos, o Nobel não abre portas. O grosso dos financiamentos vem do governo federal, e o pessoal do governo até costuma olhar quem tem um Nobel com mais atenção, fazendo um escrutínio mais rigoroso para se certificar da real importância do trabalho. Eles querem descartar a suspeita de que o laureado esteja pedindo dinheiro sem muito fundamento, confiando apenas no prestígio de ser um prêmio Nobel.

Veja – O senhor ainda fica empolgado quando aparece alguma novidade no laboratório?

Baltimore – Completamente. É empolgante participar do cotidiano da ciência, do seu passo-a-passo, do seu progresso. Sinto o mesmo entusiasmo de quando era jovem. E me entusiasmo quando estou diante de um bom texto científico, de um bom trabalho, mesmo de uma boa conversa. Eu poderia me aposentar, mas essas coisas me empolgam de verdade.

Veja – Aposentar-se, então, jamais?

Baltimore – Depende. Não sei o que virá primeiro, se a morte ou a aposentadoria.

(André Petry, de Nova York/Veja – 24.05.2008 )





Com fervor e autonomia

27 05 2008

VERA PAIVA – Professora do Instituto de Psicologia  da USP e coordenadora do Núcleo de Estudos para a Prevenção da Aids;  Para psicóloga, a religião, em si, protege a juventude. Mas não impede que os fiéis sejam sujeitos da própria sexualidade

 

Vera Paiva é uma ativista dos direitos humanos – e das palavras certas no lugar devido. Vigia as próprias expressões e as minhas, e está cercada de textos precisamente científicos empilhados na bancada em L do escritório de sua casa, em São Paulo. No computador, ela mostra mais um trabalho, e outro, muitos já fugidos do campo virtual para a ação. Um deles tem o seguinte título: Jovens e Religião: Sexualidade e Direitos entre Lideranças Católicas, Evangélicas e Afro-brasileiras.

Foi especialmente sobre os resultados desse material que conversamos às vésperas de dois congestionados eventos na capital paulista: a 16ª Marcha para Jesus, que, soubemos depois, reuniu 1,2 milhão de marchantes na quinta-feira, e a 12ª Parada do Orgulho GLBT, que deve atrair hoje cerca de 3,5 milhões. O grupo que Vera coordenou queria compreender como a convivência em comunidades religiosas repercute na experiência sexual dos jovens em SP, Rio e Recife. Os resultados em detalhe ela explica daqui a pouco, na entrevista.

Por ora, a professora da USP, colaboradora da Universidade Colúmbia, nos EUA, e autora de livros sobre sexualidades, gêneros e aids, como Fazendo Arte com a Camisinha, reconhece que tivemos grandes avanços nos últimos 20 anos quanto ao uso do preservativo. Também afirma que a religião protege a juventude em certa medida. Mas interpela seu otimismo com dois entretantos: muitos evangélicos iniciam sua vida sexual sem a prevenção, e a aids avança entre os jovens brasileiros, em especial os homossexuais. “Não podemos perder essa janela de oportunidade imensa de trabalhar a educação sexual em um grupo gigantesco de gente.” É a hora e a vez, portanto, de arrebanhar a multidão de jovens contra os estigmas e a favor do direito irrestrito à informação, conclui, ajeitando a pilha de vírgulas, dois pontos e exclamações sobre a mesa do escritório.

A senhora coordenou uma pesquisa que envolveu jovens, religião e sexualidade. Qual foi o resultado mais surpreendente?

Fizemos uma pesquisa entre líderes católicos, evangélicos e afro-brasileiros em São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. O que verificamos é que, entre jovens pentecostais, houve um aumento da proporção dos que se iniciaram sexualmente antes dos 19 anos, provavelmente antes de casar. E esse número aumentou sem a prevenção. Ou seja, esses jovens estão aumentando a quantidade de sexo, mas não a de camisinha.

A que atribui isso?

Quero chamar a atenção para o seguinte: mesmo diante dos dogmas, as pessoas conseguem ser sujeitas de sua própria sexualidade. Veja que esse estudo envolveu jovens que são líderes religiosos na sua comunidade. Eles participam, são ativos, militam. Os evangélicos afirmam que sexo fora ou antes do casamento é pecado e permitem ou mesmo recomendam contraceptivos, mas dentro do matrimônio. Quando você vai ver, uma proporção imensa deles transou antes do casamento – e sem preservativo. Então dizem uma coisa e fazem outra.

A Igreja Católica também prega o sexo após o casamento.

Sim, tanto a Igreja quanto os cristãos protestantes estimulam o adiamento da vida sexual até o casamento. E, na verdade, o que se tem é uma contradição gigantesca – em boa parte, a idade média de iniciação sexual está pelos 15 anos, tanto para meninos quanto para meninas. Raras pessoas casam antes disso. O que a pesquisa mostrou, porém, é que houve um aumento no uso de preservativos na primeira relação, exceto entre os jovens protestantes.

O jovem conversa com os líderes religiosos sobre sexo?

Os líderes se preocupam com o impacto da erotização da mídia entre jovens e apontam a atividade sexual como um assunto que se propõem a acolher. O que a pesquisa revelou, no entanto, é que quase 100% dos jovens conversam, em primeiro lugar, com os amigos. Depois, com os pais. Em seguida, com o namorado ou com a namorada e, então, com outros parentes. Os líderes religiosos chega, no máximo, a 5%. E, ainda assim, não se fala de sexo como fonte de prazer e descoberta, mas como razão de sofrimento e problemas.

Qual deveria ser o tom dessa conversa?

Não adianta falar que sexo é perigoso e proibido. Precisamos ensinar as pessoas a transformar a curiosidade e a vontade de amar em entrega, em vontade de ter intimidade. Isso não é uma questão restrita à juventude, mas é ali que se inicia. Ao mesmo tempo, é necessário quebrar essa imagem de que a adolescência é uma fase problemática da vida. No campo da sexualidade, a gente não se cura da adolescência quando passa para a vida adulta. Estamos nos enganando achando que, depois dos 21 anos, todo mundo vai usar camisinha, não vai engravidar contra a vontade, não vai ser impulsivo. Isso é uma bobagem. Cria-se a ilusão de que, assim que passar dessa idade, está tudo resolvido. Sem projetos de educação, o jovem pode mesmo transformar o desejo inconsciente num desejo atuado de forma inconseqüente e uma ilusão. Agora, se você acha que é a idade que provoca isso, será absolutamente injusto com 90% dos jovens que são absolutamente comportados, estudam quando podem, vão à escola quando têm essa alternativa, quando a estrutura familiar permite e a escola não expulsa.

Mas certos comportamentos na adolescência tendem a se perpetuar?

Nada é perpétuo. Muitas pessoas mudam ao longo da vida. Mas sabemos que os primeiros anos são marcantes em relação ao que seremos no futuro, inclusive em relação à sexualidade. Uma criança abusada sexualmente tem uma experiência diferente de vida em relação a esse tema. Um adolescente que começa a vida sexual impondo-se cuidado e planejamento tende a manter isso ao longo do tempo. O adolescente que se arrisca o tempo inteiro pode se relacionar assim lá na frente.

A religião protege o jovem?

Em certo sentido, sim. Ser membro de uma comunidade religiosa ajuda o jovem a permanecer na escola, a ter acesso à saúde. Religião dá sentido à vida, ajuda a ter valores estruturados, auxilia a família e a escola a educar. Ao mesmo tempo, é fonte de discriminação. Cerca de 3% dos católicos, 16% dos evangélicos e 30% dos pertencentes ao candomblé/umbanda disseram isso na pesquisas. Os devotos desse último grupo costumam, inclusive, esconder a própria religião, afirmando ser espíritas ou espiritualistas. Os evangélicos também são discriminados, mas não escondem seu credo.

O sexo tem a mesma significação para todos os grupos?

Para os adeptos do candomblé e da umbanda, o sexo é fonte de prazer e troca de energia. Já a maioria dos católicos diz que sexo é prova de amor pelo parceiro ou pela parceira. Uma proporção importante deles também afirma ser importante para constituir família, mas essa é a maior escolha dos evangélicos. Interessante que, quase na mesma medida para afro-brasileiros e católicos, o sexo é uma necessidade física, como a fome e a sede. Para todos, a idade não é importante para a primeira vez, mas a maturidade, sim.

Como esses grupos vêem a homossexualidade?

A maioria entende que ser homossexual não tem a ver com a esfera religiosa, que os homossexuais precisam ser respeitados “como seres humanos”, aumentou a proporção de tolerância com os homossexuais, mas que nem por isso eles devem demonstrar ou atuar sua sexualidade dentro do grupo religioso. Esse tema foi especialmente quente e polêmico entre os jovens e líderes do candomblé e da umbanda, que esperavam mais “tolerância” aos homossexuais no cotidiano e nas respostas aos questionários. Ainda assim, a homossexualidade é mais acolhida entre os afro-brasileiros, tanto como orientação sexual assumida quanto para o sacerdócio.

E para os evangélicos e católicos?

A heteronormatividade é uma referência nas religiões cristãs. Para os evangélicos, conduzir-se abertamente como homossexual é uma forma de não respeitar a religião porque o papel do homem e da mulher é a reprodução. O homossexual deve, então, ser acolhido e aconselhado, mas precisa passar por um “tratamento espiritual” para “se libertar de sua orientação”. Alguns líderes acreditam que o homossexual não pode ser sacerdote porque é papel de “homem” ou porque precisam ainda superar seu “homossexualismo”, remetendo novamente à patologia. Entre católicos e anglicanos, a homossexualidade está em pauta. Há muitos grupos católicos mais abertos à diversidade, que começam a debater o dogma, apesar do discurso oficial nada progressista da Igreja. Entre os anglicanos, já é possível um gay viver a experiência do exercício do sacerdócio, por exemplo.

A senhora também coordenou um trabalho com jovens portadores do HIV. O estigma da aids ainda está associado à homossexualidade?

Sim. Muitos meninos com quem a gente conversou tinham medo de dizer que eram portadores e serem chamados de “bicha”, quando podem ter sido infectados pelos pais ou numa relação sexual na rua. Vice-versa e ao contrário. O menino homossexual também não consegue conversar com os outros e discutir o assunto em casa, na igreja ou na escola. Os que estão à volta acham que o silêncio ensina alguma coisa, como se o silêncio fosse equivalente a eliminar a curiosidade, o desejo de namorar, a paixão. O silêncio não ensina. Ele deixa um vácuo que os jovens preenchem com a experiência viva, que pode ser desastrosa, ou com informações incorretas ou mal resolvidas.

Quais seriam essas experiências desastrosas?

Eles podem deprimir, se maltratar, não se relacionar, se esconder, que é o que há de mais triste. É uma restrição desnecessária de horizontes, tanto para os homossexuais como para esses jovens portadores de HIV. Eles têm desejos que não podem existir. No caso dos adolescentes com HIV, há todo o dilema de para quem contar, como contar, quando contar, o medo de ser abandonado, ser rejeitado. E eles ainda precisam lidar com o início da vida sexual, o marco da adolescência. Como ocorre com todos os adolescentes, os adultos mostram o perigo. Não ensinam como dizer sim, só como dizer não. Isso atrapalha porque dificulta o acesso à informação. Veja você que é grande o número de jovens, cerca de 70% na nossa pesquisa, que fazem sexo contra a vontade, sob violência. Isso é mais comum entre meninos homossexuais. A situação fica ainda mais complicada quando se observa que a aids está crescendo justamente entre os jovens, em particular os homossexuais. A aids não é problema superado.

Nesse sentido, em que está falhando a educação sexual?

Nas escolas, quando se dá informação sobre aids, assume-se que a prevenção é para heterossexuais ou para pessoas negativas. Esquece-se que, naquele grupo de alunos, pode haver jovens portadores do HIV que, portanto, vão precisar de um pouco mais de informação. O mesmo ocorre com os jovens homossexuais. Onde está a informação específica para quem faz sexo de um modo diferente?

O grau de escolaridade faz diferença na prevenção?

A escolaridade protege em vários sentidos. Os jovens de mais escolaridade têm taxa de uso de preservativo muito maior e, além disso, iniciam a vida sexual bem mais tarde. Estão há mais tempo na escola, têm projetos de vida que se confundem com a profissionalização e, eventualmente, abrem mão de outras coisas. A escolaridade é um próxis de renda familiar, um dos indicadores mais interessantes para a gente compreender o status socioeconômico. Esse status significa não apenas a quantidade de dinheiro que se tem, mas onde ele é investido. Exemplo clássico: uma colega nossa fez uma comparação entre famílias operárias e famílias de funcionários públicos com a mesma renda. As famílias operárias, ou seja, B e C em ascensão, tendem a gastar o que ganham para comprar casa, para se estabelecer no terreno, ser proprietárias de algumas coisas. Não necessariamente investem diretamente em educação. As famílias de funcionários públicos, por sua vez, tendem a pagar aluguel, morar no centro da cidade, tudo para investir brutalmente na educação dos seus filhos. Normalmente, as famílias de maior escolaridade estão seguindo o rumo daquilo que é mais típico das famílias de alta renda, que é investir fortemente na educação e ensinar os filhos a se cuidar melhor.

Na pesquisa sobre uso de preservativos na iniciação sexual dos adolescentes brasileiros, apareceu um resultado intrigante: a diminuição do uso de camisinha em jovens mais escolarizados que iniciaram a vida sexual com menos de 14 anos. Como explicar isso?

Ele é relevante. A minha hipótese é a de que tem muita gente com alta escolaridade nesse grupo que começa a vida sexual de forma desprotegida. Não é um problema dos pobres. A questão é que se deixou de fazer a prevenção da aids. Os pais e as escolas estão achando que o problema está resolvido. O fato de termos um programa bem-sucedido de aids pode levar a crer que quem faz o programa é o outro; eu não preciso mais fazer a minha parte. As pessoas enjoaram de falar sobre aids e se esqueceram de que os jovens que estão ali não são os mesmos de cinco, seis, sete, oito, nove, dez anos atrás. Eu tenho de falar o tempo inteiro sobre isso porque a aids não vai embora, a cura não aconteceu, a gente não derrotou o vírus.

O fato de não se ver na mídia pessoas abatidas pela doença pode contribuir para essa sensação de que a aids está superada?

Existe hoje uma cultura de se fazer o serosorting, ou seja, acreditar que é possível adivinhar o status sorológico do parceiro pelo aspecto do portador. A cara da aids não é a cara da lipodistrofia. Outros acham que é coisa de gay de mais idade, mas, como já disse, a aids está crescendo entre os mais jovens. Outros acreditam que virou distúrbio crônico, tal qual diabete. Acontece que a discriminação ainda é pesadíssima sobre quem é portador. A dificuldade para namorar, para revelar aos parceiros que se têm o HIV… Até conseguimos reduzir o estigma de forma importante no Brasil, mas a vida com aids não é igual à vida sem aids.

O tema oficial da Parada GLBT deste ano é a defesa do Estado laico. Essa bandeira política é eficaz?

Ela é fundamental para garantir as políticas de Estado de prevenção para que a gente possa falar abertamente sobre camisinha na escola – mas não só. Deve-se incorporar e respeitar os valores de todas as religiões em todos os contextos. A gente entra em um tribunal e tem lá um crucifixo; no serviço de saúde há uma cruz. É complicadíssimo para um pai-de-santo fazer um ritual de despedida para uma pessoa dentro de um hospital, por exemplo. As crianças adeptas do candomblé e da umbanda sentem dificuldade para discutir seus valores na escola, assim como os evangélicos. Aliás, é importante aceitar que os evangélicos defendam a virgindade até o casamento. Isso não significa que prescindam de informações sobre prevenção para o caso de mudarem de idéia, de religião, de sofrerem abuso ou de se verem em um contexto em que agir de acordo com os seus valores seja impossível por mil razões. Isso é um direito da juventude, independentemente de sua crença e orientação sexual.

É possível produzir tolerância religiosa e sexual ao mesmo tempo?

Sim. Sentimos isso quando colocamos líderes e jovens das três religiões para conversar sobre os direitos à proteção, que são direitos humanos, em suma. Uma tolerância produz a outra e vice-versa. Fortalece-se a idéia de que a humanidade é, em princípio, diversa. Não existe uma humanidade natural, a humanidade do homem, a humanidade da mulher. Gênero é um conceito cultural, aquilo que a sociedade diz ser do homem e da mulher, e não um conceito biológico. Ele varia na sociedade brasileira em função da religião, da crença, da rede social. Em certo contexto, a bissexualidade pode ser aceita entre as meninas. Mas será igual entre os meninos?

Como, em resumo, fortalecer o Estado laico nesse quadro de direitos humanos?

Há um princípio usado pelo Boaventura de Sousa Santos (sociólogo português) para interpretar a Carta dos Direitos Humanos, que eu adoro. É o seguinte: defender a igualdade sempre que a diferença gerar inferioridade e defender a diferença sempre que a igualdade implicar descaracterização. Se consigo respeitar as crenças e os valores dos outros, consigo respeitar as orientações sexuais dos outros. Precisamos trabalhar com a noção de que o direito à informação e à prevenção são direitos humanos, fundamentais, e que, uma vez assim, é uma obrigação do Estado proteger e promover esses direitos. Isso é o que justifica o Estado laico.

EM FOCO
“Cerca de 30% dos afro-brasileiros dizem sofrer discriminação por serem religiosos”

EM TERMOS
“Para evangélicos, o homossexual pode ser acolhido, mas deve passar por ‘tratamento’”

EM ALERTA
“Enjoaram de falar de aids, mas a cura não aconteceu, a gente não
derrotou o vírus”

(Mônica Manir /O Estado de São Paulo – 25.05.2008 )