MOÇAMBIQUE: Tenho muito a dar a este país

25 05 2008

 


Photo: Abraço
 

MAPUTO, 23 Maio 2008 (PlusNews) – Quando recebeu o resultado positivo de seu teste de HIV, a primeira reacção do universitário moçambicano Lauro* foi achar que a senhora que o atendia estava a lhe pregar uma peça.

Não estava.

Foi um baque. O rapaz, que até então nunca tinha ficado doente, perdeu oito quilos em uma semana. A princípio, escondeu a verdade de todos. Depois contou a seus pais e à namorada. Sua família o apoiou. A namorada pôs fim à relação.

Hoje, Lauro está no último ano da faculdade. Mantém-se saudável, participa do grupo de evangelização de sua igreja e diz que “tem muito a dar a este país”. “Não estou doente. Sou apenas seropositivo, o que é diferente”, diz.

Ele ressalta que os universitários também são vulneráveis, apesar de terem mais informação. “Muitas vezes o problema não é a falta de informação. Tudo depende de como se faz a gestão dessa informação”, explica.

Não estou doente. Sou apenas seropositivo.

Lauro*

Nasci na cidade da Beira, em 1983. Vivi muitos anos em Nampula, no norte de Moçambique, onde cresci e tive a minha formação secundária.

Agora frequento o último ano do meu curso na minha universidade, em Maputo. Moro numa residência universitária com outros estudantes de cursos diferentes.

Sou cristão e frequento a igreja Assembléia de Deus. Sou membro de um grupo de jovens que cantam rap para evangelizar. Nas nossas canções incluímos também mensagens sobre SIDA.

Sou seropositivo e soube dessa situação em 2006, quando fiz o teste de HIV. Não me é fácil saber onde, quando e como fiquei infectado, mas julgo que não foi bastante tempo porque nunca fiquei doente. Nunca tive crise de saúde.

Comecei a sentir alguns sintomas estranhos como feridas por baixo do braço, mas que não doíam. Corri logo ao hospital e o médico aconselhou-me a fazer o teste de HIV. Eu nunca pensei que pudesse ser seropositivo, por isso não hesitei em ir.

No dia seguinte fui ao Gabinete de Aconselhamento e Testagem Voluntária do Centro de Saúde Primeiro de Maio em Maputo e fiz o teste. Alguns minutos depois a senhora que me atendeu anunciou-me o resultado.

Era positivo. Não acreditei. Primeiro pensei que ela estivesse a gozar comigo, mas era mesmo verdade. Mostrou-me os papéis e confirmei.

Chorei bastante antes de sair daquela sala, mas a senhora desempenhou um papel muito importante naquele momento. O seu aconselhamento fortificou-me. Na verdade, disse-me tudo aquilo que eu já sabia, mas o disse de uma forma diferente. Convenceu-me de que eu não estava morto. Que estava apenas infectado com o vírus, mas não doente.

Enfrentando a realidade

Embora o aconselhamento daquela profissional tivesse sido muito importante para mim naquele dia, confesso que toda aquela semana sofri bastante. Eu pesava 60 quilos antes do teste, mas perdi volta de oito em uma só semana.

Aquela verdade me feria, mas não a queria compartilhar com ninguém. Escondi a verdade de todos: dos meus colegas do quarto e da faculdade, dos professores, da minha namorada e dos meus pais na Beira.

Nas férias de Junho daquele ano viajei a Beira e contei a verdade aos meus pais. Eles ficaram chocados no início, mas deram-me uma grande força. Meu pai convocou uma reunião em casa e chamou meus dois irmãos, para informar-lhes sobre o meu estado.

Graças a Deus, todos me deram força e continuam a dar-me até hoje.

Na época tinha uma namorada. Ela era minha conterrânea, mas conhecemo-nos na universidade. Depois dos meus pais, chegava a vez de enfrentar a minha parceira. Quando lhe informei da minha situação, ela preferiu romper com a relação.

Não me zanguei com ela. Estava no seu direito decidir se queria ou não continuar comigo. A moça tinha apenas 21 anos e não era justo forçá-la a ficar comigo.

Felizmente ela não estava infectada, pois usávamos sempre o preservativo. Depois de romper com a relação, decidi ficar sozinho e concentrar-me nos meus estudos.

Comecei a medicar logo que soube da minha situação. Os medicamentos nunca me causaram efeitos negativos. Foi bom ter sabido do meu estado a tempo.

Ser universitário seropositivo

Eu tenho um nível de percepção suficiente para entender que minha vida não terminou. Sou um jovem saudável, tenho 24 anos e tenho muito a dar a este país. Não estou doente, isso deve ficar claro. Sou apenas seropositivo, o que é diferente. Os médicos dizem que estou bastante bem.

Se não interromper o tratamento antiretroviral poderei permanecer saudável durante cerca de 20 anos. Não bebo, não fumo e decidi, por enquanto, não envolver-me sexualmente com ninguém. Isso me vai ajudar a resistir a doenças oportunistas.

Mesmo assim, não posso revelar-me seropositivo diante de meus colegas da residência e da turma. Se o fizer, vou sofrer muita discriminação. Nem quero imaginar o isolamento que eles me vão causar. Assim me tratam como pessoa normal e me respeitam. Se soubessem que estou infectado eu estaria numa situação diferente.

Portanto, nem os professores nem os colegas sabem da minha situação. E prefiro que não saibam, pelo menos durante a minha formação.

Quando falo sobre minha situação a pesquisadores e jornalistas, peço sempre que me garantam anonimato. Mais do que meu nome, o mais importante é o que tenho a dizer. A discriminação é muito forte e não gostaria de experimentá-la.

Universitários também são vulneráveis

É lógico que os universitários são mais informados que outras pessoas. Nós somos a minoria esclarecida. Mas muitas vezes o problema não é a falta de informação. Tudo depende de como se faz a gestão dessa informação.

Eu conhecia as maneiras pelas quais se apanha o HIV, mas não consegui controlar-me. Estar mais informado não significa ser menos vulnerável. Eu não concordo com a ideia de que os mais informados são menos vulneráveis. É mentira. Há dados que provam que nas universidades há muitos estudantes seropositivos.

*nome fictício

(PlusNews – 23.05.2008 )


Acções

Informação

Publicar um comentário