GARISSA, 21 Maio 2008 (PlusNews) – Líderes muçulmanos na província queniana do Nordeste resolveram organizar uma campanha contra a promoção de preservativos como meio de evitar o HIV.
A decisão foi tomada depois de um recente encontro sobre o tema “Islão e Saúde”, com a participação de mais de 60 académicos e professores muçulmanos na capital provincial de Garissa.
“Muito dinheiro está sendo gasto para envenenar a nossa comunidade…enormes somas de dinheiro são gastas na compra de preservativos, na compra de imoralidade”, disse o Sheik Mohamud Ali, do distrito de Garissa.
Os líderes concordaram em pregar activamente contra o uso e a promoção pública de preservativos como uma estratégia para conter a pandemia e evitar a gravidez. Eles também concordaram em se opor à distribuição de preservativos nas aldeias e instituições educacionais no nordeste.
“Não nos opomos às campanhas de resposta ao HIV do Ministério da Saúde, mas o que nos preocupa é que estão a usá-las de maneira errada, que não é aceitável na nossa tradição e religião”, disse Ali. “Não podemos usar os mesmos meios em todo país para combater estes problemas. Devemos nos envolver nas campanhas e as nossas sugestões devem aceites.”
Os clérigos ainda exigiram o fechamento de bares no nordeste e pediram ao governo que suspenda o licenciamento de quaisquer novos bares. Segundo eles, os bares locais e as “salas de vídeo” passam filmes pornográficos que estavam a contribuir para o aumento de infecções sexualmente transmissíveis. A propagação do abuso de drogas foi um outro factor: o “khat”, estimulante suave localmente produzido, é popular na região.
Os líderes ressaltaram que a melhor maneira para os jovens evitarem o HIV era através da obediência aos ensinamentos islâmicos, como jejum, reza regular e evitar relações extraconjugais. Eles aconselharam os homens a evitar olhar para as mulheres que, por sua vez, devem vestir-se com modéstia.
Abundam idéias erradas
Abdi Welli, um taxista de Garissa, disse que concordava com os clérigos que os preservativos deviam ser banidos. Ele acredita no famoso mito de que os preservativos estão contaminados com o HIV.
“Sabemos que os preservativos não são seguros…se queres contrair o vírus que causa a SIDA, então use [um preservativo],” disse. “Afinal, sempre ouvimos dizer no passado que o mundo ocidental está a usar o preservativo para eliminar os africanos, e os muçulmanos em particular.”
Discutir assuntos relacionados a sexo é tradicionalmente tabu, o que tem levado a uma ignorância generalizada sobre o HIV e a SIDA no nordeste.
Embora a seroprevalência na região seja uma das mais baixas no país – 1,4 por cento comparadas com a média nacional de 5,1 por cento, segundo o Conselho Nacional de Controlo da SIDA no Quénia – a região também tem a mais baixa taxa de utilização de preservativos, o que, segundo profissionais da saúde, contribui para novas infecções pelo HIV. Muitos comerciantes recusam-se a vender preservativos alegando que eles promovem imoralidade, portanto sua disponibilidade é limitada.
Profissionais da saúde mostraram-se preocupados com a decisão dos líderes muçulmanos, dizendo que ela pode prejudicar os esforços anti-SIDA na região. Osman Warfa, médico provincial, que participou na reunião, disse que os preservativos são essenciais na resposta à pandemia.
“Isso certamente vai dar a alguns jovens uma desculpa para não usar o preservativo, e isto vai colocar muitos deles em risco”, disse.
Preservativos gratuitos vão continuar a estar disponíveis nos centros de saúde do governo na região.
(PlusNews – 21.05.2008 )



Comentários Recentes