MOÇAMBIQUE: HIV no rádio – por crianças, para crianças

19 05 2008

A moçambicana Vladimira Oliveira Cidazal é uma das produtoras mais jovens da Rádio Infantil, no distrito de Alto Molócue, na província da Zambézia.

Com apenas 11 anos, ela tem uma agenda cheia, com a produção de quatro programas por semana e a apresentação ao vivo de um deles aos sábados, para uma platéia de 100 crianças.

Sua voz é de criança, mas a propriedade e o engajamento com que fala de seu trabalho não têm nada de infantil.

“Eu sou pequena, mas gosto de trabalhar na rádio. Eu falo de direitos das crianças e ainda apresento um programa ao vivo”, diz, orgulhosa.

Sua carreira na Rádio Infantil começou por acaso: ela é vizinha do estúdio e de sua sala conseguia ouvir a música alta, principalmente quando o programa era ao vivo.

Um dia ela resolveu aparecer no estúdio. Não demorou muito para ser convidada a integrar a equipa.

Vladimira é uma das 50 crianças envolvidas no projecto Rádio Infantil, criado em 2002 pela organização não-governamental dinamarquesa Ibis Moçambique e transmitido pela Rádio Comunitária do Alto Molócue.

Os quatro programas da Rádio Infantil – Uma história para ti, Magazine, Crianças alegres e Conheça seus direitos – são inteiramente produzidos e apresentados por crianças com idades entre sete e 15 anos, em português e na língua local lomue.

“Quem melhor do que as crianças para falar com outras crianças?”, pergunta Tomás Samuel Liomba, oficial de programa de educação da Ibis Moçambique, em Alto Molócue. “Os programas são feitos por crianças, para crianças.”

Isso se aplica também à questão do HIV: todos os programas da Rádio Infantil hoje reservam alguns minutos de sua grade para falar sobre a epidemia.

Moçambique tem uma seroprevalência nacional de 16,2 por cento. Na província da Zambézia, esse número é de 18,4 por cento.

Programas feitos sob medida

Cris Matepule André, de 15 anos, trabalha voluntariamente na rádio desde os 11 anos. De ouvinte a produtora, hoje uma de suas responsabilidades é produzir as pequenas intervenções sobre HIV inseridas na programação.

''Engajar e capacitar crianças é fácil. Difícil é os pais aceitarem que seus filhos falem sobre HIV. Eles acham que é muito cedo.''

“Eu já tinha aprendido um pouco na escola, mas nós tivemos uma formação sobre a SIDA. Aprendemos muito, inclusive como falar sobre o HIV com crianças”, diz.

Segundo Liomba, a abordagem do tema varia de acordo com a idade dos ouvintes.

O programa Uma história para ti, por exemplo, voltado para crianças menores, trata da epidemia de uma perspectiva mais infantil.

“Falamos que não é bom brincar com lâminas porque elas podem se cortar. Ou que podemos brincar com crianças seropositivas, porque elas são crianças normais”, explica.

Cris, que quer ser engenheira agrónoma porque “gosta de plantar”, diz que o retorno dos programas é muito bom. Além das opiniões dos colegas na escola, ela recebe cartas dos ouvintes com sugestões.

“O programa é muito útil porque ensinamos os direitos e deveres das crianças, falamos sobre HIV e SIDA, todo mundo participa”, diz.

O que poderia ser apenas uma percepção foi comprovada na prática: uma pesquisa feita recentemente entre os ouvintes da Rádio Comunitária do Alto Molócue mostrou que os programas do projecto Rádio Infantil são os mais ouvidos da estação.

Crianças engajadas, pais desconfiados

Mesmo com a pouca idade das crianças, Zuneide Omar Ali, coordenadora da Rádio Infantil, acredita que nunca é cedo para que elas comecem a se envolver no trabalho com a rádio.

“Nós ensinamos um pouco de jornalismo, depois passamos alguns aspectos técnicos. Elas participam e aprendem tudo muito rápido”, conta.

Apesar de a Rádio Infantil ser campeã de audiência, alguns pais ainda olham para o aspecto HIV da programação com certa desconfiança.


Photo: IBIS Mozambique
Hora de brincadeira na Rádio Infantil

“Engajar e capacitar as crianças é fácil. Difícil é os pais aceitarem que seus filhos falem sobre HIV. Eles acham que é muito cedo”, diz.

Esaú João Porto Mwalacalaquenle, de 15 anos, faz parte da equipa desde 2002. Falante e bem articulado, ele diz que foi graças ao trabalho na rádio que venceu a timidez.

Também um dos responsáveis pelo trecho HIV da programação, ele diz que é importante falar do tema, principalmente com os adolescentes, que ouvem o programa Magazine.

“Falamos de prevenção, de abstinência, não é tão difícil. Procuramos uma linguagem simples para que depois de escutar, todo mundo possa praticar”, conta.

Rumo ao futuro

Os jovens produtores têm planos de ampliar a abordagem do HIV na programação: a ideia é promover um debate, para aumentar a participação do público.

“Mas para os debates precisamos de meios para comunicar com as crianças, como telefone, que não temos no estúdio”, diz Cris.

Mais do que infra-estrutura, Ali lamenta falta de profissionais, como médicos e activistas, que possam preparar e supervisionar as crianças para tratar de um tema tão delicado.

“A única formação que tivemos sobre o assunto aconteceu há dois anos. Precisamos de alguém que possa nos capacitar, reciclar o conhecimento das crianças”, conta.

Mesmo com os obstáculos, ela fala de sua equipa com orgulho e esperança.

“É muito bom ver essas crianças tão novas já capacitadas e passando o conhecimento para frente. E elas ainda são crianças – imagine quando estiverem crescidas”, diz Ali.
(PlusNews – 15,05,2008 )


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2 06 2009
Lucilene Simões

Escrevo do Brasil e parabenizo pelo trabalho de primeira linha. Sou professora universitária e estou em projeto de construção de um programa destinado à criança, família e educadores. Vopu seguir o exemplo de voces. Parabéns mais uma vez!!!

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