Tintas das tatuagens são “reutilizáveis” e podem infectar

9 05 2008

Quando se pensa nos riscos de infecções envolvidos na realização de tatuagens associa-se quase sempre às agulhas, mas a presidente da Associação SOS Hepatites, Emília Rodrigues, lembra que as tintas são “reutilizáveis” e que os restos passam de uma utilização para outra.
A responsável sublinhou ainda que mesmo os estabelecimentos de piercings e tatuagens que abrem o material à frente do cliente podem não oferecer garantias de segurança. Isto porque unidades que aparentemente usam “material descartável” esterilizam muitas vezes o material nas suas instalações e depois voltam a embalá-lo com máquinas próprias. O problema é que o vírus da hepatite C sobrevive até aos 300 graus de temperatura, diz Emília Rodrigues, que refere o exemplo de uma unidade que esteriliza a apenas 120 graus.
O responsável pela consulta de hepatites víricas do Hospital de Santa Maria, Rui Tato Marinho, refere que o risco de contágio das hepatite B e C – as formas mais perigosas da doença – através de material infectado usado em tatuagens e piercings ou em manicures e pedicures é baixo (dois por cento), mas existe. E deu o exemplo de um doente que atendeu recentemente que tinha sido contaminado com hepatite B numa ida a um manicure fora de Portugal. O especialista, que falava num workshop para jornalistas sobre hepatites, defendeu “uma maior fiscalização nestas áreas”.
Tato Marinho lembra que na hepatite B, transmissível através de contacto com sangue e fluidos de pessoa infectada, existe vacina e está incluída no plano nacional de vacinação administrando-se em três doses na infância. Mas a sua inclusão data apenas de 2000 e, sendo uma doença transmissível por via sexual, há pessoas com actividade sexual que estão desprotegidas. Defende, por isso, que as pessoas por volta dos 30 a 40 anos se vacinem. Trata-se de uma doença com tratamento mas sem cura.
A presidente da Associação SOS Hepatites defende que as pessoas devem fazer rastreio às hepatites através do médico de família, bastando para isso o pedido de uma análise sanguínea. Mas alerta: “A análise sanguínea normal não inclui hepatites, têm que se pedir. O rastreio não é normal em centros de saúde e é no médico de família que deve começar o processo de descoberta”.
O especialista do Hospital de Santa Maria, que é também presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado, defende ainda que as crianças devem ser vacinadas contra a hepatite A a partir de um ano de idade, apesar de tal não ser obrigatório. A hepatite A é uma forma menos grave da doença que se transmite, por exemplo, através de mãos mal lavadas, às vezes em creches. A vacina não faz parte do plano nacional de vacinação e admite que a sua inclusão não seja uma prioridade.

(Publico – 09.05.2008 )


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